– Bom, pessoal, estamos cá todos, podemos começar?

/ Falta só o Benjamim, Sr. Ministro, foi à rua comprar cinema para mim e teatro para a Maria. Cheira-me que vamos estar aqui algum tempo e mais vale estarmos prevenidos. Não pedi nada para si, mas posso pedir.

– Diz-lhe para trazer um pouco de música. Pode ser clássica, de preferência.

: Eu ligo-lhe.

) Maria, já agora, pede-lhe umas artes visuais, se não te importares. Uma qualquer serve.

: Ok, claro! Alguém quer mais alguma coisa?

‘ Eu estou bem.

\ Eu também.

– Então vamos lá. Hoje recebemos a aprovação do Conselho para termos um gasto adicional de 1 milhão de euros em bolos. Sei que é insuficiente em relação ao que pretendíamos, mas, vá, para começar não é mau. Temos que agir rápido porque a situação não está famosa, como sabem. Ideias, gente, precisamos de ideias. Não saímos daqui enquanto não tivermos ideias concretas.

\ Eu não sei muito bem como, mas acho que devíamos apostar mais nos croissants. Desde o início deste problema que eles se têm destacado. Estão por todo o sítio, constantemente, a deixar as pessoas bem-dispostas e a permitirem que se esqueçam de todas estas angústias por alguns momentos.

) Acho bem investirmos em croissants, claro, mas, pessoalmente, dava mais atenção aos mil folhas. São bolos com muitas camadas, de diferentes complexidades, que estimulam a reflexão e a descoberta constante de novos paladares.

‘ Eu desde pequeno que sempre gostei mais de jesuítas, acho que foi influência do meu pai. E queques, desde que feitos com competência.

/ Também voto nos croissants. Eles têm sido mesmo incríveis nesta fase. Se nos concentrarmos neles, podemos, até, sublinhar a importância da pluralidade deste bolo, com tanta variedade como o doce de ovos, o chocolate, o misto, de amêndoas, com abacate, com…

‘ Com abacate? Nunca ouvi falar disso!

/ É uma nova tendência, surgiu agora. Começou a ter alguma força noutros países que já fazem croissants há algum tempo, mais disponíveis para inovar. Mas já há muitos bons croissants com abacate por aqui, pelo que sei.

– Bem, se ninguém tiver nada a opor, então parece-me que vamos investir tudo nos croissants, é isso?

) E os pastéis de nata? Eles são os clássicos. Se calhar devíamos começar por aí, até porque eles têm estatuto e…

‘ Benjamim!! Até que enfim, já vamos aqui bem avançados na conversa.

. Desculpem, andei a correr a cidade inteira e foi muito difícil encontrar artes visuais. Tentei muitas, desde contemporânea à arte urbana, mas parece estar tudo fechado. E dança, que era o que eu preferia, a mesma coisa. Não se encontra nada!

\ E o resto trouxeste?

. Sim, sim, claro, deixo aqui no centro da mesa.

– Vá, deixem lá isso e concentrem-se nos bolos. Foi boa observação a dos pastéis de nata, até porque são eles quem atrai mais gente. Mas acho que podemos dar preferência aos croissants clássicos. Assim matamos duas cajadadas com um coelho. E não temos ninguém à perna a chatear-nos.

/ Boa ideia. Completamente de acordo Sr. Ministro. Começamos pelos doces de ovos, de leite, de morango, de chocolate e depois passamos para os outros.

. Haa desculpem, só cheguei agora, porventura até já falaram disto, mas não devíamos dar voz aos pasteleiros?

) Lá vem o Benjamim com a mania que pensa fora da caixa. Agora o que importa é resolver isto rápido. Nós somos decisores e temos que decidir, não temos de andar a consultar ninguém, se não nunca mais.

: Eu, por acaso, concordo totalmente com o Benjamim.

\ Ehpá, já tínhamos isto quase fechado, vamos começar outra vez?

– Calma, pessoal, deixem lá o Benjamim explicar melhor a hipótese dos pasteleiros, até porque ele ainda nem sequer se pronunciou.

. Obrigado! Sei perfeitamente da nossa importância como gestores e orientadores e acredito mesmo que o nosso trabalho é fundamental. Só que nestas alturas de aperto, nestes momentos excepcionais, temos que ouvir quem cria bolos desde sempre. Isso não nos enfraquece, reforça-nos. Os pasteleiros estão todos os dias a pensar em bolos, desde que acordam até adormecerem. Eles sabem melhor que ninguém onde é importante investir agora, vão aconselhar-nos sobre quais os ingredientes mais necessários, que ajudantes de pasteleiros devemos apoiar também, quais os fornecedores de farinha ou de açúcar que são relevantes envolver e como é que podemos fazer chegar os bolos às casas das pessoas e as pessoas às casas dos bolos.

: E eu queria acrescentar que há muitos pasteleiros, cada vez mais, que não se dedicam a fazer um só bolo. Acima de tudo eles têm um amor à pastelaria e vão encontrando diferentes formas de se expressarem. Hoje podem fazer um rim, mas amanhã são capazes de se dedicar a um napoleão, um duchesse ou um bolo podre.

‘ Devo admitir que estes argumentos fazem sentido.

– Eu também estou sensível ao que dizem o Benjamim e a Maria. Parece-me razoável e, acima de tudo, consequente.

\ Sim, percebo, continuo achar que devíamos focar-nos nos croissants, mas, tudo bem, vamos embora.

) Ok…

/ De acordo.

– Perfeito, fica fechado. E agora, como é que pomos isto em prática?

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Começou a trabalhar aos 22 anos na Telecel e, pouco depois da mudança de marca para Vodafone, resolveu ir fazer estragos iguais para a PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca. Hoje é o Presidente da Direção do Gerador, a plataforma que leva a cultura portuguesa a todos.

Texto de Tiago Sigorelho
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