A esquisitice de hoje tem a ver com insetos, mais precisamente com “gafanhotos”.

O “gafanhoto” de que aqui se fala – e embora o artigo seja de gastronomia – não é o restaurante do mesmo nome na Gafanha da Encarnação (Ílhavo) local estimável e até valioso para quem gosta das sopas de peixe, ensopados e caldeiradas à moda da gente vagueira e das outras comunidades onde ainda se pratica a arte xávega.

Trata-se mesmo do inseto bíblico praguento. Um bichinho voador da ordem Orthoptera, nome que denomina o grupo de insetos com asas em linha reta. Fazem igualmente parte desse grupo os “grilos” e as “esperanças”.

Mas vamos devagar. Em muitos locais do mundo desde sempre que alguns insetos faziam parte da alimentação comum. Em alturas de enorme proliferação (as chamadas “pragas”) a disponibilidade de tanta proteína facilmente acessível não podia ser ignorada.  Isso levou que já em tempos remotos (século I) um imperador chinês tenha decretado que os gafanhotos não eram um sinal da cólera divina, mas sim uma revelação da bondade da natureza.

Oficialmente, desde 2018 que é legal na UE a venda de insetos e seus derivados para consumo humano, de acordo com o Regulamento “Novel Food” 2283\2015.

As farinhas feitas com base em grilos ou gafanhotos já podem ser adquiridas no nosso país, e diz quem as provou que são inócuas no gosto, retirando-se das mesmas amplos benefícios quanto ao teor de proteína. Aliás, a própria FAO – sempre preocupada com a escassez de recursos – investigou e concluiu que “”muitos insetos são ricos em energia, proteínas, aminoácidos, ácidos gordos e micronutrientes como o cobre, o ferro, o magnésio, o manganésio, o fósforo, o selénio e o zinco, assim como a riboflavina (vitamina B2) e o ácido fólico”.

Ingerir insetos em farinhas será uma coisa. Comê-los grelhados ou assados na brasa espetados em pauzinhos é outra um pouco diferente.

Aconteceu comigo há bastante tempo, na Cidade do México. Nessa urbe vendem-se os “chapulines” (gafanhotos) fritos em sacos de papel (cartuxos), tal e qual como se vende no sul de Espanha o camarão frito. E o gosto parece idêntico ao do camarão. Está claro que o picante e o sal disfarçam… E depois de dois ou três copitos de Mezcal marcham gafanhotos, larvas, minhocas e o mais que por lá houvesse. Incluindo “croquetes de caviar asteca” um preparado feito com ovas de…mosquitos.

As ovas de formiga (escamoles) são uma iguaria mexicana que já se serve em restaurantes de referência. Normalmente envoltas em guacamole, de outras vezes refogadas com alho e cebola. Provei um “taco” onde eram ingrediente básico e soube-me bem. Mas o que ressaltou da prova foi o guacamole…Nem eu saberia distinguir o gosto da formiga.

Se fossem “formigos” à moda do Minho, o típico doce de Natal com ovos, pinhões, nozes e uvas passas, outro galo cantaria.

Destas provas esquisitas no grande país da América Central ressaltou o facto de me ser impossível escolher por opção gastronómica, de gosto e vontade, comer insetos.

Admito que possam vir a ser uma ajuda inestimável no combate à fome em países de recursos escassos. Admito até que no futuro sejam um dos mais importantes braços armados da civilização devido ao eventual colapso das colheitas tradicionais por motivos climáticos.

Mas escolher comê-los por apetite guloso? Em frente de um prato de camarão de Espinho e a um outro de gafanhotos do Alqueva, escolher os gafanhotos?

Não o faria e duvido muito (sinceramente) que qualquer guru que aposta na “modernidade” o faça, a não ser para afirmar um princípio moral ou cívico, ambos obviamente respeitáveis.

Comer de forma gastronómica é a arte da autoindulgência levada ao extremo. E não se deve confundir com comer para sobreviver e por necessidade fisiológica.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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