Depois de uma semana em que partilhamos vários pensamentos sobre o teatro documental, chegamos, inevitavelmente, à altura de falar de alguns dos nomes que têm vindo a criar espetáculos no âmbito do teatro documental em Portugal com variadíssimas abordagens.

Embora o exercício do teatro documental em Portugal seja relativamente recente, e haja criadores que não estão certos de que exista um movimento a que se possa chamar “teatro documental português”, pode identificar-se alguns nomes que têm trabalhado nesta área ou próximo dela. Iremos listar cinco espetáculos de alguns autores que nos despertaram a curiosidade.

Um museu vivo de memórias pequenas e esquecidas, de Joana Craveiro

Joana Craveiro, encenadora, atriz, dramaturga e fundadora/diretora artística do Teatro do Vestido, partilha que a definição de teatro documental tem sido alvo de sucessivas revisões. “Mais do que ‘teatro documental’ fala-se hoje de ‘teatros do real’, precisamente porque se compreende que a questão da ‘verdade’ é em si também subjetiva. O que é a verdade de um facto histórico, afinal? O que ficou registado? Mas quem o registou e com que finalidade e apoiando-se em que documentos?” Com cerca de 45 criações feitas no Teatro do Vestido, a proposta que fazem aos espectadores é a de que estejam atentos e implicados de forma a embarcarem numa viagem.

Como exemplo destas criações, podemos relembrar Um museu vivo de memórias pequenas e esquecidas – sobre a ditadura, a revolução e o processo revolucionário, que traçava um percurso por 80 anos da história de Portugal, centrando-se em três momentos-chave: a ditadura do Estado Novo, a Revolução de 25 de Abril e o PREC. Este foi um espetáculo, apresentado em 2014, que acolheu a nomeação para Melhor Espetáculo do Ano pela Sociedade Portuguesa de Autores. Para além da sua apresentação em Portugal, percorreu também palcos em Londres, Paris, Santigo de Compostela, Santos e Belo Horizonte. Nos passados dias 7 e 8 de fevereiro deste ano, o espetáculo foi revisitado no Teatro Viriato, em Viseu.

De acordo com a encenadora, “este não é um espetáculo de história, mas sim uma tentativa de investigar performaticamente, sobretudo, fragmentos de uma pequena memória que costuma não ter lugar, precisamente, nos livros de história. Nesse sentido, o espetáculo constrói-se como um conjunto de palestras performativas, cada uma sobre um aspeto específico de um dos três períodos” investigados.

O espetáculo dividia-se em sete partes e um prólogo. Ao longo de cinco horas de teatro (pontuadas pelos testemunhos de vida, objetos, documentos e tantas outras coisas recolhidas por Joana Craveiro), com um jantar revolucionário de permeio, desenrola-se este verdadeiro acontecimento teatral.

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Um museu vivo de memórias pequenas e esquecidas, ©Estelle Valente

Amores pós-coloniais, de André Amálio

André Amálio, artista, ator e encenador fundou, juntamente com Tereza Havlickova, a companhia Hotel Europa. Explica que no teatro documental “não existem personagens, nem enredo, nem invenção. A sua base é a realidade, procura-se investigar o que de facto aconteceu e como foi vivido por uma ou mais pessoas”. Neste sentido, identifica uma preocupação por parte dos criadores em “demonstrar como a história não é singular ou única, mas pelo contrário é múltipla, isto é, pode ser vivida, pensada, sentida de muitas maneiras e pontos de vista diferentes”. Partilha que, para si, tem sido urgente olhar criticamente para a história colonial e imperial, percebendo que há uma “descolonização que é urgente fazer na forma como contamos história e todas as implicações que isso traz para o Portugal de hoje”.

A título ilustrativo, podemos nomear o espetáculo Amores pós-coloniais, em que começou por fazer entrevistas a “pessoas que tinham tido relações amorosas no tempo colonial”, passando para a investigação de “diferentes políticas e práticas sobre o discurso amoroso nas diferentes fases do Estado Novo e do colonialismo português”.

Foi em julho de 2018 que deram início à investigação que serviria de base para o espetáculo, que os levou a Pontevel, onde vieram a descobrir um mar de cartas de amor do Ultramar e aerogramas que haviam sido enviados sem o conhecimento dos pais para alimentar as relações à distância. Mais do que falar dos amores vividos no tempo colonial, este espetáculo procurava contar histórias que acreditavam faltar nos livros de História.

