“Esquisito” para comer era dantes o cidadão ou a cidadã que tinham “fastio”. Não gostavam de qualquer coisa, comiam pouco e a custo.

Em tempos idos era esta uma situação preocupante, sobretudo para as jovens. O que levava os progenitores a caminho dos médicos, de onde vinham ainda mais preocupados, receando maleitas do coração. Não o enfarte, mas mais os desgostos de amor.

Morria-se de amor no século XVIII e XIX. E antes disso já o bardo tinha escrito a bíblia sobre o assunto, tomando como exemplo os imortais amantes de Verona. Se foi Shakespeare o “pai da matéria” dos amores contrariados não esqueçamos, todavia, o grande Camilo e as figuras de Simão e de Mariana que deram a réplica aqui no cenário luso.

Mas não são essas “esquisitices” que aqui estão na berlinda. Antes algumas tradições, alguns pratos típicos, alguns hábitos à mesa ou fora dela, mas que tenham a ver com a comida e bebida. Todos eles “esquisitos” para o comum dos mortais.

A crónica “esquisita” inicial tem a ver com Monção e com a tradição velhinha da “foda”.

Não a “foda” no sentido mais intimista do termo, mas sim a “foda” na gastronomia minhota de Monção.

Nesses termos culinários, “foda” é o anho assado no forno acolitado por arroz também ele de forno.

Como se chegou a tal impropério para alcunhar um prato que, embora seja delicioso, é tão simples de descrever?

Conheço duas histórias. Uma delas será a “oficial”. A outra é mais “oficiosa”.

Começo pela primeira, com chapelada à fonte onde a recolhi: “cultura.pt – feira da foda, origem e histórias”.

Segundo parece, em tempos idos os pastores que vendiam ovelhas e borregos nas feiras minhotas tinham o hábito de, algum tempo antes do mercado, dar aos animais ervas salgadas para os alimentar, o que levava a que consumissem muitos litros de água que lhes enchia a barriga e lhes dava uma aparência opulenta de gordura e formosura, tornando-os assim mais atraentes para os compradores.

Quando o incauto lavrador chegava a casa com os borregos gordos e reluzentes rapidamente verificava nos dias seguintes que a aparente riqueza de carnes opulentas nada mais era do que barrigas cheias de água.

E gritava para a mulher e para os filhos: “Isto é que foi uma grande foda!”

A outra história é mais recente, já do século 20 e aconteceu (terá acontecido) durante o Estado Novo.

Um notável de Monção – edil camarário, grande agricultor – tinha ficado de receber em sua casa um ministro da república.

De imediato começou os preparativos para o banquete que lhe haveria de oferecer.

E o cabrito, então considerado a carne nobre por excelência, foi logo ali convocado para festança.

Já nas vésperas da notável ocorrência a mulher do edil, pesarosa, veio dizer-lhe que não tinha conseguido arranjar cabritos. Tinha borregos e bons para assar no forno de lenha.

O homem ficou perdido da cabeça, arrancou os poucos cabelos que ainda tinha e, olhando para as carcaças dos anhos já na cozinha à espera do tempero, só repetia: “Isto é que aqui está uma grande foda!”

Lá veio o ministro, lá comeu os anhos no forno como se fossem cabritos, lambeu os beiços, repetiu a dose e saiu a cantar as loas de tal hospitalidade minhota.

Mais sossegado o lavrador confessava depois à mulher e ajudantes de cozinha que “salvou-se a foda!”

Esta história terá sido repetida bastas vezes em casa do lavrador e fora dela. E como era engraçada, dava para gozar com o pimpão de Lisboa que tinha sido enganado e acabara bem para a raça minhota, tornou-se (diríamos hoje) “viral”.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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