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Opinião de Ana Catarina Correia

Crenças, sonhos… E a realidade não desenhada

Nas Gargantas Soltas de hoje, Ana Catarina Correia fala-nos sobre saudades e faz um balanço do ano.

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Hoje trago-vos uma partilha que me inquieta há muito. Certamente concordarão que as nossas crenças e ambições nos servem de impulso e farol para concretizarmos o que queremos e, sobretudo, o que acreditamos. Neste ano que se despede, sinto que fiz isso incessantemente e ávida por obter sucessos... 

Posso dizer, preservando modéstias, que me acompanharam acontecimentos maravilhosos: estreias de representação nacional na modalidade paralímpica que pratico; sentimentos de concretização de âmbito profissional; relações de amizade e familiares extraordinárias que se cultivaram e mantêm... Que cenário de privilégio, este. Bem o sei. Olhando para o ano como um todo, o cenário é positivo!

Mas nem só de coisas positivas a vida é feita e por isso é preciso ver a realidade. Ou melhor, o outro lado da realidade. Lado esse em que aquilo em que acreditamos e sonhamos se desvanece e não há forma alguma de o manter... Falo-vos de perdas. A perda de quem acrescentou muito de positivo àquilo que somos. Por quem se nutre um carinho inexplicável e indescritível... E que sabemos que habitará sempre em nós! Mas que já não estará perto (ou pelo menos, não tão perto). Está a ser e será duro, bem duro. Resta aprender a gerir a saudade (aquela dolorosa, sabem?) e o total desapontamento... Assumindo que isso também é fazer caminho. 

Caminho no sentido do fortalecimento interior. No sentido de retirar aprendizagens de todas as experiências que nos acontecem. Compreender que nem sempre aquilo que acreditamos e sonhamos se vai concretizar (pelo menos na forma em que o desenhamos). Aceitar, que nem só de sucesso e inspiração se faz a nossa jornada. Faz-se também de dor, rejeição, inquietação, negação e saudade... Também são parte dos mundos que construímos. Tal como o são as pausas e os silêncios (apenas recentemente aprendi a sua importância), ainda que por vezes difíceis por tudo o que nos desvendam.

A par desta realidade que não desenhamos, impera a necessidade de estarmos abertos a novos ciclos, a novos acontecimentos, a novos modos de ser, estar e apreender. Confesso-vos que me assusta a forma como enfrentarei este outro lado da realidade. Será um novo ano cheio de renovações e esforços. Muitos esforços para aceitar o não desenhado e me reinventar. 

Acredito que em algum momento, tu que lês esta crónica, sentirás que temos desafios semelhantes. E que isto nada mais é do que viver a vida no sentido mais amplo e intenso da expressão!

Que nos espere um 2023 que além das clássicas concretizações e sonhos realizados traga também uma boa estrutura para acolher as realidades não desenhadas!

-Sobre a Ana Catarina Correia-

Licenciada e mestre em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto com interesse particular na problemática da deficiência. Foi doutoranda na mesma escola e área disciplinar, num projeto de investigação que versa sobre as políticas para a deficiência em Portugal e na Europa e que dá enfoque à filosofia da Vida Independente e que ainda não foi finalizado.
Atualmente, é técnica no Centro de Apoio à Vida Independente Norte da Associação Centro de Vida Independente. Na mesma organização é dirigente e coordena a delegação do Porto. Colabora, ainda, com outras organizações representativas de pessoas com deficiência. É ainda atleta federada de Boccia pelo Sporting Clube de Espinho e membro da seleção nacional da modalidade desde 2016.
Grande motivação na vida: a crença de que a construção de sociedades justas e inclusivas depende de cada um de nós e que esse será um dos grandes sinais de desenvolvimento humano. E qual é uma das grandes bases para este desenvolvimento? A educação e uma consciência global de Direitos Humanos.

Texto de Ana Catarina Correia
Fotografia da cortesia de Ana Catarina Correia
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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