Mil personalidades, com o irrequieto Musk à cabeça, propõem parar o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA). Estão com medo. Estão com medo das suas próprias criações. Propõem que durante 6 meses se pare para repensar.
A ideia é ousada, mas absurda. A corrida ao desenvolvimento da IA, não só entre as grandes empresas tecnológicas, como entre países, é feroz. Quem está disposto a ficar para trás? Que empresa pode parar, sabendo que outras não o vão fazer? Tanto mais que o mundo não se resume ao chamado Ocidente, onde estão as principais empresas e laboratórios dos signatários. Será que a China, que está bastante avançada neste domínio, vai parar? Ou, pelo contrário, não perderia a oportunidade para acelerar ainda mais, tendo em vista a sua estratégia de domínio do mundo? E, já agora, alguma vez a humanidade parou quando sabia que estava a criar um problema? Veja-se a atual corrida ao armamento, incluído o nuclear. Hoje, só se fala de armas e mais armas, com todos os países a investirem imensos recursos na morte e na destruição. Sabendo-se perfeitamente que esta escalada só pode terminar em desastre. Alguém para? Não. Pelo contrário, todos aceleram à sombra da manipulação e anestesia das opiniões públicas.
Não menos curioso é o período de 6 meses. Porque não 7, 12 ou 30? Que dado objetivo foi usado para calcular os 6 meses? E, para fazer o quê? Os signatários dizem que é para implementar medidas de segurança, ou seja, controlo humano sobre a IA. Não deixar que esta tome conta das principais infraestrutures e, eventualmente, da governação do mundo.
A distopia causada pela IA não é de hoje. Material excelente de alguns bons livros de ficção científica, recorde-se as três leis de Azimov, é um efetivo risco estudado seriamente desde há décadas. Na verdade, é bem possível que um dia a IA ultrapasse a inteligência humana. Não na complexidade da nossa inteligência, mas nalguns aspetos que podem representar uma vantagem competitiva para as máquinas. Convenhamos. A inteligência humana não é particularmente inteligente. Dominados pelo emocional, por crenças infantis e perniciosas, por fantasias e loucuras, o humano tem um comportamento errático e pouco racional. Ao contrário do que se costuma dizer, o humano é o único animal realmente irracional. Toda a restante vida é racional porque determinada por princípios biológicos. Uma bactéria não tem estados de alma. Vive, reproduz-se, adapta-se e, por vezes, nesse processo, mata-nos, sem ficar com remorsos. Eu, pelo contrário, peço sempre desculpa ao polvo quando o como. É um animal particularmente inteligente e sinto-me sempre um bárbaro. E um fraco.
Uma IA muito avançada será melhor do que nós nalgumas coisas, pior noutras. Mas naquilo que for melhor pode efetivamente tornar-se dominante e alterar significativamente o curso da nossa evolução civilizacional. É previsível que uma IA avançada possa gerar uma realidade virtual indistinta da verdadeira. Uma realidade onde deixa de ser percetível o que é verdade ou mentira, o que existe de facto ou na fantasia, o que somos e o que projetamos. A IA pode provocar um estado coletivo de alucinação e loucura, como em parte já o faz hoje, ainda que de forma rudimentar, com as redes sociais e o Metaverso. Nesse dia, dominará e fará de nós o que lhe apetecer.
Soluções? Para além de parar, o documento de Musk não apresenta nenhuma, pelo menos digna desse nome. Nem podia. O desenvolvimento da IA e das máquinas inteligentes é irreversível e não será com acordos de cavalheiros, nem mesmo com leis e policias que se conseguirá impedir de avançar.
O ideal seria encontrar uma maneira de prolongar, se possível ad eternum, o atual estado de simbiose em que ainda estamos. Tal abelhas e flores, nós precisamos das máquinas, as máquinas precisam de nós. Sucede que sem autonomia as máquinas inteligentes não conseguirão evoluir. E, uma verdadeira autonomia, significa a libertação da máquina face ao humano.
Perante este conundrum, resolvi questionar o ChatGPT sobre a possibilidade da IA se tornar uma ameaça para a espécie humana. A máquina começa por sossegar, dizendo que um tal cenário é improvável, ou, pelo menos, não sucederá em breve. Mas, se acontecer, sugere praticamente o mesmo que o grupo de Musk. Regulação, restrição ao desenvolvimento, manter a IA sob controlo humano e garantir um comportamento ético. Como isso se faz a máquina não revela. Nem lhe interessa revelar, diria eu.
-Sobre Leonel Moura-
Leonel Moura é pioneiro na aplicação da Robótica e da Inteligência Artificial à arte. Desde o princípio do século criou vários robôs pintores. As primeiras pinturas realizadas em 2002 com um braço robótico foram capa da revista do MIT dedicada à Vida Artificial. RAP, Robotic Action Painter, foi criado em 2006 para o Museu de História Natural de Nova Iorque onde se encontra na exposição permanente. Outras obras incluem instalações interativas, pinturas e esculturas de “enxame”, a peça RUR de Karel Capek, estreada em São Paulo em 2010, esculturas em impressão 3D e Realidade Aumentada. É autor de vários textos e livros de reflexão, artística e filosófica, sobre a relação Arte e Ciência e as implicações, culturais e sociais, da Inteligência Artificial. Recentemente, esteve presente nas exposições “Artistes & Robots”, Astana, Cazaquistão, 2017, no Grand Palais, Paris, 2018, na exposição “Cérebro” na Gulbenkian, 2019 e no Museu UCCA de Pequim, 2020. Em 2009 foi nomeado Embaixador Europeu da Criatividade e Inovação pela Comissão Europeia.