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Opinião de Nuno Varela

Estás farto de ouvir falar em racismo?

Nas Gargantas Soltas de hoje, Nuno Varela fala-nos de racismo, apropriação cultural, lugar de fala e aliados.
“Eu tenho amigos brancos, se eles não se sentem afetados por coisas que eu vivo ou sofro ao lado deles, eles não são meus amigos.”

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Novamente: mil são os assuntos que eu poderia abordar, mas a urgência do momento e os tempos que atravessamos continuam a levar-nos num só sentido.

Guess what? Vamos falar de racismo. Sim, novamente. Com certeza que já aqui disse, e vou voltar a dizer, “se estás farto de ouvir falar de racismo, imagina quem o vive diariamente na pele”.

Este caso da atriz brasileira que viu os seus filhos serem vítimas de racismo de uma mulher branca em Portugal, veio trazer uma nova discussão e até novas visões sobre o assunto que, para muitos, até agora, eram invisíveis.

É que neste lugar de fala existem pessoas em posição privilegiada em que a sociedade vai receber a mensagem e entender de outra forma - é triste, mas é assim. Milhões de mães, irmãs pretas gritam, lutam e tentam defender os seus filhos, irmãos, sem que a sociedade as queira ouvir ou lhes preste atenção, como se fossem surdos, atribuindo-lhes ainda atestados de loucura ou avançando-lhes com o famoso argumento, “lá estão elas/es a fazer-se de vítimas mais uma vez, agora tudo é racismo”.

Foi triste perceber o que aconteceu com aquelas crianças e com a família Angolana (que também gostava de ouvir), mas ao mesmo tempo foi muito bom a dimensão que este triste episódio acabou por ter.

A minha família é uma mistura, com um pai preto e uma mãe branca e, por isso, essa realidade já é conhecida aqui em casa e facilmente estava a ver a minha esposa Andrea naquela posição, como já aconteceu, aliás. A sociedade desde muito cedo que colocou o nosso filho mais velho numa caixa e as conversas sobre estas questões começaram muito cedo em aqui em casa.

Um branco conhecedor do seu privilégio é um branco informado e se o utilizar, com boas intenções, é sem dúvida um bom aliado. E aliados é o que precisamos neste momento, vivendo esta altura de tanta desinformação e com cada vez mais ignorantes racistas a sair da toca.

Todos sabemos que se fosse uma mulher preta, o contexto e mesmo a abordagem policial possivelmente não seria feita da mesma forma, mas não foi. O impacto que teve foi enorme e foi muito importante aquela atriz abordar o facto de ter total consciência e indignação por saber que o tratamento, até a exposição mediática, teriam sido completamente diferentes caso ela fosse uma mulher preta.

São mudanças e pontos positivos que ajudam, mas que não acabam com o problema. Estamos a dar grandes passos e, cada vez mais, sinto que pretos como eu ou em certas posições, devem expor-se mais e estar mais presentes como voz para estes assuntos. O facto de o Rock in Rio ter feito uma talk a abordar vários tipos de discriminações (o racismo e etc), com pessoas que sofrem esses problemas na pele e, do outro lado, com pessoas privilegiadas na sociedade, são também demonstrações que existem pessoas a querer abordar o assunto, vamos estimular mais esta troca de testemunhos e passar mais informação.

Outro tema de que muito se falou nos últimos tempos foi da apropriação cultural, por exemplo por causa de uma música, e ainda questões relacionadas com cabelos, que trazem muito mais que isso. Compreendo até certo ponto a revolta de algumas pessoas, mas noutros casos, não. Vivemos numa sociedade tão mixada, com espaço para tantas coisas, que sabemos e vemos que as coisas vão mudar. Por vezes aquilo que vejo a sociedade, a indústria, os grupos a criticar, é aquilo que, na periferia, nos ghettos (onde muitas dessas pessoas criticas nunca entraram ou sequer viveram) sempre tivemos: brancos e brancas com tranças ou brancos a falar crioulo. Para muita gente, que vi a elaborar textos de opinião enormes sobre estas questões, de certeza que lhes ia fazer confusão chegarem a Chelas e verem brancos de tranças, a falar crioulo entre eles ou entre brancos e pretos, ou até mesmo ciganos na Apelação a dançar funaná e a falar crioulo.

Claramente que o assunto é muito mais deep do que isso, o que me leva a querer fazer um texto mais completo e abrangente. Basta compreender que um determinado penteado ou uma forma de vestir nos pode automaticamente colocar numa posição de discriminação/racismo, quando um branco, com o mesmo tipo penteado e mesma roupa não sofrerá com isso (à partida, mas dependerá sempre da situação). Nem todos têm as melhores intenções, quando penso em apropriação cultural lembro-me sempre de uma situação, em que duas jovens brancas foram a um dos programas da manhã na tv portuguesa, onde puderam apresentar a sua marca de roupa elaborada com tecidos africanos, porque era algo novo em Portugal, chegaram a afirmar que não havia mesmo nada assim.

Mesmo no lugar de fala referente à música, acho que essa questão de que os brancos não podem falar sobre os nossos assuntos, ou até escrever sobre eles, é completamente errada. Há muita gente que está ao nosso lado, não criem estas separações. A abordagem será sempre diferente é claro, somos nós que sofremos o racismo, mas não vamos invalidar quem tem algo a dizer sobre o assunto, como nossos aliados, assunto esse que, em muitos casos, direta ou indiretamente, os afeta também. Eu tenho amigos brancos, se eles não se sentem afetados por coisas que eu vivo ou sofro ao lado deles, eles não são meus amigos. Sou um bom conhecedor dos bairros de Lisboa e desta nova Lisboa que se está a formar. Como em qualquer sociedade, existem pessoas com diferentes abordagens sobre os mais variados temas e considero que é necessário trazer mais pessoas, com novas abordagens, para estas mesas de conversa.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas. Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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