Com o objetivo de promover a internacionalização de diversos criadores, instituições, festivais e indústrias culturais espanholas através de conteúdos digitais em alguns programas desenvolvidos pela AECID, o Conselho Cultural da Embaixada de Espanha decidiu juntar-se ao Gerador. Desta forma, nasceu o novo EP COLAB 2020, um programa que tem como objetivo transformar-se num laboratório “frutuoso” de ideias, aproveitando o enorme potencial das plataformas digitais para multiplicar e enriquecer o trabalho em rede.

Estivemos à conversa com Marta Betanzos, Embaixadora de Espanha, para perceber melhor a intervenção cultural nas relações entre Portugal e Espanha.

Gerador (G.) – A Cultura desempenha um papel fundamental na construção de uma sociedade, de um país e, consequentemente, na História.
Voltando-nos para os países ibéricos, considera que a Cultura é importante na relação de países como Portugal e Espanha?

Marta Betanzos (M.B.) – A cultura é um elemento fundamental tanto na construção da identidade de um país como também é uma ferramenta para o seu desenvolvimento socioeconómico. Sem ir mais longe, é a União Europeia que, em 2018, reconhece este valor significativo com a Declaração do Ano Europeu do Património Cultural, seguida da Nova Agenda Europeia para a Cultura no ano seguinte, uma vez que reconhece a sua importância para a coesão territorial e o desenvolvimento sustentável das suas comunidades.

A Espanha e Portugal são países com uma história muito longa que nos enche de orgulho.  E como vizinhos, por vezes, andámos de mãos dadas na nossa evolução, outras vezes tivemos desacordos. Temos as nossas próprias identidades e dinâmicas, claro, mas a nossa proximidade baseia-se num vasto património partilhado em muitas dimensões, e a cultura não é exceção.

As nossas relações são excelentes.

Para este fim, temos instrumentos cada vez mais consolidados, e alguns deles são já novos, como as redes. A Embaixada de Espanha é uma das mais antigas da nossa rede estrangeira, com um forte alcance cultural. Temos um Conselho Cultural, que se dedica à promoção das relações culturais. Juntamente com o Ministério temos o Instituto Cervantes, a Câmara de Comércio Hispano-Portuguesa, o Instituto Giner de los Ríos, o primeiro criado no estrangeiro, os Departamentos espanhóis nas Universidades — a primeira Unidade Currícular de Estudos Ibéricos, que acaba de ser criada na Universidade de Évora. 

É essencial salientar que a proximidade é um facto que pode ser verificado todos os dias. Existe um sólido substrato de relações densas não só ao nível dos governos, mas também, e sobretudo, dos nossos cidadãos, o que é maravilhoso. Tudo flui com enorme naturalidade e afinidade.

Por exemplo, a Feira ARCO deu o seu primeiro salto internacional para Lisboa, e já teve cinco edições, ou o JUST LX feira de arte emergente que se segue, ou Sala de Desenho Lisboa em cuja terceira edição tive o prazer de participar na Sociedade Nacional de Belas Artes. Os grandes bancos e as suas fundações têm também importantes coleções de arte, tais como La Caixa ou Santander, que foram expostas em Portugal, e que também financiam projetos culturais.

Patrocinamos dezenas de festivais e atores culturais portugueses que convidam artistas espanhóis para fazer parte da sua programação. É impressionante ver o enorme número de Festivais e o dinamismo e qualidade das atividades culturais que se realizam em Portugal. 

E o nosso Ministério da Cultura organiza, desde 2005, a Mostra Espanha, com o apoio do Governo e de várias Câmaras Municipais de Portugal. É um programa bianual de atividades culturais, o que reforça a nossa programação regular. O envolvimento dos nossos parceiros portugueses é realmente fantástico a todos os níveis. É um verdadeiro prazer trabalhar sobre a dimensão cultural deste país. 

G. – O objetivo de promover a internacionalização de diversos criadores, instituições, festivais e indústrias culturais espanholas através de conteúdos digitais é algo que se verifica em alguns programas desenvolvidos pela AECID. Esses mesmos programas estavam pensados para serem aplicandos, ainda antes da pandemia? Ou foram iniciativas adotadas para o desenvolvimento cultural, dada a realidade que temos vivido nos últimos meses?

M.B. – As nossas instituições reconhecem o valor e o potencial dos meios digitais para a difusão e transmissão da cultura. Embora seja verdade que a crise gerada pela COVID 19 transformou esse potencial em realidade. 

O Museu do Prado, por exemplo, uma das mais importantes instituições culturais em Espanha, está a trabalhar na digitalização das suas obras, as visitas guiadas no Instagram, as pinturas comentadas no Facebook, etc., o que o tornou digno do Webby Award, da Academia Internacional de Artes e Ciências, em abril de 2019.