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Amores pós-coloniais, ©Filipe Ferreira

Do bosque para o mundo, de Formiga Atómica

Para Inês Barahona, que partilha a direção artística da Formiga Atómica com Miguel Fragata, o que é mais interessante no teatro documental é a “vertigem da verdade e da realidade”. “Por convenção, o espaço do teatro é mentira. E é o único sítio, que eu conheça, para onde as pessoas convergem de livre vontade para viver uma mentira. Quando fazemos isso e afinal o que lá está é mais verdade no lugar da mentira, há qualquer coisa do jogo que resulta em algo muito forte para quem vai assistir.” Defende que o interesse reside em levantar questões, permitindo que o público se posicione perante elas individualmente. Durante o processo de criação, gosta de partir sem ideias predefinidas – um exercício difícil, mas de “honestidade intelectual que acho ser fundamental para qualquer pessoa que tenha responsabilidade pública”.

Tendo vindo a desenvolver um trabalho centrado no público infantil e no afastamento que sentem existir entre o mundo das crianças e o dos adultos, pode nomear-se o trabalho feito em Do bosque para o mundo, em que se propõem explicar a crise dos refugiados às crianças através da história de Farid, um rapaz afegão de 12 anos. Esta é uma história que podia ser igual à de tantas outras crianças, não fosse ter sido enviado pela mãe para a Europa, na esperança de lá encontrar uma melhor perspetiva de futuro. Num espetáculo que nos confronta com a dureza e a coragem, a história deste rapaz que oscila entre a vida e a morte, é o pretexto usado para promover o olhar sobre a nossa própria história.

Desta experiência, Inês relata um episódio aquando da migração do espetáculo para Paris, em que um espectador se levantou muito emocionado e disse: «Porque é que vocês decidiram contar a minha história?» É este o impacto que um espetáculo de teatro documental pode ter quando se tratam temas do quotidiano que ainda não viram concretizada a distância temporal necessária para serem tratados pelos historiadores.

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Do bosque para o mundo, ©Estelle Valente

Teoria das Três Idades, de Sara Barros Leitão

Sara Barros Leitão, atriz, é natural do Porto e formou-se em interpretação pela Academia Contemporânea do Espetáculo. Para além de atriz é também assistente de encenação, diretora artística da Carruagem, produtora, estudante e revolucionária quanto baste. Embora já tenha trabalhado em cinema, televisão e teatro é neste último que se sente realmente realizada. Chegou a trabalhar com a encenadora Joana Craveiro, do Teatro do Vestido.

Foi com Teoria das Três Idades que se estreou como encenadora e escritora em teatro, tendo-se afirmado neste ciclo vital dos documentos. Tomando o Teatro Experimental do Porto, com quem Sara trabalha regularmente, como base da criação, pegou em telegramas, tabelas de ensaio, atas, contratos, fotografias, gravações e programas de espetáculos para os quais olha com uma distância que lhes confere relevância. A proposta é a de arrumar e organizar a história. De simples papéis, passamos a memórias e pessoas. Entre aquilo que neles encontrou e o que a partir deles imaginou, criou um espetáculo, que se fundava na tentativa de recuperar a carta que não teve resposta, assim como todas aquelas vidas, que tal como um papel, têm três idades.  

Mais do que falar de histórias inscritas em cartas, Sara afirmou-se com uma mensagem de resistência que refletia a precaridade de trabalho em teatro num país com um baixo orçamento para a Cultura. De resto, nunca deixa de incluir outra das lutas com que se identifica: a feminista.

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Teoria das Três Idades, ©Fotografia promocional

ISHÁ, A mulher QUE, de Beatriz Baptista, Joana Brito Silva, Mariana Fonseca e Susana Paixão

Este é o espetáculo que a Arte Pública levará a Beja, já no dia 6 de março, integrado no ciclo WOS – Woman on Scene. Depois de apresentarem espetáculos que se enquadram no âmbito do teatro documental, como As palavras em cima das coisas, sobre a obra autobiográfica de Herta Müller, ou A Pastora Leitora – Narrativas da Memória, realizado a partir de várias entrevistas feitas em Alvito (ainda em digressão), chega a altura de apresentarem mais um espetáculo, desta feita em torno da mulher.

Ishá, A mulher que  é um diálogo feminino entre a interpretação e o vídeo, entre a realidade documentada e a ficção, entre três jovens atrizes, três idosas e três crianças. Texto original, música e audiovisual conjugam- se de forma a contarem uma história que liga três vozes em diferentes estágios da vida. Esta é uma história que, através de narrativas biográficas, se propõe comparar e homenagear gerações, sublinhar o comum e o distinto a uma mulher em diferentes faixas etárias, geografias e condições sociais.

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ISHÁ, A mulher QUE, ©Fotografia promocional 

Na Revista Gerador, de janeiro, partimos à descoberta do teatro documental, munindo-nos dos conhecimentos de investigadores, estudos académicos e indo à procura de alguns autores que têm apostado em criações de teatro documental em Portugal. Tendo como ponto de partida a reportagem “Teatro documental: um exercício de honestidade intelectual como reflexo de uma história polifónica”, publicada na Revista Gerador 29, terminamos hoje a Semana Temática do teatro documental, sobre a qual podes saber mais, aqui.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de capa de Estelle Valente

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