Burnout é um termo que se usa com cada vez mais frequência. O cansaço extremo a que a vida e as preocupações quotidianas nos obrigam, consomem-nos física e mentalmente, e não são raras as vezes que atingimos o limite das forças. De todas as forças.
É um grande problema, agudizado por mais de dois anos em pandemia e agora com uma guerra à porta que já nos traz dificuldades acrescidas e que, infelizmente, promete prolongar-se no tempo.
Mas este texto não é sobre Burnout. Desta vez vamos falar sobre Boreout, ou mais concretamente, a síndrome de Boredom Boreout o que, traduzindo, é um distúrbio psicológico que gera doenças físicas causadas mormente pela insatisfação diária e acumulativa devido à falta de trabalho quantitativo e/ou qualitativo.
Ou seja, o total e exasperante aborrecimento que uma tarefa diária repetida à exaustão ou um trabalho que nada de novo propõe causam.
Os sintomas são muito semelhantes aos da exaustão física ou esgotamento, com sinais claros como a insónia, apatia e “nervos em franja”, assim como perturbações físicas que incluem dor de cabeça, tonturas e problemas gastrointestinais.
O tédio e a frustração de não progredir profissionalmente, de fazer a mesma coisa ou ter um horário demasiado rígido, são factores para, de forma gradual, o profissional perder a vontade, o ritmo e, mais tarde, a própria vontade até de se levantar de manhã para repetir toda a rotina.
Existe uma clara perda de auto-estima alimentada pela ansiedade que uma situação profissionalmente debilitada provoca no comportamento geral e, em particular, com colegas e chefias. Num repente, surge o medo de ser considerado ainda pior do que se pensa que é, o que, naturalmente, provoca um aumento de stress que leva ao sofrimento físico e psicológico.
O facto de quem sente e vive este drama o guardar como o maior dos segredos, dificulta a sua percepção por quem lhe está ao lado, seja colegas ou familiares próximos.
O Boreout aumenta a probabilidade no surgimento de doenças físicas, pois a fadiga é avassaladora e o cansaço leva a distúrbios vários.
É nesta altura que, muitas vezes, o álcool e as drogas surgem como um escape rápido para superar o dia menos bom e tentar esconder, para si e para os demais, todo um evidente quadro analítico que necessita de intervenção urgente.
Em casos extremos observam-se certos tipos de epilepsia, tremores de mãos e voz, herpes zóster e úlceras. As perturbações mentais graves eclodem e não são raras as depressões agudas ou mesmo o suicídio.
A designação Boreout é também demasiado semelhante a Burnout o que pode confundir quem dela sofre e cujos sinais são até semelhantes. Mas acontece cada vez mais numa sociedade, também ela, muito doente e a precisar de ajuda.
-Sobre Ana Pinto Coelho-
É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora. Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.