Localizado nas míticas escadas da rua do Quebra Costas, o Quebra é já uma referência na zona histórica da cidade de Coimbra, e apresenta desde 2012 uma programação regular de jazz. Aberto desde 1984, o bar teve desde sempre uma aura jazzística predominante,  fruto da paixão por este estilo por parte dos seus primeiros proprietários, na altura traduzida apenas na música que lá se escutava ao entrar.

A informação privilegiada é-nos fornecida por Miguel Lima, um dos atuais proprietários, também ele apaixonado por música. Natural de Coimbra, Miguel foi desde cedo frequentador assíduo do Quebra, começando a trabalhar no respetivo bar em 1991, já na sua segunda gerência, e tornando-se sócio em 1997. Por volta de 2007 foram feitas as primeiras experiências pontuais de música ao vivo, com um leque de estilos musicais mais abrangente, pelo que em 2012, em colaboração com o baterista Paulo Bandeira, amigo de longa data e hoje em dia também ele proprietário do Bar, arrancou o festival Quebra Jazz, que até aos dias de hoje, de junho a setembro, traz todas as semanas à cidade de Coimbra nomes incontornáveis do panorama jazzístico nacional.

Numa altura de crise, refere Miguel que “o objetivo passava por dinamizar uma zona histórica da cidade, trazendo mais gente para essa mesma zona”. Com os concertos a serem realizados ao ar livre, nas históricas escadas em frente do bar, o ambiente foi desde logo contagiante não só para quem por ali passava “desde turistas a locais, muita gente chega a esta zona e é surpreendida por concertos de um nível altíssimo num espaço diferente do habitual”, como também para os próprios músicos, defendendo o dono que a empatia que se cria entre o espaço, público e músicos torna cada concerto num acontecimento especial.

Já por certo familiar a contextos de música na rua, será a banda Dixie Gringos, que atua no Quebra na noite em que é feita esta visita. Originária de Coimbra (como não poderia deixar de ser), e bastante activa desde a sua criação em 2000, esta formação de oito elementos procura reviver o espírito das marching bands de Nova Orleães, e toca pelo segundo ano consecutivo na inauguração do festival. Um dos seus mentores, o baterista Rui Lúcio, fala connosco e confirma a empatia que existente entre o espaço e os músicos referida por Miguel: “Mesmo estando habituado a tocar na rua, dada a natureza do nosso projeto, estar fixo num palco onde se tem pessoas a assistir de quase todos os lados proporciona uma envolvência especial entre quem está a tocar e o público que assiste”.

A adesão por parte do público do festival de Verão levou a que a programação de jazz do Quebra se prolongasse aos restantes meses do ano, desta feita no espaço interior do Bar. Se no Verão, ainda que não de forma exclusiva, o turismo acaba por ter um peso relevante na assistência, no Inverno acaba por  haver um público específco para o jazz, refere Miguel. Algo que não surpreende o dono do bar, numa cidade com uma tradição incontornável neste estilo, e que viu crescer jovens talentos como João Freitas, Luís Figueiredo, João Firmino, Guilherme Melo, Ricardo Marques, entre muitos outros. Importante não esquecer também o papel que tem hoje em dia o Conservatório de Música de Coimbra e o respetivo curso profissional de jazz (um dos poucos no país), em manter a chama do jazz acesa na cidade.

Quanto ao Verão, o sucesso do formato ao ar livre levou a um crescimento gradual dos apoios, essencial para tornar esta iniciativa viável. “Este ano, são 25 concertos que realizamos nestas escadas, de forma gratuita”, lembra Miguel. A juntar ao apoio da junta de freguesia, que tem sido incondicional desde a génese do festival, apareceram nos últimos anos apoios vindos da Câmara Municipal de Coimbra e do Turismo Centro Portugal, juntamente com uma candidatura ao Programa de apoio à atividade cultural da Direção Regional da Cultura.

Para a edição de 2019, a grande novidade é uma parceria com o Festival das Artes de Coimbra, resultando naquele que é o primeiro concerto deste ciclo a acontecer fora das escadas. Falamos pois do projecto Alma Nuestra, do pianista Victor Zamora, e que conta com a participação de Salvador Sobral. “Já no ano passado os tivemos cá, naquela que foi provavelmente a nossa maior enchente de sempre” lembra Miguel, assumindo portanto que, dada a dimensão do concerto, foi mais adequado que o mesmo decorresse na Quinta das Lágrimas, no auditório Colina de Camões.

O dono do bar acredita que este tipo de parcerias terá um papel importante no crescimento do festival, em edições futuras. Não deixando de querer manter a essência do festival ligada às escadas onde a maioria dos concertos decorre, Miguel defende que o objetivo poderá passar por dinamizar o maior número possível de zonas da cidade. Nesse sentido, a realização de mais parcerias com outras entidades é uma vontade assumida pelo próprio, de forma também a poder realizar, à semelhança do que acontecerá este ano, concertos de maiores dimensões (contando eventualmente com artistas internacionais), com condições logísticas mais flexíveis do que as escadinhas do Quebra.

Para já, o festival respira saúde e vai para a sua 8ª edição. Numa nota pessoal, os votos de uma longa vida ao mesmo são honestos, e partem de alguém que escrevendo este artigo após uma experiência enquanto observador, teve também a oportunidade de fazer parte do mesmo enquanto artista numa edição anterior.

Texto de João Espadinha
Fotografias de Quebra

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