Por volta dos meus oito anos, os meus pais começaram a desenvolver uma tradição que durou até aos meus vinte e poucos: uma viagem anual, na primeira quinzena de Agosto, sempre com um destino diferente. Pais e filhos. As primeiras foram para o Club Med em Marrocos, seguidas de outros clubes all included em sítios mais tropicais (México, Cuba, Costa Rica). Era uma boa maneira de ter as crianças entretidas e os pais tranquilos.

Quando eles sentiram que eu e a minha irmã já tínhamos algum pensamento crítico desenvolvido, alguma sensibilidade para a arte, os destinos tornaram-se menos exóticos e mais eruditos. Fomos a Israel, à Patagónia, à Grécia. As praias foram substituídas pelos museus e os bangalôs por um carro alugado no qual percorríamos os países de lés a lés.

Em 2012, foi a vez da Islândia, uma viagem que não me traz qualquer tipo de recordação em relação às suas paisagens, pessoas ou comida. Guardo apenas uma lembrança desta viagem. Ora, num passeio de barco em busca de puffins (uma espécie de minipinguins lá do sítio), tive um ataque de coração, dos meus primeiros, sendo que a minha doença tinha sido descoberta poucos meses antes. Fui salvo pelo desfibrilhador subcutâneo. Pode dizer-se que tive muita sorte por haver este tipo de tecnologia que nos possa salvar em qualquer momento e em qualquer lugar, mas o choque eléctrico que se sente causado pelo desfibrilhador é proporcional ao choque emocional e traumático que estas situações nos causam. Fui então alvo de uma amnésia selectiva nessa viagem familiar.

Passaram uns anos, passou uma vida, e, em Novembro, fomos tocar a Reiquejavique, ao Harpa Concert Hall. Agradecido à vida e decidido a aproveitar todas as belezas naturais daquele país que me tinham escapado da última vez, fiz as mais longas caminhadas, conheci lugares e pessoas incríveis, aprendi canções de embalar islandesas, comi bacalhau FRESCO e acabei a tocar a minha música para 800 islandeses que cantavam o «Amar pelos Dois» com uma pronuncia invejável (mil vezes melhor do que a dos nuestros hermanos). Só faltaram os pinguins…

*Texto escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945

*Esta é uma crónica do Salvador Sobral, inicialmente publicada na Revista Gerador de janeiro.

-Sobre o Salvador Sobral-

Inquieto, curioso e sem papas na língua, conta com dois discos: Excuse Me (2016) e Paris, Lisboa (2019). Pelo meio, venceu a Eurovisão e integra grupos como Noko Woi, Alexander Search, Mutrama, Alma Nuestra e Cantar Brel. É o autor da crónica «Insónias Produtivas» na Revista Gerador.

Texto de Salvador Sobral
Fotografia de Tomás Monteiro
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