Comer melhor no Natal será habitual para quem pode.  Sem esquecer, obviamente, as situações de carência que nos continuam a envergonhar por todo o mundo e que não se limitam infelizmente ao dia de Natal.

Comer “melhor” terá diferentes interpretações no nosso país. Pode ser o lombo de porco bem adubado do Alentejo, o cabrito das Beiras, os filetes de polvo nortenhos, o peru importado das américas, e por aí fora.

Sobre estas diferenças já aqui fizemos crónicas, pelo que vamos andando até chegar à questão da “alarvice natalícia”.

Quando eu era mais novo quem costumava tratar das coisas desta quadra era a geração de cima. Sendo solteiro, os meus pais. E já depois de casado, os meus sogros e os meus pais, em anos alternados.

O que vou relatar foi o primeiro Natal passado na nossa casa de “casados de fresco”. Aquela vez em que resolvemos sermos nós a convidar pais e sogros para a festa da família. Imaginem um casal novo, ainda com pouca prática da vida a dois (e de como gerir a “coisa”), e que se viu impelido a convidar para sua casa os quatro progenitores para a noite de Natal e para o almoço do dia seguinte.

O meu pai avisou logo que o vinho trazia ele, porque o do meu sogro era bom para o dia-a-dia, mas no Natal queria melhor. O meu sogro mandou dizer que vinho era ele que trazia, lá da sua lavra, tinto e branco, pois não confiava nas garrafas de rótulo.  A minha mãe ofereceu-se para trazer o peru já assado de casa dela. E a minha sogra disse à filha que trazia o cabrito na cesta, para assar em nossa casa.

Eu tinha encomendado, na Garret do Estoril, bolo-rei, bolo de Natal, broas castelares e de espécie e o tronco de chocolate com fios de ovos. A minha sogra queria passar a noite anterior a fazer com a filha os “fritinhos” (filhoses, sonhos e fatias douradas). E a minha mãe avisou que trazia o pudim de ananás.

Uma única coisa não era “repetida”: o meu pai tratava do bacalhau – do princípio até ao fim – e não consentia que mais alguém se metesse no assunto. Mas as couves e as batatas vieram lá da terra dos sogros.

Já estão a ver o teatro que se estava a preparar. Devido às dimensões da coisa já nem era teatro, mas sim uma produção do Nabucco de Verdi. Uma ópera inteira.

Começámos os dois a entrar em crise quando percebemos que o nosso fogão normalzinho era capaz de ser pequeno para tanta coisa.  Mesmo que viessem já feitas algumas das “pièces de resistance” de casa dos meus pais, que por feliz acaso era perto.

A minha mulher normalmente achava que essa proximidade não era assim tão feliz, mas naquela altura mordeu a língua e calou-se…

A única vantagem da “reunião” ser em nossa casa era a sala de jantar com mesa que sentava oito pessoas, pelo que sobrava algum espaço para as inumeráveis travessas. Mesmo assim houve que requisitar parte da sala de estar para encostar mais um aparador à parede.

A véspera de Natal ainda se passou bem e sem demasiada confusão. Comeu-se o bacalhau com as couves, a minha sogra ia trazendo para a mesa as filhoses que estava a fazer ao lume, E – o que me tinha deixado mais apavorado – pai e sogro bebiam de tudo o que tinham à mão de semear, branco e tinto, sem grandes preocupações quanto à origem do material, com ou sem rótulos.

Recordo-me que quando nos deitámos, lá para as duas da manhã, estávamos tão cansados que caímos no sono imediatamente.

Seriam sete da manhã quando a minha sogra bateu à porta para chamar a filha: estava na altura de pôr o cabrito a assar. Seriam nove e meia quando apareceu o meu pai, querendo preparar no mesmo fogão a “meia desfeita “com as sobras da véspera. Lá pelas onze veio a minha mãe, aflita com o peso do tabuleiro do peru assado.

Apesar das ajudas da cozinha dos pais, o problema era conseguir com quatro bicos de gás dar seguimento à festa com todos os acompanhamentos: ervas (esparregado grosso) da Beira Alta, batatas fritas para seis, a meia-desfeita, o forno com o cabrito e onde se poria o peru para não arrefecer?

Lá para o meio-dia a minha mulher e eu o que queríamos era desaparecer para um local qualquer onde não se festejasse o natal.

Íamos a meio da refeição – que como imaginam começou tarde – quando o meu sogro constata com algum desgosto para a minha mulher:

– “Filha, nem fizeste os filetes de polvo, que são aquilo que mais gosto nestes dias…”

Chiça senhores ouvintes.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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