Existem riscos associados a tentar recriar grandes momentos do passado que nos iluminaram a memória de tal forma que, mais tarde, nos atrevemos a reincidir.

Obviamente que não falo de idas repetidas a um restaurante que nos encheu as medidas e que passou a ser uma das nossas referências para as aventuras gastronómicas.

O que está em causa é a repetição de alguma experiência transcendente – que neste caso também envolveu comes e bebes – mas que não se resumiu a isso. Foi uma imersão de corpo e de espírito de tal modo agradável e poderosa que a recordamos com saudade, dando-nos por vezes “ganas” de a revisitar muitos anos depois.

Numa das minhas primeiras visitas a Paris em trabalho, meados de 1981, estava ansioso por visitar o Centro Georges Pompidou, inaugurado em 1977 mas que naquela altura tinha acabado a “rodagem” e começava a ser um marco cultural de grande relevo na cidade-luz.

O Centro tinha sido construído ao lado dos antigos mercados abastecedores de Paris – Les Halles –   bairro especializado onde se comia e bebia muito bem.

Recordo os locais peritos em carne, sobretudo o clássico “Louchebem” que era propriedade de uma família de talhantes há mais de 5 gerações no negócio. Recordo ainda os vinhos magníficos que essa família colocava na mesa, muitos sem marca nem rótulo, fruto das suas peregrinações pelo Limousin em busca da melhor carne.

E lembro-me também (a uns 150 metros do Centro Pompidou) do “Pied de Cochon” – casa antiga – já com quase 40 anos de vida na altura dessa viagem que fiz – onde se podia comer o pé de porco em várias apresentações, com relevo para o que era recheado com trufas. Há uma lenda engraçada em redor deste restaurante, como nunca fecha – está aberto 24h, 365 dias por ano – dizem que não tem interruptores de eletricidade nem chave de porta…O que é mentira, mas não deixa de ser “ben trovato”, de acordo com o aforismo famoso de Giordano Bruno.

Pois foi ao redor do Centro Georges Pompidou que tive um dos meus dias mais felizes, exatamente em 1981.

Almocei no Louchebem, jantei no Pied de Cochon e nos intervalos apanhei um banho de cultura dentro do Museu de Arte Moderna do Centro Pompidou. Era novo, não me pesavam nas pernas sete ou oito horas de passeio por entre as obras de arte.

Abria a boca de espanto ao lado dos impressionistas e à frente dos outros, Picassos, Matisses, Chagall  e por aí fora, tal e qual como se fosse um  patego chegado da província ( que o era),

E o deslumbramento de comer sozinho em duas casas de considerável reputação decerto que adicionou muitos pontos a esse dia mágico. No Louchebem comi na sala principal, mas no Pied de Cochon arranjaram-me mesa na esplanada. Onde estive a namorar flütes de champagne quase até à meia noite.

Tentei repetir esta receita 38 anos depois.

Infelizmente o deslumbramento não se repetiu.

O Museu de Arte Moderna continua igual ao que sempre foi, as grandes exposições temporárias são muito boas, mas as pernas do “patego” têm mais 38 anos do que tinham quando ali estivera. E ao fim de tantos anos o “patego” evoluiu culturalmente e perdeu grande parte da sua capacidade de deslumbramento.

Louchebem e Pied de Cochon ainda existem, felizmente, mas estão nas mãos de grupos internacionais. A qualidade tenta manter-se, mas a pressão de turistas é de tal forma que se torna muito difícil mimar o cliente como acontecia antigamente.

A rotação das mesas é impressionante. O pessoal está treinado para ser simpático e acolhedor, mas quase nunca tem tempo para trocar umas palavras com o cliente.

Estamos longe da “cena” amistosa do patrão do Louchebem, que no passado se sentava à nossa mesa com a garrafita da “poire” sem rótulo, para saber de onde tínhamos vindo e se tínhamos gostado.

A esplanada do Pied de Cochon é quase uma pista de corridas para quem passa de trotinete, a qualquer hora do dia ou da noite. Há clientes que acham graça e batem palmas…

Por outro lado, namorar o champagne até à meia-noite e assim ocupando uma mesita não parece ser uma característica apreciada pelo “novo regime”.

No meio disto tudo achei graça ler uma critica do circunspecto “The Guardian” sobre este restaurante, datada de 2016. Diz bastante bem.

O crítico deve ser novinho e, de acordo com a redação do artigo, foi aquela a primeira vez que ali entrara.

O que diria se conhecesse a casa em 1981?

A idade é uma pôrra.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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