Tinha abandonado há pouco tempo o emprego fixo para me dedicar à consultoria a tempo inteiro, mas por azar dos Távoras, esta mudança foi muito pouco tempo antes da crise de 2008 ter desabado sobre todos nós. E, como uma desgraça nunca vem só, foi exatamente essa altura a escolhida pela minha mulher para decidir que precisava de mudar de ares, e de cama. Como não tínhamos filhos, o desenlace foi rápido, mas custou-me os olhos da cara.
Como consequência, ando a viver das poupanças (mais da dos meus pais do que da minha).
Nestas alturas, tudo o que vem à rede é peixe, e nem hesitei quando recebi a sugestão da eventual cliente – sou investigador especializado em seguros e processos fiscais - para nos encontrarmos para almoçar num sítio discreto.
Sugeri uma esplanada de um hotel sossegado para os lados da Ericeira, onde eu costumava passar alguns dias todos os anos para mudar de ares.
Era frequentador assíduo desse hotel praticamente desde que me divorciei. Nem gastava muito dinheiro porque sempre preferi ir nos meses de inverno, para estar sozinho e ler sossegado o que me apetecesse sem interrupções, deixando o T2 herdado dos pais nas avenidas novas, onde penava sozinho.
A “casa de família” ficou com a ex-mulher. Eu estava tão apalermado com a decisão extemporânea de divórcio que nem discuti bem o assunto.
Quando a vi (à cliente), percebi logo que destilava classe. No tailleur cor-de-rosa, nas sandálias da mesma cor, no discreto Patek em ouro branco, mas sobretudo na pose. Um metro e setenta bem equilibrado nos saltos altos e timing perfeito, incluindo os 10 minutos de atraso que fazem parte dos hábitos elegantes de certa aristocracia.
Pediu um vodka tónico enquanto esperávamos pela ementa, fazendo companhia ao meu “marlowniano” Jack Daniel’s. Começou com ares de intriga: “Ainda bem que conseguiu vir. Podemos falar do assunto enquanto tomamos o café? Gosto de apreciar a comida sem a estragar com conversa de negócios”.
Ao vê-la, naquela pose de grande senhora que eu sentia ter caído nalguma aflição, pensei logo que das duas uma: ou estava ali uma oportunidade para dar a volta ao marasmo da minha vida, financeiramente falando, ou corria o risco de me envolver seriamente, doido como sou pelas primeiras impressões.
O empregado trouxe-nos uma canastra com o peixe de mar que estava disponível nesse dia. Acordámos num robalo grelhado inteiro. A minha companheira ficou à espera que eu escolhesse o vinho e, com um sinal de cabeça, aprovou a sugestão.
Nos minutos seguintes falámos de trivialidades.
Já com os cafés nas mãos, chegou finalmente o motivo real da conversa: O marido andava “muito estranho” ultimamente. Esquecia-se de tudo, nem falava aos filhos, trabalhava fora de horas duas ou três vezes por semana e - para cúmulo – não lhe tinha dado explicação satisfatória para uma ausência de quatro dias em Viena… Negócios inadiáveis, fora o que lhe conseguira arrancar… Pior do que isso, o dinheiro começara a escassear e ela tinha lido cartas estranhas de credores, até da autoridade tributária, reivindicando pagamentos em atraso. Tinha esses documentos na mala.
“É só isso?“, perguntei-lhe eu. - “Sim, só isso e já não é pouco.”
Nunca é “só isso”.
Por norma, os cônjuges com problemas de liquidez e dificuldades financeiras deixam de prestar atenção ao companheiro na intimidade, alegando cansaço, pois então, ou desculpas com o ritmo do trabalho. Mas ninguém está à vontade para o confessar, pelo menos num primeiro encontro deste tipo.
- “Onde trabalha o seu marido? O que sabe da sua vida de negócios? Quando é que acha que as coisas em casa começaram a correr menos bem?”
As perguntas da praxe que qualquer “Sherlock” de algibeira tem de fazer.
Separámo-nos com um pedido: - “Muito obrigada pelo almoço. Vou tentar saber mais detalhes, mas, entretanto, peço-lhe que logo que possa me devolva os originais dos documentos que lhe entreguei.”
O meu cartão de crédito estava – como sempre - “tapado”, mas o banco autorizava-me um descoberto todos os meses, e foi por causa disso que pude pagar os 170€ de dois almocitos…
À saída, não pude deixar de reparar na mesa do canto. Lá estava um “colega” ainda pouco treinado, a tentar esconder por detrás do Diário de Notícias o telemóvel com a camara ativada. Os paparazzi já andavam a cheirar o sangue. Curioso.
Acompanhei-a ao carro, estendi-lhe a mão e desejei que tudo corresse bem. Notei, ou seria impressão minha, que o toque da mão na mão teria demorado mais tempo do que o estritamente necessário para o efeito pretendido.
Dias mais tarde encontrámo-nos outra vez, na Versailles, para lhe devolver a documentação. A conversa foi mais demorada e trouxe para a intriga mais pormenores, alguns mais intimistas e que seriam sintoma de que o mânfio se estava a preparar para uma cena à moda do banqueiro recentemente desaparecido. Tipo Luís de Matos. “Puff” e já cá não estou.
Dei-lhe os conselhos que achei melhor para se precaver, embora já tarde para evitar o desfalque que ele preparava há algum tempo, como viemos todos a saber mais tarde.
E, parvo como sou, não lhe apresentei a conta do meu serviço. - “Lá irá ter a casa, não se preocupe”.
Desta vez, a despedida foi mais amistosa e acabou com um curto beijo que me deixou marcas na alma.
Mais tarde, vim a saber que o marido era suspeito em mais um dos escândalos bancários que são correntes no país, e que estava ausente em parte incerta.
Nunca mais a vi, mas dizem-me que teve de vender o apartamento na Lapa e a casa de férias na Granja. Parece que os filhos, já adultos, tiveram de se fazer à vida e que ela hoje habita um monte onde cria alguns cavalos, perto de Beja, a única coisa que lhe ficou de uma vida de luxo absoluto.
Não sei porquê, deu-me uma vontade súbita de ir a Beja… Logo que ponha as pastilhas novas no meu Volvo “vintage” (acho que com 20 anos de idade já é “vintage”), vou até lá…
No fim de contas, sempre gostei de cavalos e nunca consegui esquecer aquele beijo da Versailles ao final de uma tarde de outono.
E, quem sabe, pode ser que a vida comece aos cinquenta (e três).
-Sobre Manuel Luar-
Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.