Escrevi no mês passado aqui no Gerador que abril seria um mês bonito. Eu estava ansiosa pelo clima contagiante que Portugal vive neste início de primavera com as comemorações do 25 de Abril, debates, cravos vermelhos, o sentimento de democracia.
Mas foi ainda mais lindo e repleto de momentos importantes e históricos. É difícil escolher qual o mais emocionante, na minha perspectiva de imigrante. Nunca vou deixar de me arrepiar ao ver milhares de pessoas cantando Grândola, Vila Morena, entre crianças, adultos e casais idosos de mãos dadas, portugueses e imigrantes juntos descendo a avenida mais linda de Lisboa.
Felizmente, daqui um ano e muitos outros, essa cena vai se repetir e sempre vai causar arrepios e lágrimas de emoção. O que foi único e ficará para sempre na história de Portugal e Brasil foi Chico Buarque receber, com um atraso de quatro anos, o Prêmio Camões.
Diz muito que o local onde ocorreu a premiação, o Palácio Nacional de Queluz, é adornada de ouro. Grandes são as chances de ser proveniente de terras brasileiras, como tantas outras pedras preciosas presentes em museus, castelos e palácios pelo país. Tão simbolicamente, Chico, com sua voz doce, deu uma aula com poucas palavras:
“Como a imensa maioria do povo prasileiro, trago nas veias o sangue do açoitado e do açoitador, o que ajuda a nos explicar um pouco”. Explica muito, Chico. Explica o Brasil e explica Portugal. Explica os últimos anos da política brasileira, definidos pelo artista como um “governo funesto”, em que “o tempo parecia andar para trás”.
Explica o racismo que existe no território brasileiro, onde há poucos dias uma “cidadã” literalmente chicoteou um trabalhador negro no meio da rua, em plena luz do dia. Explica o que vivem todos os dias os imigrantes em Portugal,
especialmente os negros, também agredidos fisicamente, açoitados verbalmente e psicologicamente.
Explica uma história que é ignorada e escondida, que até pouco tempo ninguém ousava contar. Mas penso que podemos sentir os bons ventos da mudança. Os sinais começam a aparecer.
Durante a importante e recente cimeira luso-brasileira ficou acertada uma cooperação estreita entre os governos para troca de boas práticas para combater o racismo. Nesse aspecto, o Brasil está bastante avançado, principalmente agora, com o trabalho da ministra Anielle Franco. Em declarações a nós jornalistas, ela afirmou que sentiu boa vontade do lado português de ouvir e aprender sobre o tema. Já era hora.
É a hora em que o tema está começando a deixar de ser tabu. Um exemplo especial é o da brilhante jornalista portuguesa Catarina Demony. Ela fez um documentário, chamado “Debaixo do Tapete”, em que conta a história da própria família traficante de escravos. Catarina, branca e europeia, demonstrou coragem enquanto jornalista, humana e cidadã ao abrir o debate. O documento já é uma ferramenta educativa importante para as próximas gerações, especialmente as que estão nos bancos escolares e são o futuro.
Outro exemplo é o projeto Lusotropicalismo, promovido pelo Gerador. Espero que inspire outros media portugueses a refletir sobre o colonialismo, uma discussão que passa também por integrar imigrantes nas redações.
Mais um sinal poderoso foi o do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que usou o discurso do 25 de Abril para pedir desculpas e assumir responsabilidade pela exploração e escravatura no período colonial. Na mesma fala, o chefe de estado fez um questionamento, o qual sabemos a resposta: “Como podemos nós, pátria de emigração, que temos de ser mais solidários para com os nossos emigrantes, ser egoístas perante os dramas dos emigrantes que são dos outros?”. Bom, a exploração e a escravatura pela qual pediu desculpas ajuda a explicar a segunda pergunta.
É bem verdade que as forças contrárias para a mudança são muitas e cada vez maiores e mais desafiadoras. São não só contra a evolução da sociedade: são
inimigas da democracia e da liberdade. Inimigas de um mundo livre, de sotaques misturados na língua de Camões, com as vozes e palavras de Chico Buarque, Mia Couto, Paulina Chiziane, Hélia Correia e tantos outros.
Eu não costumo ser esperançosa. Apesar de ter apenas 29 anos, já vivi situações suficientes para ser cética, principalmente quando se trata de política e das pessoas, afinal, são as responsáveis por fazer política e por eleger os políticos.
Mas eu sinto um pouco de esperança. Já não cantamos o verso de Chico “amanhã vai ser outro dia” com o mesmo sentido. Já é outro dia.
-Sobre a Amanda Lima-
Jornalista nas horas vagas e ocupadas, é brasileira e vive em Portugal há três anos. Os temas de principais interesse são sobre género, imigração, direitos humanos e política. Comenta e escreve atualidades na CNN Portugal e acredita que o jornalismo é a profissão mais divertida do mundo. Viciada em cafeína, vídeos de pandas e em contar boas histórias.