Fundada em 1899, a Sociedade Musical União Paredense (SMUP) direcciona a sua actividade para um conjunto de áreas artísticas, das quais a música assume um papel preponderante desde o seu início.

O edifício actual é a sede da sociedade desde 1939, sendo que em 2015, após um longo período de obras iniciado nos primórdios do século XXI, a SMUP ganhou uma nova vida, e recebe hoje em dia todo o tipo clientes, proporcionando um encontro de pessoas de diferentes gerações, que contribuem activamente para o seu crescimento. Exemplo disso é o grupo que nos recebe: Diogo, Marta e Nuno; todos eles começaram como clientes assíduos do espaço, envolvendo-se gradualmente com a SMUP até entrarem para a casa.

No caso de Nuno, que frequenta o espaço desde os seus 15 anos, as primeiras memórias remontam já ao início da década de 90, atraído inicialmente pela mesa de bilhar, ao mesmo tempo referindo que, numa época pré-digital e pré-móvel, a sala da SMUP era um ponto de encontro para o seu grupo de amigos. “Nessa altura, acordado, era capaz de passar mais tempo aqui do que em casa”, assume. Após vários anos de frequência do espaço, entrou para os quadros enquanto responsável de manutenção há dois anos. Já Diogo e Marta, clientes desde 2013, foram estreitando laços com a anterior direcção, e começaram por colaborar com a sociedade das mais variadas maneiras: desde uma feira de roupa e vinis ao trabalho no bar; até aos dias de hoje, trabalhando os dois actualmente na secretaria: Marta responsável pela coordenação, Diogo responsável pela parte administrativa e logística, fazendo ele também parte da direcção.

Conta-nos Nuno, mais consciente das diversas fases que a SMUP viveu, que, após um período de encerramento com obras prolongadas, o ano de 2013 deu uma nova vida à sociedade, com o início de uma parceria que foi crucial para a sua revitalização: “No ano de 2012, a associação “Cultura no Muro” tinha ganhado o orçamento participativo da Câmara Municipal de Cascais, mas não tinha um espaço onde pudesse levar a cabo a sua actividade. A SMUP, por sua vez, ganhou o orçamento participativo no ano seguinte, sendo que, no entanto, o valor desse orçamento não era suficiente para completar as obras que eram necessárias. Nesse sentido, a própria câmara sugeriu que a “Cultura no Muro” investisse o seu O.P. na SMUP, com a contrapartida de lá ficar sediada”, explica, contextualizando desse modo o início de uma colaboração que perdura até aos dias de hoje. Entre 2013 e 2015, a SMUP começou pontualmente a receber público de forma “mais ou menos clandestina”, explorando apenas parte do edifício, até à sua abertura oficial em 2015, tendo a partir daí encetado a sua actividade e programação com maior regularidade.

Se a juntar ao espaço, parte do calendário da SMUP está reservado para a Cultura no Muro como contrapartida dessa colaboração, a outra parte da programação levada a cabo pela SMUP incluiu já no passado um ciclo com curadoria da artista Joana Barra Vaz, e inclui até aos dias de hoje um ciclo de música improvisada, com a programação de Cláudio Rego. “O início do ciclo da música improvisada foi também consequência da relação com o Pedro Costa, que explora o Restaurante Sociedade, cujo espaço está também integrado no edifício”, explica Diogo. Com as ligações de Pedro Costa à Clean Feed, Culturgest, entre outros, a facilidade em trazer músicos de referência do free jazz nacional levou a que o respectivo ciclo ganhasse força, e tornasse a SMUP numa referência para esta corrente artística, recebendo desde pesos pesados do panorama nacional como Gabriel Ferrandini, Pedro Sousa, Carlos Bica, João Lencastre, a artistas internacionais como o trompetista Peter Evans. “O Cláudio queria precisamente marcar pela diferença neste ciclo, e fugir um pouco ao mainstream, ou, pelo menos, ter um equilíbrio entre o mainstream e a música mais experimental”, refere Diogo. Marta, por sua vez, destaca não só a longevidade do ciclo, e a existência de um público específico para este estilo de música, como o seu crescimento, sendo que, hoje em dia, a curadoria do ciclo é alargada a mais pessoas, com destaque para o crítico e ensaísta Rui Eduardo Paes.

Pedro Branco, guitarrista de 27 anos, foi um dos muitos músicos que foram passando pela SMUP nesse ciclo, tendo actuado em diversos formatos: em parceria com o contrabaixista João Hasselberg (Dancing our way to death), em duo com o baterista João Lencastre (Eel Slap), ou mesmo no seu primeiro concerto de sempre a solo, a convite de Cláudio. “Toquei sempre no sótão, e uma das primeiras coisas que me impressionou foi a acústica incrível do espaço”, acrescentando ainda que o ambiente acolhedor, e a abertura do público para a música improvisada contribuem igualmente para concordar que a SMUP conquistou, nos últimos anos, o seu espaço enquanto casa para a música improvisada feita em Portugal.

