Permita-me responder ao dito intitulado “Ecologia Sonora e da originalidade” começando por congratulá-lo com a escrita no antigo acordo.

Não pretendo causar qualquer tipo de suspense com a minha crítica e, como tal, digo: estou habituado a ouvir muita asneira e algumas coisas mais acertadas e o seu texto não é excepção.

Não vou discutir a sua linguagem rude. Compreendo tratar-se de uma opção discursiva, mas discordo do seu uso na temática abordada. É visivelmente exagerada com o intuito de ter piada, o que compreendo que lhe possa valer algumas simpatias junto do seu grupo de amigos mais chegados, no qual incluo o curador desta rúbrica — todos uns broncos. Este é o primeiro e principal reparo que teço a este texto e à própria Interferência: não é tempo de se começarem a levar a sério? De deixarem de usar calão, expressões populares, estrangeirismos mainstream e colocar as vírgulas nos lugares certos? Não será tempo de começar a escrever como, por exemplo, o Ricardo M. Vieira que coloca citações de gente realmente culta e de mérito reconhecido?

Eu sei que têm essa paranoia libertarista da independência de estilo, da inovação, da aproximação de públicos, mas... já seria tempo de começarem a olhar para os bons exemplos nacionais e, essencialmente, internacionais de fazer cultura contemporânea. E não é para replicar, mas para discutir num tom amigável, com bom senso erudito.

Professor Neca, não querendo ser paternalista, deixe-me dizer-lhe que essa rebeldia adolescente de artista descomprometido já não lhe fica bem. Não gostaria de ser jovem compositor da Casa da Música, ou escrever uma peça para os Jovens Músicos?


Já dizia Descartes no seu Discurso do Método: “Se quereis ser respeitados dai-vos ao respeito”.

Se me permite, a sua falha, e a dos seus amigos, é não compreender a importância de ter um compositor mais velho como tutor, um segundo pai que guia pelo caminho certo da experimentação, que protege e defende da crítica feroz do conservadorismo, que questiona cada nota colocada numa partitura, que vos ensina a escrever música contemporânea credível.

Desta forma, realiza uma crítica fundamentada e, consequentemente, contribui para o conhecimento colectivo académico. Nessa altura, sentirá um regozijo pelo seu trabalho, bem como por pertencer a um grupo intelectual, consenciente e atualizado, por não estar sozinho na batalha, ou achai-vos com o mesmo nível de erudição de um cavaleiro andante como Fernando Lopes-Graça na sua destemida “caça aos coelhos”?

Não basta ler, pesquisar e estudar. É preciso humildade, aceitação e cumprimento das normas académicas e eruditas estabelecidas. O desprezo por este modus operandi coloca em risco todo o intelecto artístico – não basta ser, é necessário o bem parecer. Estamos a falar de normas seculares aprimoradas pelo tempo e seus desafios. Cumprir a etiqueta, portanto, ajuda-nos a reflectir com mais qualidade, promove a união da nossa classe para que juntos consigamos realizar grandes feitos eruditos. Já dizia John Cage: “onde não há lei, não há liberdade.”

Compreendo que não é o ideal de justiça, mas é a realidade. Se pretende alterar esta situação, bem como a associação que o suporta, então sugiro que comece por cumprir as normas eruditas impostas e, posteriormente, vai ganhando espaço e mediatismo para ser ouvido. Para que esta carta aberta tenha um teor pedagógico mais completo, tomei a liberdade de registar alguns dos princípios essenciais de etiqueta académica:

  1. Respeitar a opinião dos mais velhos, dos superiores académicos. Respeitar os outros também.
  2. Deve ser entendido e hábil com vernáculo académico e vernáculo musical académico.
  3. Conhecer, admirar e defender a herança da música ocidental.
  4. Conhecer, admirar e defender a herança da etiqueta académica.
  5. Não deverá comentar idas a encontros e festas musicais como a Festa do Avante! ou ao Andanças. Uma coisa é ser eclético, outra é discutir qualquer coisa.
  6. Englobar sempre na sua obra alguma característica musical “do que se faz lá fora”.
  7. Dedicar sempre a sua obra a um “velho amigo” músico.
  8. Ter uma biografia o mais extensa possível, referindo todas as personalidades académicas/eruditas com quem teve o prazer de contactar.
  9. Como compositor e ou teórico, deve vestir calças de ganga e um blazer. Nunca gravata!
  10. Chegar a um concerto nos últimos minutos, de forma a que toda a audiência o veja apressadamente a entrar.
  11. No fim, deverá discutir o concerto com os seus amigos eruditos. Deve comentar sempre coisas boas e más, o que lhe dará um ar de ponderado e aceitador da diferença. Se disser apenas pontos positivos provavelmente vão acusá-lo de ter adormecido, de não ter o seu espírito crítico aguçado ou de não ser convicto na sua percepção musical. Se só disser más, será visto como um erudito do século passado, incapaz de retirar algo positivo de todas as suas experiências ou então um alucinado em tentar mudar o mundo.

Peço, por fim, que o autor do texto supramencionado, bem como a própria Interferência, não interpretem mal as minhas palavras. Não faço intenção de amesquinhar nenhum dos envolvidos com o meu discernimento e razoabilidade, apenas intenciono ajudar a ultrapassar esta fase difícil, como Platão na sua aventura pela gruta: "Estávamos à beira do abismo mas felizmente conseguimos dar o passo em frente.”

Zé,

Março 2021

-Sobre Zé-

Zé, diminutivo de José, tem andado um pouco pelo mundo a fazer um pouco de tudo. Foi pai de Jesus e seus irmãos. Mais tarde, foi primeiro-ministro português no reinado do seu homónimo D. José. Tornou-se amante e esposa de Napoleão Bonaparte. Deixou crescer o bigode e decidiu comandar os destinos da União Soviética. Mais tarde, dedicou-se ao futebol, arrecadando uma Liga dos Campeões e uma Taça UEFA para o FCP. Actualmente, encontra-se a terminar o Mestrado em Ensino, vertente percussão, na ESART.  

– Sobre a Interferência –

A Interferência – Associação de Intervenção na Prática Artística é um colectivo artístico do Porto com trabalho direcionado para a criação e formação na área da nova música que pretende explorar os limites da percepção e do gosto musical entre os diferentes públicos, alicerçada na clareza narrativa como arma necessária para uma intervenção social. Através dos Cursos e Workshops Interferência, tem criado oportunidades acessíveis de formação especializada a jovens e graúdos interessados em conhecer mais e melhor o mundo que os rodeia. Paralelamente programa concertos de jovens artistas através do Ciclo de Concertos: Electrónica Sem Pastilhas; e com a digressão de criações internas, como SUPRAHUMAN (2019)  QUEM FALA ASSIM (2020) tem-se apresentado em espaços como a Porta-Jazz, Café Concerto Francisco Beja (ESMAE) Casa das Artes (Porto), Auditório do Conservatório de Música de Coimbra e Braga, Teatro Municipal Sá de Miranda (Viana do Castelo), Fábrica da Criatividade (Castelo Branco), O’culto da Ajuda ou Gnration.

Texto de Zé
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