Como pessoa interessada em política que sou, algo que frequentemente me preocupa é a participação política em Portugal, ou falta dela. Os números mais óbvios a referir são os da abstenção. Nas eleições legislativas do ano passado, esta foi de 48,6%. Todas as eleições são importantes, claro, mas diria que este número é ainda mais preocupante quando nos apercebemos que as eleições legislativas têm a particularidade de eleger os nossos representantes na Assembleia da República e, consequentemente, a nomeação do Governo que irá definir o rumo político e económico do nosso país nos próximos 4 anos. Quase metade dos portugueses não se preocupa o suficiente com esta realidade e isto é um problema. Isto pode acontecer pelas múltiplas razões, é certo, mas um dos maiores fatores com mais destaque na literatura sobre o tema é o afastamento dos cidadãos da política. As pessoas sentem cada vez mais que a classe política não se preocupa com os seus problemas, que os políticos preocupam-se apenas com eles mesmos e que estes trabalham apenas para se beneficiarem a si e aos seus. Acrescentando isto a sucessivos escândalos políticos e a dificuldades que cada vez mais se amontoam na vida das pessoas, acredito que é normal que o cidadão comum sinta que a política não interessa para nada porque esta não lhes resolve os seus problemas, apesar de ter impacto direto nos mesmos.
O afastamento dos cidadãos da política e a chamada ‘’crise da democracia liberal’’ é algo já bastante estudado pela ciência política. Durante a minha formação nesta área, tive a oportunidade de discutir várias vezes sobre estes assuntos e recolher contributos valiosos sobre os mesmos. No entanto, não há ‘’remédio santo’’ apesar de existirem inúmeras sugestões de pessoas mais ou menos informadas sobre o tema. Alguns dos argumentos mais peculiares que já ouvi são aqueles a favor do voto obrigatório ou a favor da atribuição de vantagens sociais a quem votasse. Duas soluções diferentes, mas acredito que, tanto numa como noutra, incentiva-se o cidadão a votar pela razão errada, apenas para não sentirem repercussões ou para terem ganho próprio. As pessoas devem votar porque querem participar na vida política do seu país e porque querem sentir que o seu dever como cidadãos é valorizado, pelo que acredito que estes sentimentos têm de ser cultivado a partir da base da participação política e cidadã.
Com isto, viro-me para o associativismo popular e participação cidadã a nível local. Portugal tem uma cultura de associativismo bastante robusta. Pelo país fora existem inúmeras associações e coletividades com os maios variados objetivos e a verdade é que quase todos nós já estivemos envolvidos nalguma destas, apesar de talvez não nos apercebermos.
O associativismo local tem várias faces. Seja através de apoiarmos o nosso clube de futebol local, ir à festa da aldeia para apoiar a organização e contribuir para a dinamização da terra ou participar numa reunião informal para discutir o estado da nossa localidade, todos estes atos são formas de cidadania, independentemente de serem mais ou menos politizados. Todas as festas da aldeia têm um grupo de voluntários por detrás, que se juntou e organizou com o objetivo de disponibilizar um bom momento para a comunidade. Todos os clubes desportivos com expressão local são movidos por força de voluntários que trabalham para atrair pessoas e jovens para as suas atividades e para manter o clube aberto para a comunidade. Apesar de talvez não votarem, muitos portugueses voluntariam-se para dinamizarem atividades nas suas terras, atividades estas que quase sempre implicam mais organização, disponibilidade e iniciativa cidadã do que se dirigirem ao local de voto de 4 em 4 ou de 5 em 5 anos. A grande parte dos portugueses já são cidadãos ativos nas suas vilas, aldeias e localidades, pelo que precisamos de pegar neste interesse e tentar reproduzi-lo a nível nacional, incentivando à participação política. Por isto, acredito que precisamos de captar esta essência e transmitir a estas pessoas que vale a pena votar, que vale a pena despenderem de alguns minutos do seu dia a um domingo para irem concretizar o seu dever como cidadãos. Poderá não ser fácil, é certo, mas acredito que a maior parte dos portugueses se preocupa e que cumpre o seu papel como cidadão ativo e politizado, apesar de não se aperceberem. A meu ver, promover este espírito de cidadania seria o mais complicado, pelo que a parte mais difícil já está feita.
-Sobre Rodrigo Andrade-
Rodrigo Andrade tem 23 anos e é natural do Bombarral, uma pequena vila no sul do distrito de Leiria. As ambições académicas levaram-no para Lisboa, onde se licenciou em Ciência Política no Iscte. Seguiu-se o mestrado na mesma área, uns dirão devido ao gosto pelo tema, outros por falta de originalidade, mas desta vez com especialização em Comunicação Política e Opinião Pública. Divide o seu tempo entre a terra de sua naturalidade e a capital portuguesa e dá o seu melhor para se envolver e dinamizar a vila onde reside. Para além da política, é interessado por ambientalismo, associativismo e pelo passado histórico português, mais concretamente pelo período do Estado Novo e como o seu legado se reflete nos dias que correm.