Quem conhece a minha vida profissional, sabe que sempre estive ligada ao meio artístico através da produção de espectáculos de determinada ordem. Tive a sorte de conhecer os grandes nomes no início de carreira e acompanhar alguns durante a primeira fase de crescimento. Aprendi muito e também vi muito. Mas ficou para sempre um agradecimento a todos pelo que me faziam sentir, por vezes uma alegria desmedida, outras uma certa euforia, o entusiasmo do sucesso, o nervoso de quem vai dar tudo por tudo e o descanso do guerreiro extenuado numa carrinha de regresso pela madrugada adentro.

Qualquer que seja a área artística, só quem lhe está próximo e por dentro é que sabe os dramas e os excessos, as vitórias e as muitas derrotas, a entrega e abandono. Não é, de forma alguma, uma surpresa quando certos (e grandes nomes) desaparecem cedo demais porque não aguentaram tanta pressão. Não é por acaso que é um mundo associado a dependências de toda a ordem, mesmo que uma grande percentagem nunca tenha escolhido esse caminho.

Mas para se criar, para se conseguir enfrentar uma plateia, para ouvir uma ovação ou o seu contrário, é preciso, necessário, obrigatório, dar tudo o que se tem. E quando digo tudo, é do corpo à alma. 

Ser um artista é estar exposto a todas as hipocrisias do mundo, às maldades humanas, aos desafios da concorrência, ao medo de falhar, o eterno pânico de perder a chama. E depois, bom, depois ainda se conta com os abutres e as hienas que corrompem a pele até ao osso e que esmagam a força que resta.

Sim, a vida de um artista não é fácil. Mas é por ela que vivemos melhor a nossa. Parece tão simples, não é? Alguém faz uma música que gostamos, compramos o disco e pagamos-lhe a conta desse mês. Mas, muitas vezes, aquilo que pagamos nunca chega aos bolsos de quem cria. Isso foram outros tempos em que, mesmo com uma indústria canibal, ainda se “viam” uns trocos para comprar uma nova guitarra ou um teclado, uma câmara nova ou um pincel específico.

Agora, no mundo dos spotifys e dos MP3s, ninguém compra realmente música. Ouve-a fugazmente e passa à seguinte porque os oito segundos de concentração já se foram. É, de todas, a indústria mais afectada pela tecnologia. Tecnologia que também permite a qualquer um de nós fazer música, ou pelo menos, criar sons. É um paralelismo bizarro, certo?

Mas relembremos o início da pandemia que nos tirou a vida tradicional durante dois anos (se não for mais). Quais foram as primeiras manifestações de solidariedade, humanismo, crença e respeito? Cantar e tocar à janela, varandim ou telhado. E o que fizemos confinados? Ouvimos mais música porque ler é só para alguns e ver séries é cada um no seu tablet ou computador.

Falando por mim, é na música que me reencontro e alimento. Que ainda obtenho prazer depois de mais um dia de muito trabalho sem contacto físico. Com ou sem auscultadores, a cantar alto e desafinado com a certeza que alguns vizinhos sorriem, tenho momentos de pura libertação de energia psíquica e física, porque ando aos pinotes, porque rodopio e dou murros no ar, porque me lembro das coreografias da minha adolescência e porque, acima de tudo, preciso deste pão que realmente me e nos alimenta.

É por isto que hoje, antes de uns dias de descanso, quero agradecer aos artistas e principalmente aos músicos. Aos que conheci, aos que conheço e com quem partilho vidas, aos que adoro, aos que descubro e até mesmo aos que me obrigam a ouvir mesmo não apreciando o género.

Quantas vidas, meus caros e minhas caras, vocês já não salvaram com as vossas letras, melodias, força e harmonia? Por quanto sofrimento já passaram para poder estar cá quando precisamos? Como é possível termos temores e problemas que parecem iguais? Talvez até o sejam, quem sabe.

A música é uma das melhores terapias que se pode ter. Porque nos permite tudo, até deixarmos de ser nós durante aqueles minutos em que poderíamos deitar tudo a perder.

E por isso, por tudo isto, quero deixar o meu apreço. E o meu abraço.

Obrigada.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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