Um adeus sentido à “esquisita” amiga Lilita.

Fechou a “Lilita”, o famoso (por diversos motivos adiante escalpelizados) Café Correia em Vila do Bispo. Cansaço dos proprietários, foi a razão que alegaram.

Era um dos meus paradouros preferidos durante o mês de Agosto algarvio, um mês estuporado por nos obrigar a esperas e a mau serviço geral.

Mas no Café Correia, onde pontificava a Dona Lilita e o seu marido (Senhor Batista, grande mestre cuca), era um sossego que parecia inverno. Só lá entrava quem ela entendia e para os amigos havia sempre lugar.

Ser considerado “amigo da Lilita” era mais difícil do que obter uma Comenda. Era necessário tento na língua, adulação no ponto, cortesia e mansidão de trato, repetição da presença e paciência. Muita paciência.

Chegar ao “perigoso” (para alguns) Café Correia não tinha nada que enganar, ficava mesmo ao lado da Estação de Correios de Vila do Bispo, em frente ao largo da igreja..

Casa de grandes tradições, há mais de 50 anos a bem servir quem eles - os patrões - muito bem queriam e apenas quando desejavam; e a dar de comer o que muito bem entendiam.

Daí o epíteto "esquisito" com que comecei.

“Importa-se de repetir?” - Perguntarão alguns, meio incrédulos com esta introdução.

Ou conheciam o Café Correia  e as idiossincrasias da Dª Lilita (e então percebem bem) ou então não conheciam, e nada do que eu possa aqui escrever os vai preparar para o choque...

Lilita e seu marido José Batista, o grande cozinheiro desta simples casa de pasto, segundo diziam à boca cheia, não precisavam de dinheiro para viver :

"-Só dá maçadas e já temos que nos chegue graças a Deus".

Nestas condições ser recebido como cliente habitual do "Correia" era quase como ser integrado na família. Era uma honra.

Ao jantar, e se houvesse muita gente à espera, nem sonhar em pressionar a dona da casa. Ia logo tudo pela porta fora que a Lilita não era de modas. Recordo-me de lá ter visto meia hora à espera o Sr. Eng.º Belmiro de Azevedo (por exemplo, poderia falar de outras grandes figuras da política) e esteve sempre muito calado e sossegado, porque era bom conhecedor daquele meio e já sabia a “tradição” da casa.

Ao almoço havia mais hipóteses de termos um tratamento mais (diria eu) “normal” e conseguirmos comer em tempo razoável. Mas mesmo assim tínhamos de chegar calmos e mansos e falando baixinho. E sobretudo que não aparecessem por lá grupos pois a Lilita odiava ajuntamentos. Para ela mais do que cinco criaturas era já um comício.

Não deveríamos igualmente ter a audácia de pedir a “carta”, o “menu”, para escolher os pratos, se esta não vos fosse dada pela patroa logo à entrada...Ali comia-se o que tinham trazido do mercado naquele dia.

Outro detalhe “encantador”: o Café Correia abria às 13,30H e a Dª Lilita não gostava que  começassem os convivas a entupir o passeio em frente à casa mais cedo:

"- Faz-me impressão, parece o gado a correr para o bebedouro".

Então como se poderia sobreviver naquela selva e – sobretudo – por que razão despudorada haveríamos de ali querer ir comer?

É que qualquer coisa que por lá se comesse era superlativa de qualidade e de saber culinário - obviamente que num registo caseiro, rústico, da comida tradicional algarvia.

Eis alguns exemplos: Xerém de ameijoas; Sopa de Peixe; Arroz de peixe; Tomatada de polvo; Lulas recheadas à Correia; Massa de peixe; Chocos Guisados. Frango em tomate; Borrego à Correia; Cabidela de galinha e Coelho à Correia. Peras em vinho tinto; Arroz doce; Doce de alfarroba; Morgados e Tarte de amêndoa.

No tempo deles, ou quando o mar permitia, também havia percebes da ponta de Sagres e camarão vivo da costa Vicentina.

Os vinhos estavam dentro de uma arca vertical e a Lilita, no seu cirandar atarefado pela sala, atirava o saca-rolhas para cima da mesa e dizia para o cliente:

” - Vá lá à arca escolher o que quiser e abra, que eu agora não tenho vagar”.

Os preços ultimamente já não eram o que tinham sido há muitos anos quando comecei a frequentar, mas admito que mesmo agora  duas pessoas poderiam gastar cerca de 60€ se tivessem cuidado com os vinhos... E por esse preço comiam de tudo o que houvesse na cozinha, pequenas doses de cada vez, servidas em tachinhos pequenos.

O cozinheiro e sócio patrão costumava vir às mesas falar com os clientes e a conversa era sempre a mesma: "- Gostou? Estava Bem?" E quando recebia os louvores entusiásticos da comunidade dizia com humildade “- Lá calhou..."

E pronto. Acabou esta esquisita locanda algarvia onde várias vezes fui muito feliz. Desejo muita saúde à Lilita e ao Sr. Batista, para aproveitarem estas suas férias prolongadas. E agradeço ter feito parte da sua roda (muito) limitada de amigos.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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