O programa VENTANA da AECID, no qual este Programa E-P COLAB 2020 está incluído, está a ser um processo de aprendizagem, não só para servir de janela para a cultura espanhola, mas também para colocar diferentes culturas em contexto.

Pela minha parte, gostaria de salientar, mais uma vez, a proximidade física e espiritual entre os nossos países e a nossa presença cultural em Portugal, desta vez com a ajuda da plataforma Gerador, de acordo com uma estratégia a mais longo prazo, criando uma janela de diálogo cultural, sempre aberta e inclusiva.

G. – No caso de Portugal e Espanha, é urgente pensar no desenvolvimento cultural e nas relações multiculturais que os países vizinhos desempenham entre si?

M.B. – As nossas relações são excelentes como já referi anteriormente, e a proximidade existe, tudo flui naturalmente e com afinidade. 

Os nossos artistas e atores culturais conhecem muito bem o que se move tanto em Espanha como em Portugal. A nível institucional, tentamos acompanhar e reforçar esta dinâmica, complementar, se necessário, os contactos, abrir algumas portas, atuar como intermediários para aumentar o fluxo de circulação.

Neste sentido, a urgência é relativa, mas é verdade que, como disse, vivemos numa realidade complexa e nova na qual o setor cultural foi particularmente afetado e a ação das instituições públicas é agora essencial para a manutenção das nossas indústrias culturais, cuja boa saúde é necessária para que as relações culturais se mantenham e desenvolvam.

Por outro lado, a produção de conteúdos digitais facilita e encoraja, sem dúvida, a criação de redes de criadores não só entre Espanha e Portugal, com toda a nossa diversidade cultural, mas também com artistas de outros países em colaborações multinacionais. Por exemplo, o Programa Ventana promoveu o trabalho em rede dos nossos Conselhos Culturais de todo o mundo, que coproduzem e distribuem conteúdos nos seus respetivos países. O caminho destas colaborações, apenas pelo seu impacto sem barreiras, pode ser espetacular. 

G. – Recorrendo a um passado de relações com centenas de anos, em cenários diferentes, obviamente, acredita que em ambos os países esse mesmo desenvolvimento poderá ser fruto da diversidade de atividades e ligações, talvez de raiz, que os países têm entre si?

M.B. – Espanha e Portugal são o cenário conjunto de um património cultural muito rico de origem celta, romana, visigótica, muçulmana… e, claro, existe um património cultural, tangível e intangível, que é o resultado das relações históricas entre ambos os países e que nos dá tradições, usos, costumes ou uma gastronomia comum que entre Espanha e Portugal são mais semelhantes do que qualquer outro país do mundo. Isto tem obviamente uma influência positiva nas nossas relações culturais, o que não poderia ser compreendido sem a colaboração entre os nossos museus, universidades, escritores, músicos, atores, artistas… muitas vezes com base no nosso passado comum. Por exemplo, entre muitos outros, a coprodução da peça Reinar Después de Morir, que foi representada pelas Companhias de Teatro Almada e Almagro, em 2019, e que foi representada em ambos os países.

G. – A partilha de uma bagagem de diversas áreas profissionais, na vertente cultural, contribui positivamente para o conhecimento de diferentes artistas a nível internacional. Por exemplo, Fernando Pessoa, José Saramago, são alguns dos nomes que embarcaram numa viagem que se fez realçar em Espanha. E o mesmo se refletiu em Portugal, com Federico García Lorca e Ruán Ramón Jiménez, entre muitos outros.          
Estes “pequenos apontamentos” disciplinares, ou não, podem influenciar no desenvolvimento da cultura do país que os recebe?

M.B. – O objetivo das relações e intercâmbios culturais não é, certamente, outro senão o enriquecimento mútuo dos setores culturais de ambos os países. A vontade não é simplesmente extrapolar as ações dos criadores para um ou para outro país, mas sim enriquecê-las e complementá-las com as contribuições do outro.

Este é o núcleo do Programa #Window da AECID, que em Portugal tomará a forma do programa EP COLAB 2020, que estamos a desenvolver com o Gerador e no qual todas as atividades se baseiam nesta componente de diálogo entre os criadores espanhóis e portugueses. Um programa que aspiramos a transformar num laboratório frutuoso de ideias dos nossos criadores, aproveitando o enorme potencial das plataformas digitais para multiplicar e enriquecer o trabalho em rede, a coprodução e a colaboração entre criadores, atores culturais e instituições em Espanha e Portugal.

O mesmo se aplica à Mostra Espanha, organizada em Portugal de dois em dois anos pelo Ministério da Cultura e Desporto español, desde 2005, com o apoio do Governo e de várias Câmaras Municipais portuguesas. É um programa bianual de atividades culturais, o que reforça a nossa programação regular. É multidisciplinar e, em 2019, atingimos cerca de 20 cidades com mais de 80 atividades. Há de tudo, desde um aceno de cabeça ao nosso património histórico comum até às propostas mais atuais, e é claro que também estamos a trabalhar para incorporar a dimensão digital.

