Perguntam-me muitas vezes se é sincera a minha crença na democratização do acesso à cultura. Gosto de responder com uma pequena-grande estória que se passou comigo por volta de 2010. À época exercia funções como formadora num Curso de Educação e Formação de Fotografia, que dava equivalência ao 9º ano, e que reunia um grupo de jovens adultos provenientes de bairros sociais do Porto, nomeadamente do Aleixo e da Pasteleira. Histórias de vida que me ensinaram a não mais questionar nada nem ninguém, simplesmente porque aprendi a colocar-me a questão: “E se eu tivesse nascido e crescido naquele contexto, como seria? Quais teriam sido as minhas oportunidades?” O projeto decorria nas instalações da Fundação Escultor José Rodrigues, ali no emblemático e altivo bairro da Fontinha, com o privilégio de o meu mestre-escultor nos receber todos os dias e garantir que o grupo usufruía ali de tudo aquilo que a Escola não tinha sido capaz de dar. O grupo, não o escondo, era desafiante e as (muitas) primeiras sessões eram negociações dilaceradas. Mas tratava-se de uma equipa formativa de excelência e que soube, além de transmitir conhecimentos, estabelecer laços e afetos e devolver vidas a uma sociedade diferente da do crime e da miséria humana.

A dada altura, dizendo que o grupo já estava no projeto há cerca de um ano, noutro âmbito, fui convidada pelo Millennium BCP a realizar um conjunto de visitas guiadas a uma exposição itinerante de pintura, que agregava 100 anos de História da Arte portuguesa, designada “Arte Partilhada Millennium BCP” e que estava patente na Fundação Dr. António Cupertino Miranda, no Porto. Ora, decidi então juntar o útil ao agradável e levar o meu peculiar grupo a visitar a exposição comigo. Nunca nenhum deles havia, sequer, entrado num museu ou galeria de arte. Nunca. Na proposta à turma perguntaram-me “Nós vamos a um museu?”, “Nós podemos ir a um museu?”, “Deixam-nos entrar num museu?”. Respondi: “Porque não?” Assim foi: fomos. Sobre o comportamento do grupo nada tenho a dizer. Apenas que foi exemplar desde o momento em que passaram o portão da instituição e não foi preciso pedir para retirar chapéus e deixar chicletes fora da boca. No interior da exposição, o deslumbramento e a emoção tomaram conta daquele grupo que se apresentava como uma espécie de tábua rasa à experiência cultural e artística, à contemplação do belo. Lembro-me de reações emocionadas a Júlio Pomar (1926-2018) e a Almada Negreiros (1893-1970), nas obras “Tigre” e “Família”, respetivamente. Mas, sobretudo, nunca mais me esquecerei de uma descrição de uma formanda a uma obra de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), de quem ela, obviamente, nunca tinha sequer ouvido falar. Senti que se inquietava e perguntei-lhe o que via naquela pintura e, a medo, descreveu-me que aquela obra lhe recordava a imagem difusa que via de casa (ela morava num apartamento em piso alto numa das torres do Aleixo) quando acordava e olhava a cidade. Disse-me que lhe pareciam telhados e que era muito bonito e que ia ter saudades se um dia tivesse que sair do seu bairro. Talvez tenha sido este um dos momentos mais impactantes do meu caminho como educadora e mediadora cultural. Naquele momento estava feita a prova: ninguém é indiferente à Arte e ao belo e o contacto quotidiano com os processos e produtos da criação artística são transformadores e restauram-nos. A minha formanda, que nada sabia de Vieira da Silva, interpretou e sentiu a sua obra como a interpretam e sentem a generalidade dos críticos e especialistas: as saudades de casa, simbolizadas pelos telhados da cidade que se mira do alto são a obra em que se reviu.

A Arte está ao acesso de todos se ajudarmos a ver e, sobretudo, se permitirmos ver democraticamente, sem termos como ponto de partida os muros, por vezes intransponíveis, dos museus. A demanda levanta, por isso, novos e determinantes desafios para a programação cultural que deverá ser estrategicamente equacionada, cada vez mais, de fora para dentro. Ou seja, do espaço público para o interior dos equipamentos, transformando os territórios, por um lado, e o espaço cibernético, por outro, em ambiciosos convites a todos na imersão das formas de apresentação transversais da Cultura. A Cultura educa, é criadora de coletivos com massa crítica e caracterizados por práticas sociais com altos índices de cidadania ativa. A Cultura, a Arte capitalizam os territórios e contribuem para a atratividade turística e para a diferenciação da oferta. Ainda, a Cultura e a Arte são construtoras de memória e é na ação cultural e artística de hoje que está a História do futuro. Há muito que a programação cultural saiu do espaço fechado dos equipamentos culturais e da esfera da experiência exclusivamente presencial e efémera. Urge dar aso a um exercício de resignificação dos processos de programação cultural, tornando-os mais democráticos e com condições de acesso iguais para todos. Urge pensar o espaço público, o digital e o editorial e assumir as suas inesgotáveis possibilidades para fazermos o caminho juntos e mudarmos o mundo, fazendo da Arte, da Cultura, o mote e o assunto.

-Sobre Helena Mendes Pereira-

Helena Mendes Pereira (n.1985) é curadora e investigadora em práticas artísticas e culturais contemporâneas. Amiúde, aventura-se pela dramaturgia e colabora, como produtora, em projetos ligados à música e ao teatro, onde tem muitas das suas raízes profissionais. É licenciada em História da Arte (FLUP); frequentou a especialização em Museologia (FLUP), a pós-graduação em Gestão das Artes (UCP); é mestre em Comunicação, Arte e Cultura (ICS-UMinho) e Doutora em Ciências da Comunicação (ICS-UMinho), com uma tese sobre a Curadoria enquanto processo de comunicação da Arte Contemporânea. Atualmente, é diretora geral e curadora da zet gallery (Braga) e integra a equipa da Fundação Bienal de Arte de Cerveira como curadora, tendo sido com esta entidade que iniciou o seu percurso profissional no verão de 2007. No âmbito da educação e mediação cultural orienta, regularmente, visitas a exposições e museus de Arte Contemporânea, tendo já lecionado o tema em várias instituições de ensino. Integra, desde o ano letivo de 2018/2019 o corpo docente da Universidade do Minho como assistente convidada. É formadora sénior e consultora nas áreas da gestão e programação cultural. Publica regularmente em jornais e revistas da especialidade, tais como o quinzenário As Artes entre as Letras, nas revistas RUA e MINHA. Com mais de 13 anos de experiência profissional é autora de mais de 80 projetos de curadoria, tendo já trabalhado com mais de 200 artistas, nacionais e internacionais, onde se incluem nomes como Paula Rego (n.1935), Cruzeiro Seixas (n.1920), José Rodrigues (1936-2016), Jaime Isidoro (1924-2009), Pedro Tudela (n.1962), Miguel d'Alte (1954-2007), Silvestre Pestana (n.1949), Jaime Silva (n.1947), Vhils (n.1987), Joana Vasconcelos (n.1971), Helena Almeida (1934-2018), João Louro (n.1963), entre tantos outros. Tem larga experiência em estudos de coleções, produzido e publicado extenso trabalho crítico sobre arte e artistas contemporâneos, onde se incluem catálogos e outros resultados de investigações mais profundas sobre artistas e contextos de curadoria. É membro fundador da Astronauta, associação cultural com sede e Guimarães. Tem publicados dois livros de prosa poética: "Pequenos Delitos do Coração" e "apenas literatura e não outra coisa qualquer"

Texto de Helena Mendes Pereira
Fotografia de Lauren Maganete
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