A tradição familiar, quando estávamos em Viana do Castelo, mandava-nos comer na Cozinha das Malheiras, um restaurante na Rua Gago Coutinho, à Praça da República, mesmo no centro de Viana, onde pontificava na sala o estimável Senhor Palhares, amigo de meu pai.

A passagem dos anos afeta a memória e vai dando cabo destas recordações, mas encarrega-se igualmente de alterar os factos. A Cozinha das Malheiras ainda existe na mesma localização, mas o amigo Palhares infelizmente já não se encontra entre nós.

Esta casa encontra-se muito perto do solar da família Malheiro Reimão (edifício do seculo XVIII), tendo tomado o nome dessa gente antiga. Esteve encerrado por largos anos, depois do desaparecimento do Sr. Palhares, mas tomei conhecimento que tinha aberto em 2015 com nova gerência de sotaque gaulês.

Comia-se muito bem nas Malheiras no tempo do amigo Palhares, sobretudo a lampreia (que era a perdição de meu pai) e o sável. De tal forma que invariavelmente a nossa visita anual ao Minho era quase sempre em Março…

Seria até um dos poucos Restaurantes em Portugal onde a escabechada de sável podia ser encomendada para peixes inteiros, que teriam de ficar vários dias dentro do escabeche, para amolecer as espinhas e impregnar o sabor.

E apresentava igualmente com qualidade a tradicional receita minhota da “santola no seu carro”, nalguns lados também conhecida como “caranguejola”. Dizem os entendidos que se trata de uma receita típica de Viana e consiste numa santola impressionantemente fresca e de bom tamanho, cozida no momento e cujo recheio é depois complementado apenas com ovo cozido, molho cor-de-rosa (mayonnaise emulsionada com molho de tomate), salsa finamente picada e um tudo-nada de sal e pimenta (ou malagueta para quem gosta).

Tem de vir quente para a mesa (sinal de que foi mesmo cozida na altura) e quando a “bicha” está bem cheia e ovada, é um monumento da cozinha nacional.

Recordo-me ainda de ser ainda possível lá comer na Cozinha das Malheiras o autêntico Presunto de Melgaço, artesanal, que era delicioso. E que naquela época – anos 70 do século passado – seria já raro, antecipando o ocaso pela pouca rentabilidade da produção, que nos privou da sua presença durante décadas.

Depois de bastos anos de esquecimento há que louvar a família Cerdeira (Soalheiro) que conseguiu colocar este muito antigo presunto minhoto (de bísaro) de novo nas rotas gastronómicas da península.

O vinho, nas Malheiras, era naquela altura sempre o verde particular, Alvarinho ou Loureiro, de algum lavrador amigo do Sr. Palhares. E a Aguardente de Vinho Verde envelhecida em casco, vinha da mesma proveniência.

Mas a história que quero contar não é bem dessa altura das visitas familiares, mas mais tardia, quando eu já trabalhava em Lisboa e era ainda o Sr. Palhares a alma daquela casa, que geriu por mais de 30 anos.

Conhecedor da empresa onde eu trabalhava (e maroto como os bons minhotos) logo me disse para não me esquecer de dar um abraço em Lisboa a um primo dele que era meu colega. O Eng.º Palhares.

Ora eu conhecia bem o Eng.º Palhares, uma joia de amigo sempre pronto a ajudar e a colaborar, conhecido por dar gratuitamente aulas de matemática a todos os colegas que desejavam tirar o então 7º ano do liceu como alunos trabalhadores. Mas era o Sr. Palhares de Viana do Castelo branco, branquinho como a cal da parede, enquanto o “meu” Palhares de Lisboa era negro retinto, africano de Angola.

Já em Lisboa o amigo Eng.º Palhares elucidou-me:

Esse meu primo de Viana é um brincalhão! O meu avô Manuel Palhares, natural da freguesia de Lara, Concelho de Monção, foi para Angola em fins do Sec. XIX e aí teve numerosa prole, sendo eu um dos seus descendentes. A família Palhares tem assim dois ramos, o europeu e africano. Que eu saiba… Porque o tal avô era muito dado ao convívio como todos os minhotos que se prezam…

Também o Eng.º Palhares já nos deixou, precocemente, e deixando um mar de saudades do tamanho de Angola.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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