Ou com o Prémio Luso Español de Arte e Cultura, criado em 2006 pelos nossos Ministérios da Cultura com uma dotação de 75.000 euros, uma das melhores dotações em Espanha, que apoiamos em partes iguais, para distinguir de dois em dois anos um autor, pensador, criador ou intérprete vivo, e mesmo uma pessoa coletiva sem fins lucrativos, que pela sua acão na área das artes e cultura, contribuiu significativamente para o fortalecimento dos laços entre os dois Estados e para um maior conhecimento mútuo da criação ou do pensamento.

Como exemplo, devemos mencionar Pilar del Rio, Presidenta da Fundação José Saramago, na edição de 2017, ou o Fado Mariza, o último vencedor na edição de 2019, que nos deu uma maravilhosa atuação no Mosteiro dos Jerónimos, coincidindo com a abertura da Mostra Espanha.

G. – Atualmente, a colaboração entre os artistas portugueses e espanhóis é algo que se pode revelar importante para o desenvolvimento cultural dos dois países?Português:

M.B. – Esperamos sempre que a colaboração entre artistas e instituições culturais tenha um efeito positivo no desenvolvimento cultural de ambos os lados. Cada intercâmbio é, por si só, enriquecedor e transmite valores. Nos últimos anos, houve muitos exemplos de iniciativas culturais conjuntas que tiveram uma influência decisiva sobre o ambiente em que tiveram lugar. Um dos casos mais relevantes é o da ARCO, que fez o seu primeiro salto internacional para Lisboa, e já teve cinco edições, ou outras feiras de arte como a feira de arte emergente JUST LX que se segue, ou o Drawing Room Lisboa que, no campo do design, abre esta semana a sua terceira edição na Sociedade Nacional de Belas Artes, onde fizemos uma magnífica exposição, em 2019, sobre Benjamin Palencia no âmbito da Mostra Espanha 2019. E, no sentido oposto, vemos exposições como “Eu sou o vosso espelho” de Joana Vasconcelos no Museu Guggenheim em Bilbao ou a exposição “Pessoa. Toda a arte é uma forma de literatura” no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía têm sido verdadeiros marcos na divulgação da arte e cultura portuguesas em Espanha.

G. – Em alguns momentos, a Literatura e o Cinema descreviam Portugal e Espanha como países “distantes”, no que competia ao valor cultural ativo da Península.
Considera que este cenário já foi ultrapassado?

M.B. – Embora ainda se ouça, por vezes, “de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos”, ou a ideia de viver de costas voltadas, creio que ambos os países compreenderam o seu passado. Estão a viver um presente de compreensão e trabalho conjunto sobre o seu futuro, não só sem desconfianças, mas muito conscientes dos bens que temos, dos enormes e amplos interesses que partilhamos, e do potencial que temos em conjunto.

Dou, como exemplo, as cimeiras bilaterais anuais. Recentemente, na Cimeira da Guarda a 10 de outubro, o Instituto Cervantes, o Instituto Camões e o Instituto de Cooperación de la Lengua IP apresentaram uma publicação conjunta do livro Proyección internacional del español y el portugués: el potencial de la proximidad lingüística, que destaca a posição e o papel estratégico do espanhol e do português no mundo atual, as suas perspetivas de crescimento, salientando a sua importância como línguas internacionais em dimensões fundamentais da atividade humana como a cultura, ciência, educação e economia, também no campo digital, já que o espanhol é já a 3ª língua mais utilizada na Internet e nas redes sociais, depois do inglês e do chinês, e o português a 5ª língua, depois do árabe.

G. – A nível mundial, acredita que a expressão identitária assim como as vivências são a chave cultural que poderá abrir as portas há muito tempo “fechadas” ou “entreabertas” entre os países?

M.B. – A cultura e o património cultural são um reflexo das idiossincrasias, identidades e desenvolvimento histórico dos povos e se, como diz o ditado, as viagens nos permitem conhecer e abrir as nossas mentes, as relações culturais entre os nossos países contribuem para aprofundar ainda mais o nosso conhecimento mútuo e, assim, banir de uma vez por todas os clichés obsoletos sobre viver de costas para o outro, que no contexto de um mundo cada vez mais globalizado não têm sentido.

Concluindo, a abertura de portas entre os nossos países permite-nos não só beneficiar do enriquecimento mútuo e da retroalimentação que as relações frutuosas representam para os nossos setores culturais, mas também formar, juntamente com toda a esfera latino-americana, uma potência cultural e linguística que, impulsionada por excelentes relações culturais, pode contribuir de forma fundamental para o desenvolvimento sustentável das nossas comunidades culturais e, por conseguinte, das nossas sociedades.

Texto de Patrícia Silva
Fotografia retirada do site da
Embaixada de Espanha

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