Já é praticamente Natal.
Lá na quinta da Beira Alta tínhamos patos, perus e galinhas. Coelhos é que não se davam…nunca percebemos bem porquê, mas corria o rumor que definhavam à conta do medo que a fama de caçador emérito do dono da casa lhes provocava…
“Fama”, digo bem, e não “Proveito”, porque os resultados práticos da caça pouco ou nunca se viram nos fundos dos pratos.
Ora “um caso se deu” num gélido dezembro perto do Natal, que não só deitou por terra toda a prosápia dos “Nimrods beirões” como a mim, pessoalmente, me deixou também vacinado de caças submarinas, esperas de gado, pesca à linha e outras “touradas” onde seria mister mexer mais do que as mandíbulas para colher alimento.
- “Andava um Javali no Milho!”
Foi com este grito de alma do meu sogro que soubemos da crise que sobre todos nós impendia naquele final de dezembro. Imediatamente foram feitos planos para acabar com a ameaça letal (pelo menos para o milho).
Esses planos incluíam – obviamente – armar uma cilada ao porco bravio, durante a calada da noite, e dar-lhe vários tiros de zagalote até o matar.
-“Aquela carninha é uma delícia, os presuntos, as costeletas refogadas em vinho tinto! Vamos ter Javali para o Natal!”. Antecipava já o meu sogro o seu manjar predileto, encorajado por muitos acenos de cabeça do meu cunhado.
À cautela, e depois de reparar nas vetustas e enferrujadas caçadeiras familiares, declinei a arma que me era oferecida e preferi levar para a refrega o cajado do Avô Pastor, pois com esse – embora quase da mesma idade das escopetas – não correria o risco de me sair algum zagalote pela culatra…
Agora imaginem as onze da noite de 22 de dezembro na Beira Alta, com geada a cair desalmadamente e uns 2 ou 3 graus de temperatura.
Três infelizes tinham-se precavido para a aventura com vestuário apropriado, uma garrafa de boa aguardente de bagaço, mantas de lã espessa, uma boa garrafa de aguardente de bagaço, lanternas de pilhas e (não sei se já referi) ainda uma garrafa de aguardente de bagaço, da boa.
Por volta da uma da manhã, a fera não aparecia e, já o caçador-chefe ressonava e os dois auxiliares entravam pelo bagaço com alguma ânsia.
Uma meia hora depois – e aqui devo confessar que todos os habitantes daqueles lameiros já roncavam – acordei em sobressalto. Deram-me as precisões e, com muito cuidado, lá me levantei para me encostar à árvore e tratar do meu assunto sem incomodar ninguém. Nessa altura um ruído de restolho forte, quase que em cima de nós, sobressaltou-me. Sacudi os ombros dos companheiros que de imediato puseram as armas à cara.
- “Já o vejo! Já o vejo!”. Gritava o chefe da companhia.
- “Eu também Pai, Dispare, Dispare!” – confirmava o meu cunhado.
Eu não via nada, só lamentava as calças molhadas com as pressas…
Dois tiros ribombaram mesmo ao lado da minha cabeça, seguidos de mais dois logo de seguida. À escuta do estertor do porco-bravo, ouvimos ao invés… “Guguglu” em surdina magoada.
- “Guguglu?”
A patrulha maravilha fez-se ao mato (isto é, ao milho) com denodo e coragem inauditas para descobrir um cadáver… com penas…
- “Ai que matámos o Peru do Natal à tua mãe! Quem é que a vai agora aturar?”
É que não se aproveitava nada…
E foi assim que da história do Javali que afinal era Peru resultou em comermos um Galo capado naquele Natal. E que bom que estava!
Galo Assado no Forno
Supomos um galo com cerca de 3 kg, para dar à vontade para seis pessoas. Depois de retirados os miúdos e de bem limpo, põe-se o galo a cozer com uma mão cheia de sal grosso, alguns grãos de pimenta preta e, se este galo não for de criação caseira, umas duas colheres de sopa de bom azeite.
Ao fim de uma ou duas horas (depende da rijeza da alimária) retirem do lume e reservem o caldo.
Entretanto já aqueceram o forno a 180º.
No fundo de um tabuleiro de ir ao forno coloquem duas colheres de sopa de massa de pimentão, 5 ou 6 dentes de alho grosseiramente partidos, mais 3 colheres de sopa de azeite. Não ponham mais sal. Mexam esse fundo com uma colher e ensopem nele o galo cozido, frente e costas. Introduzam metade de um limão bem lavado nas entranhas do galo.
Levem o tabuleiro ao forno quente. Virem de meia em meia hora, refrescando com o caldo da cozedura, mas com cuidado, para que o galo fique muito bem tostado dos dois lados.
Quando estiver bem assado, com as febras todas a estalarem, partam-no em lascas de peito, pernas e asas, e coloquem num tabuleiro de ir à mesa.
Acompanha com arroz de substância feito com o caldo do mesmo galo e com batatas fritas aos cubos.
Arroz de substância à minha moda
Utilizem apenas arroz carolino.
Antes de cozer o arroz cortem para um tacho grande os miúdos do galo, azeitonas pretas descaroçadas, bom presunto aos pedaços pequenos. Alourem em azeite com uma cebola bem cortada fininha e alho também fino. Podem introduzir, a gosto, uma ou duas malaguetas desfeitas. Apenas umas pitadas de sal. Vão refogando lentamente, com o lume baixo, e deitem um golpe de vinho branco a meio da puxada.
À parte, cozam em água uma farinheira ma,s não a deixem romper. Retirem da água e cortem aos troços com uma faca de bico bem afiada.
Introduzam o arroz, sem o lavar, para o tacho onde estão os miúdos refogados, espevitem o lume ao máximo e fritem o arroz por 1 ou 2 minutos. Introduzam depois o caldo de cozer o galo, na proporção de 3 chávenas de caldo para uma de arroz, para que este não seque demasiado quando for ao forno.
Enquanto coze o arroz, vão provando e corrigindo de sal se necessário.
Estando o arroz quase cozido, introduzam no tacho os troços da farinheira.
Depois levem ao forno uns vinte minutos.
Para este petisco do Galo assado com o “seu” arroz recomenda-se um grande tinto, sobretudo se for almoço de Natal.
Tendo em vista a época de contenção em que estamos, não aconselho nada estratosférico.
Duas opções a preços discretos: Duorum Douro Reserva de 2017 e Cortes de Cima Syrah de 2017.
Ambos por menos de 25 euros, e do ano de 2017, que os entendidos dizem que poderá ser outro monstro como 2011.
Feliz Natal para todas e para todos!
Manuel Luar
-Sobre Manuel Luar-
Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.