A língua é um grande património, erguido ao longo do tempo pelas interações entre as pessoas, que deixam na nossa memória um pouco de si. Há certamente questões mais prementes do que propriamente discutir o sexo dos anjos, mas dar a conhecer e aprender a origem das expressões que usamos diariamente é algo muito enriquecedor. É sinal da importância que damos à cultura, da importância que a cultura tem para a formação de cada um nós. Acredito que o sentimento é geral e certamente todos sairemos daqui um pouco mais ricos.

Isso são outros quinhentos!

Hoje inaugura-se uma nova rubrica, aqui no Gerador. O mote continua a ser a língua, as palavras. Vamos falar de expressões que por aí se ouvem, que se soltam desenfreadas da nossa boca, por vezes nem as controlamos.

A primeira expressão, e como não podia deixar de ser porque encabeça a rubrica, é: Outros quinhentos. Há algumas maneiras de designar estas construções, mas o melhor é não ir por aí, porque entraremos em questões muito técnicas. Vamos falar apenas de expressões idiomáticas, aquelas que se cristalizam numa determinada língua, não sendo, geralmente, entendidas ao pé da letra. Então, para começar, nada melhor do que analisar a expressão num determinado contexto.

A expressão em contexto

– Estou com umas dores de cabeça dos diabos! Acho que hoje não vou às aulas…

– Que pena! Estava a pensar convidar-te para irmos logo ao cinema!

– Ah, mas isso são outros quinhentos!

Este seria um contexto em que a expressão «Isto são outros quinhentos!» encaixaria na perfeição. Todos nós percebemos a ideia, mas já paraste para pensar de onde virá a expressão? Afinal, o que são estes quinhentos que têm tanta força? Ninguém diria, aposto, «Isto são outros noventa e nove!» Pois não, não soa nada bem. A força a que me refiro é a dita cristalização que este tipo de expressões apresenta.

Mas por que carga-d’água dizemos «Isso são outros quinhentos!»?

Agora, vamos fazer uma viagem. Preparados? Vamos entrar na nossa máquina do tempo e dar um salto até à Idade Média, assim por volta do século XIII. À época, os fidalgos de linhagem na Península Ibérica podiam pedir uma indemnização por injúria ou calúnia no valor de quinhentos soldos. Ah, espera! Já cá temos o dito cujo! Em caso de reincidência, nada mais nada menos que outros quinhentos! Ah, pois é, «Isso são outros quinhentos!»

Quando entramos no mundo maravilhoso das expressões idiomáticas, algo muito recorrente é o facto de muitas delas apresentarem várias teorias, hipóteses ou fundamentos para as suas origens. E este caso não faz a diferença!

Uma outra explicação possível para a expressão relata que um indivíduo, vamos chamá-lo Zé, do interior, decidiu tentar a sua sorte na capital. Então, o Zé lá partiu, mas antes pediu ao pai para lhe guardar quinhentos contos de réis. Os anos foram passando e o Zé nunca mais apareceu na sua terra. Um belo dia, decidiu dar um ar da sua graça e lá foi pedir o dinheiro guardado ao pai. Mas… ora o seu pai já tinha gastado o pilim na reforma da igreja e disse ao filho que não se lembrava de ele ter deixado nada. Um coronel, que havia ouvido a conversa entre pai e filho, para tentar ajudar o padre disse: «Ah, foi a mim que me entregou o dinheiro.» Ao que ele respondeu: «Isso são outros quinhentos!»

Eu, cá, prefiro a primeira explicação; e tu? Pois, gostos não se discutem!

 E o que significa?

Gosto sempre de recorrer a velhos tratados. Frei Domingos Vieira, no seu Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Lingua Portugueza, publicado em 1874, descodifica o sentido desta expressão da seguinte forma: «alguém pronunciou novo disparate afora os que havia soltado».

Encontramo-nos quarta-feira numa próxima crónica? Vou explicar-te de onde vem a expressão de despedida que vou usar em todos os textos.

Um abraço, despeço-me com amizade!

Texto de Ana Salgado
Ilustração de Carla Rosado