A poucas semanas de celebrar o seu primeiro aniversário, o Palheta Bar, localizado no Cais do Sodré, aceitou o desafio de estrear esta rubrica, e abriu-nos as portas (passe a redundância, pois na verdade está aberto todos os dias da semana), para se dar a conhecer melhor. Com Francisco Martins, de 31 anos e natural de Lisboa, ao leme, o Palheta tem na música (seja através de concertos ao vivo ou através da sua coleção de discos, que pode ser ouvida ao entrarmos no espaço) um dos seus trunfos para atrair público.

Mas, antes do sítio, a pessoa.

Formado na Escola Profissional de Teatro de Cascais, a vida levou a que Francisco, ao sair de casa, encontrasse na restauração um meio de subsistência, e, consequentemente, no bartending uma paixão. Começando no Le Chat (Janelas Verdes), e passando posteriormente pelo Ministerium (Terreiro do Paço), foi no Cantinho de Saudade (Cais do Sodré) onde começou a acumular as responsabilidades de funcionário com as de gerente. E já aí, defende, o peso da sua cultura musical fazia a diferença no sucesso do espaço: “Agradava-me que as pessoas destacassem o bom gosto da escolha da música que se ouvia no bar, quando entravam”, assume. Ao fim de 3 anos, o sucesso alcançado neste sítio leva ao convite por parte de um amigo de longa data (um dos atuais sócios, e ex-colega no Le Chat) a explorar o n.º 30 da Travessa da Ribeira Nova .“Já conhecia o espaço, e sempre tinha tido vontade de o explorar, pelo que disse logo que sim.”

A 8 de Junho de 2018, o Palheta Bar abre portas ao público, mas não sem um investimento prévio, próprio de quem queria dar à música um papel importante nesta história. Uma motivação pessoal, movida por uma paixão pela música impossível de dissociar da influência familiar: ao padrinho Janita Salomé, e ao tio Rui Martins, parte integrante da direção do Hot Clube Portugal durante 13 anos, juntam-se um pai que é amigo de longa data de Vitorino e uma mãe apaixonada pela música popular brasileira. Da aquisição de um piano vertical Yamaha, Cajon, guitarra e instrumentos de percussão, a um gira-discos, ao qual se juntou parte da coleção de vinis da mãe e do tio, Francisco quis desde logo fazer do Palheta um sítio onde “tanto os músicos como todas as pessoas que gostam de música se sentissem em casa”.

A aposta começou a ser ganha na noite em que o pianista brasileiro Glayson Lacerda (Pikachu para os amigos) descobriu o Palheta, quando passava e ouviu o som de um piano a vir do bar. Uma das coincidências que, segundo Francisco, foi importante para os dois lados – se para Glayson proporcionou a reconexão com um instrumento que não tocava há já alguns meses, Francisco lembra que “na primeira vez que o Glayson cá veio, começou a tocar às 21h e só parou às 2h, porque nós tínhamos de fechar”. As visitas do pianista – a quem, assume o próprio, ver portugueses a cantar repertório brasileiro fez dar mais valor à cultura do seu país, e a sentir-se mais em casa no nosso – começaram a ser cada vez mais regulares, até que Francisco lhe fez o convite para que tivesse um concerto regular, às quartas-feiras, apresentando-se ao vivo com o percussionista (também ele brasileiro) Juninho Duvale.

Para João Pedro Coelho, também ele pianista, com uma atividade intensa no círculo de jazz do país, um sítio com piano em pleno Cais do Sodré é sempre algo que salta à vista. Residente no Palheta desde Fevereiro, juntamente com o contrabaixista Romeu Tristão e o baterista sérvio Nemanja Delic (o “Palheta Jazz Trio”, como é conhecido, vai estar inclusivamente a tocar na edição deste ano do EDP CoolJazz, no mesmo dia que The Roots e HMB); João Coelho assume que, apesar de já conhecer o espaço, foi o desaparecimento do Café Tati que o levou mais regularmente para o Palheta, desde o início do ano.

As Jam Sessions de jazz começaram por ser ao domingo – ocupando o horário que antes pertencia à Jam do agora encerrado Café, passando no último mês para as sextas-feiras ao final da tarde, por questões legais. Apesar de a afluência ter diminuído ligeiramente com a mudança de horário – “Se antes as pessoas já sabiam que havia, agora o nosso público, é, principalmente, a malta que vai a passar e se deixa ficar.” –, o pianista destaca o facto de, em contraste com tantos outros sítios da capital, o peso dos turistas não ser tão preponderante no público que assiste. “Não só na nossa jam, sinto que a população local tem um peso significativo no público do Palheta em geral.” Neste grupo, o pianista destaca ainda a comunidade brasileira residente em Lisboa.

A juntar às quartas de MPB e às sextas de jazz, o Palheta aposta ainda em noites com DJ aos sábados (Guerrila Sound System; DJ Tempura e DJ Costureira são alguns dos nomes que por lá passam), e está também interessado em dinamizar as segundas-feiras – “temos neste momento, uma vez por mês, na 2.ª segunda-feira do mês, o duo Karlos Rotsen/Walter Areia, mas a ideia é que sejam todas preenchidas com música ao vivo”, revela Francisco. A aposta neste dia da semana prende-se em parte com o facto de este ser, regra geral, um dia de folga na restauração, atraindo portanto outro tipo de clientes. O horário dos concertos é propositadamente cedo, numa zona onde os moradores também têm a sua palavra a dizer: “mesmo tendo um estabelecimento onde gosto de passar música, tenho também de compreender o ponto de vista de quem aqui mora, e não quer estar a ouvir música à 1h da manhã”, assume o gerente. Em complemento aos dias em que há música ao vivo, o bar aposta também em noites não programadas, não escondendo o muito gosto que tem em partilhar a sua coleção de discos com quem ali passa.

Numa zona onde a oferta de espaços é abundante, Francisco assume que a sustentabilidade deste projeto assenta, mais do que tudo, na sua crença e paixão pelo mesmo. “Se eu apenas quisesse ter lucro, provavelmente não faria uma aposta tão grande em música ao vivo, mas este é o tipo de espaço que eu quero que o Palheta seja, quero que tenha a reputação de uma casa onde a música é protagonista.”

Uma coisa é certa: para as pessoas que por lá passam, seja para tocar, ouvir, ou apenas conviver, a aposta está mais do que ganha. E quem vos escreve este primeiro texto pode confirmar isso mesmo.

Texto de João Espadinha
Fotografia de Jep Jorba

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