É mau de assistir e, claro, é ainda pior quando é connosco, porque já se sabe que a pimenta no olho do outro é refresco. É horrível uma criança ficar a chorar pela mãe quando esta tem que ir trabalhar.

São 08h da manhã e estou no comboio para o trabalho. 40 minutos de viagem. Não me queixo, apanho o comboio e o metro e, por dia, são sensivelmente 2h em viagens. Há pessoas que fazem bem mais. Eu já fiz bem mais noutras alturas da minha vida. Mas esta viagem acabou de ganhar um peso que não lhe costumo atribuir quando, na última paragem, saiu uma mãe que deixou o filho com a avó, a gritar "quero a mãe" como se estivesse a ficar sem ar para respirar. Tenho a certeza que aquela mãe caminha agora apressada com o passe do metro, a lancheira e o coração nas mãos, como eu fico tantas vezes quando o meu filho fica a chorar na escola ou quando tenho que o deixar com os avós por algum motivo.

É contranatura para uma mãe não poder atender ao choro dos seus filhos, porque biologicamente, a mulher não foi construída para isso. E caramba, se a mulher foi desenhada para o multitasking. A ciência explica. A mãe está biologicamente programada para atender ao choro dos filhos e é contranatura não o fazer, por isso é que começam logo a apoderar-se de nós uns suores, é dos nervos. Quando nasce um bebé, ocorrem, na sua mãe, transformações neuro-hormonais que a preparam para resistir ao stress e ao cansaço. Está provado que o cérebro das mulheres muda muito depois de ser mãe, processo que tem início ainda durante a gravidez, mas ainda não se sabe se essas mudanças são reversíveis. Um estudo publicado na revista Nature Neuroscience demonstra, através de ressonâncias magnéticas feitas a grupos de mulheres que já haviam sido mães e outras que ainda não tinham passado pela experiência da maternidade, que a massa cinzenta das primeiras sofre uma redução, mas calma aí com o martelinho do julgamento. Menos quantidade não é igual a menos qualidade, como diz uma querida amiga, “o facto de não implica que”. A mulher não passa a ser menos inteligente, pelo contrário, adquire maior eficácia cognitiva. Menos é quase sempre mais. Há uma restruturação das funções neuronais e penso que todos concordamos quando digo que onde existe adaptação, mudança, restruturação, só pode existir inteligência. E antes que me caiam em cima pelo feminismo do meu raciocínio, foram feitas ressonâncias magnéticas a indivíduos do sexo masculino, já enquanto pais, e estas não revelaram quaisquer alterações ao nível da função cerebral.

O cérebro da mulher reprograma-se de forma a ficar mais atento às necessidades do seu filho. Por outras palavras, o próprio cérebro altera as prioridades, redirecionando a atenção e moldando as suas capacidades por forma a aproximar a mãe do seu bebé e a torná-la mais alerta para as necessidades deste e eventuais perigos. Portanto, é biológico, a mulher sofre mudanças ao nível da fisiologia do seu cérebro e, consequentemente, mudanças psicológicas que vêm fazer companhia às alterações hormonais, formando uma rica tríade. Se a isto juntarmos o facto de, em Portugal, actualmente, a licença parental inicial ser de 120 ou 150 dias consecutivos, temos aqui um quadro já bem composto para que as mães se sintam as incompreendidas e injustiçadas cá do sítio. E não estão muito longe da verdade, de facto, mas atenção: segundo a campanha “Born Every Minute” realizada pela empresa britânica de experiências Red Letter Days, onde foram analisados dados de nascimento de 169 países, Portugal está no top 10 dos países da Europa com melhores condições de paternidade (não de maternidade). É importante aqui dizer que, um pouco por toda a Europa, se verificam discrepâncias enormes entre as licenças de paternidade e maternidade e, se é verdade que a mulher gera o novo ser durante 9 meses e passa por uma série de alterações de ordem física e psicológica que a impossibilitam – por algum tempo – de continuar a dedicar-se de igual forma à sua vida até ali, também é verdade que o homem que é pai, não sofrendo estas alterações, devia ver uma consideração maior para com o seu novo papel, para poder assumir mais responsabilidades. Mais uma vez, parece-me a mim que as próprias leis se agarram como lapas a sistemas patriarcais profundamente enraizados e não acompanham o caminho que nós, membros da sociedade, queremos percorrer cada vez mais lado a lado. No que toca a licenças de maternidade, a Estónia lidera o ranking com 62 semanas, seguida pela Croácia e pela Bulgária com 58 e segue-se o Reino Unido com 52 semanas. Depois, sempre em decrescendo, a Bósnia Herzegovina, Montenegro, Albânia, Irlanda, Macedónia e Noruega com cerca de 35 semanas. Portugal tem 16 semanas, 120 dias que podem alargar-se por mais um mês. Incrível. Estes dias podem ser usufruídos tanto pela mulher como pelo homem. Se o casal partilhar a licença, pode usufruir de mais 30 dias, que podem ser usados por um dos pais ou partilhados. O ordenado é pago a 100% caso a licença seja de 120 dias e caso seja de 150 dias, reduz para 80% o pagamento do vencimento. Se passar pela cabeça dos pais pedirem uma licença parental alargada, que pode ir até 3 meses, posteriores à licença parental já usufruída, o pagamento reduz para 25% do ordenado. 120 dias são 4 meses. Até aqui, se formos bons de contas, estamos de acordo. Não estou é de acordo com a violência que é separar um bebé de 4 meses da mãe, independentemente desta ter o direito ao período de amamentação em que pode entrar ou sair mais cedo para esse fim, desde que acordado com a entidade patronal. Refiro-me ao facto de que a mãe ter que voltar ao trabalho ao fim de 4 meses é de uma brutalidade e falta de noção tremendas e é também nestes casos que a empatia faz muita falta.

Eu tive sorte, voltei a trabalhar tinha o meu filho 6 meses. Ena! Mas calma que isto só aconteceu porque fiquei desempregada precisamente por ter sido mãe. Que atrevimento o meu, a lata. Há a porra dum carimbo, na sociedade de trabalho, sempre com tinta fresquinha pronto a rotular uma mulher por ser mãe. Existem direitos, baixas, licenças mas sempre que a mulher se vê obrigada a recorrer a eles, lá está ela a ser chata porque agora não dava jeito nenhum. Aliás, nunca dá, é uma massada, principalmente para aqueles patrões que têm uma mão cheia de filhos como manda a lei, mas nunca foram verdadeiramente pais de nenhum e os miúdos crescem enfiados em fardas impecavelmente engomadas pelas mesmas empregadas que lhes mudam as fraldas, lhes dão comida e amor, rodeados de brinquedos e da ausência da presença dos pais. Podem crer que nós mulheres não somos menos capazes quando somos mães. Somos mais. Muito mais! Não perdemos qualidades, ficamos mais qualificadas ainda. Está provado cientificamente, como já referi, que adquirimos maior eficácia cognitiva. Sim, podem pôr-me o carimbo "dramática" na testa. Ao lado desse, junto aos post-its amarelos, há outro "diz aquilo que muitos pensam e sentem". Ponham-me esse também. Por cima do outro de preferência, como quem põe um corretor porque afinal, aquilo que escreveu antes não era bem assim. Sim, sim. Todos sabem e eu também sei e somos todos muito unânimes quando apregoamos que é normal, que acontece a todos e que é o que é (adoramos dizer isto não é?), mas lá por isso, não custa menos, pois não? Pois não. Como acontece com a pobre distribuição da riqueza, acho que o mundo precisa de menos e melhor massa cinzenta.

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Texto de Cláudia Cecílio
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