Sendo esse ciclo o mais duradouro e constante, a SMUP não fecha no entanto a porta a outras propostas, sendo muitas as bandas que por lá passam, seja para concertos ou para residências artísticas. “Na maior parte dos casos, mais do que um estilo específico, temos cá a tocar projectos de pessoas próximas à SMUP e que frequentam assiduamente o espaço, ou outros projectos aconselhados por bandas que se apresentaram anteriormente”, diz Diogo. Reis da República, Pás de Probleme, Royal Bermuda, entre muitos outros passaram por lá, sendo que a dinâmica criada acaba muitas das vezes por resultar num intercâmbio entre a SMUP e os diferentes projectos: “Tivemos a banda Zanibar Aliens a gravar aqui o seu último E.P. em formato de  residência artística, em troca de depois realizar um concerto”, exemplifica.

Independentemente do estilo, a empatia que é criada entre músicos e a casa tem também contribuído para a longevidade da programação, e para sustentabilidade de uma sociedade cuja actividade a quotização dos associados não chega para a sustentar. “Regra geral, nós vivemos da receita do bar e as bandas recebem bilheteira”, explica Diogo. Com entradas cobradas a preços acessíveis ao público, os três assumem que foi com surpresa que, já por algumas vezes, receberam propostas para actuações de nomes com maior peso no panorama nacional . “Uma das nossas maiores enchentes foi num concerto com o Tó Trips (Dead Combo), cuja proposta partiu da parte dele”, lembra, demonstrando o espaço que um tipo de concertos marcados de forma mais espontânea tem na programação da SMUP.

E se concertos desse calibre serão por certo uma atracção para pessoas de fora, a heterogeneidade do público da SMUP é notória, mesmo que tenhamos apenas em conta os residentes na Parede. “A esta hora, por exemplo, (início de tarde em dia de semana) os clientes são, regra geral, senhores na terceira idade que vêm para aqui jogar cartas”, exemplifica Marta. À noite, a clientela muda radicalmente: “reunimos muita malta mais alternativa da minha geração e da Marta, muitos de nós ex-alunos da Escola Secundária da Madorna”, refere Diogo. Regra geral, o espectro de idades é bastante alargado, incluindo até famílias inteiras que por lá passam, pelo que a porta está sempre aberta a todos, todos os dias da semana.

A juntar à programação de música, é importante também referir o carácter interdisciplinar de uma sociedade que inclui, por exemplo, aulas de Dança Contemporânea (com a coreógrafa Aldara Bizarro), uma escola (liderada pelo encenador Manuel Jerónimo) e a Companhia de Teatro, uma escola de música e também uma Banda Filarmónica (dirigida pelo maestro Sérgio Costa), sendo esta última um dos projectos mais antigos da SMUP. Sobre a situação actual, o contexto é delicado: “Em 2017, houve uma mudança de Maestro na banda, e nesse processo houve muita gente a sair”, explica Nuno. Nesse sentido, se, hoje em dia, se procura direccionar a escola de forma a fornecer músicos para a banda, Nuno assume também que isso muitas das vezes leva a  uma desmotivação de alguns alunos que, sendo mais novos, não estarão tão interessados num ensino mais tradicional e formal de música. Ainda assim, o mesmo acredita que tem havido uma evolução positiva da Banda Filarmónica nos últimos anos, pelo que os concertos que tem realizado em diversas ocasiões atestam essa mesma evolução.

Dada a diversidade de actividades que lá decorrem, e a quantidade de público que recebe, seja no âmbito das aulas, da programação de teatro ou música, ou apenas pelo apego emocional à casa, a afluência do público à SMUP tem levado a um crescimento por vezes demasiado rápido para os recursos de que dispõe, assumem os três. “Queremos crescer, mas queremos crescer de forma sustentável”, defende Nuno, lembrando ocasiões em que a sala onde a entrevista decorre reunia centenas de pessoas. Diogo, indo ao encontro dessa ideia, alerta para as limitações a nível de recursos no panorama actual: “Neste momento, em certas ocasiões, os recursos que temos, principalmente a nível do bar, são já escassos para o que é exigido”, defende.

No ano em que a SMUP celebra 120 anos, o ideal de crescimento é precisamente conseguir ir aumentando os recursos, melhorar as condições que são oferecidas a quem lá actua, e, consequentemente, conseguir melhorar gradualmente a qualidade da oferta. “Tudo isto, com um objectivo mais amplo, que é o de trazer mais gente e aumentar a massa associativa”, lembra Nuno. Tendo como exemplo o seu próprio caso, e o dos outros dois entrevistados, este dá o mote para as gerações mais novas: “estamos sempre abertos à participação de novas pessoas, queremos que haja mais gente a envolver-se com a sociedade, sejam cá da Parede ou de fora.”

Essa mistura de gerações e o envolvimento dos seus associados (desde logo patentes no trio que concede esta entrevista) funcionam deste modo como catalisadores da actividade da SMUP, e permitem que a já centenária associação continue o caminho que tem feito até agora ao longo dos seus 120 anos de existência.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

Texto de João Espadinha
Fotografia de Diana Coelho

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