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Opinião de Andreia Monteiro

Obrigada, Gerador!

Nas Gargantas Soltas de hoje, Andreia Monteiro fala-nos sobre gratidão, crescimento e novos voos.

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Tenho as gavetas cá de casa a rebentar com projetos adiados, com sonhos que fui colecionando durante estes meus 26 anos. O final de 2022 fez surgir, em mim, a evidência dos perigos de deixar essas gavetas rebentar, pelo que tomei a decisão de me dedicar a esses projetos a tempo inteiro. 

Normalmente, ouvimos falar dos saltos quando já está comprovado que correram bem. Foram bons saltos, riscos bem tomados, decisões certeiras e, daí, nascem histórias inspiradoras. Ao longo dos anos, fui lendo e ouvindo muitos desses relatos e todos eles me fizeram sonhar. Em última instância, também eles contribuíram para o meu salto. Mas sinto falta de falarmos das coisas à medida que as decisões vão sendo tomadas, ainda antes de sabermos o seu resultado. Correndo o risco de tudo se revelar à margem do que idealizámos, de nem todos os saltos terminarem em triunfo. 

Conheci o Gerador em 2017, numa palestra a que assisti na faculdade quando ainda era finalista da licenciatura em Comunicação Social e Cultural. Apaixonei-me, de imediato, pelo projeto, porque senti que tinha muito que ver com a minha criatividade e, embora não a fosse viver na primeira pessoa, podia viver mais próxima do mundo artístico que tanto me fazia feliz. Também motivada pelo curso que estava quase a terminar, por todos os objetivos e metas jornalísticas que passei a idealizar para mim, acabei por entrar em contacto com o Gerador. Apareci no escritório sabendo que queria contribuir para o projeto, mesmo que não antevendo a fazer o quê exatamente — uma vez que ainda não existia a sua vertente de órgão de comunicação social, à data. Nunca mais de cá saí. Meteu-se um Interrail pelo meio, mais um intercâmbio de cinco meses nos EUA, mas regressei sempre à casa que havia encontrado no Gerador. 

2022 é o ano em que saio dessa casa para tentar viver numa que possa realmente chamar minha. Tornou-se claro, para mim, que a única casa que tenho e à qual voltarei sempre, tal como as andorinhas, sou eu mesma e aquilo que o meu coração metafórico sempre me disse. Por mais que nos adiemos, se formos honestas a olhar para nós próprias, percebemos que os projetos que vamos protelando constantemente e que vão ganhando pó nas nossas gavetas fazem mais do que ocupar esse espaço. Retiram-nos energia e dissipam a magia que é inata a cada uma de nós. Continuo a admirar o Gerador, as pessoas que nele me marcaram, mas havia uma Andreia apaixonada por outros mundos, antes desta aventura, que nunca desapareceu. Em 2022, despeço-me do Gerador e vou reconciliar-me comigo e com os meus sonhos. 

O futuro nunca foi tão incerto, para mim, como o 2023 que se avizinha. Não tenho certezas nem garantias de nada. Salto para o vazio, como no trabalho de Yves Klein [Leap in to the Void, 1960], porque percebi que tenho uma rede que me vai acolher independentemente do resultado. Ao longo da minha vida, o medo de não alcançar os resultados com que sonhava, paralisou-me. Hoje, renuncio ao que de mais estável tenho para me abraçar à incerteza. Quero poder dizer que tentei verdadeiramente concretizar os meus sonhos e objetivos, mesmo que esta história não tenha o final que, hoje, imagino como sendo feliz. Tenho de o tentar para não me esquecer de quem sou. Quem sabe se, em dezembro de 2023, tenho a história de um salto inspirador para contar — quer seja porque saltei e voei pelos caminhos que almejei, ou porque saltei e caí, apoiada pela rede de pessoas que me amam, só para depois me voltar a levantar. 

Após cerca de seis anos a trabalhar no Gerador, despeço-me deste mundo que foi o meu dia a dia com algum medo, um frenesim no estômago, mas acima de tudo um grande sentimento de gratidão por todas as aprendizagens, oportunidades, pessoas que o jornalismo trouxe à minha vida e por todas as pessoas que foram lendo os meus textos e que se identificaram com a minha forma de trabalhar. 

E agora, em três, dois, um — SALTO!  

Vemo-nos por outras paragens!

Até breve, 

Andreia Monteiro

-Sobre Andreia Monteiro-

Cresceu na terra que um dia alguém caracterizou como o “sítio onde são feitos os sonhos” e lá permanece, quer em residência, quer na constante busca por essa utopia. Apaixonada pelo mundo artístico, é uma leitora insaciável, a companheira constante de um lápis e papel, uma curiosa de pincel na mão, uma amante de teatro e cinema e está completamente comprometida com a beleza da música que tem vindo a descobrir. É aluna finalista, em voz, na escola de jazz do Hot Clube de Portugal, onde começou a estudar em 2019. Está, atualmente, a trabalhar no seu primeiro EP, um sonho tímido que quer tirar da gaveta. Licenciada em Comunicação Social e Cultural, na vertente de Jornalismo, pela Universidade Católica Portuguesa, e mestre em Ciências da Comunicação, na vertente de Jornalismo, pela mesma entidade, foi, entre maio de 2019 e dezembro de 2022, a diretora editorial do Gerador, Associação Cultural a que se juntou no final da sua licenciatura, em 2017. Acima de tudo, é uma criatura com pouco mais de metro e meio cujo desassossego não deixa muito espaço para tempos mortos, embora reconheça, cada vez mais, a importância das pausas e silêncios.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Andreia Monteiro
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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