Aproximam-se as festas mais esperadas de todo o ano, aquelas que juntam amigos e famílias - algumas vêm de muito longe para passar apenas uns dias. Toda esta grande mudança no ritmo quotidiano, que obriga a planos, bagagem, cuidados, recados, transportes e viagens, influencia sobremaneira o nosso bem-estar. E ao desculparmo-nos com a alegria do reencontro e da ternura do abraço, muitas vezes menosprezamos sinais claros que nos mostram precisar ter algum cuidado.
Por exemplo, sabemos que vamos dormir menos do que o normal. E uma noite descansada, além de reparadora do físico, também é muito importante para a nossa saúde psicológica.
Por isso mesmo, este é o mês em que precisamos redobrar os cuidados ao nível pessoal e familiar. E nada melhor que alguns factos para nos alertar.
Dormir pouco faz aumentar a necessidade de comer açúcar, e portanto, quem dormiu menos vai “atacar” bolos, gelados, sobremesas, chocolates como prémio para a descompensação. Numa altura de festas, muita comida e bebida, esta não é uma boa combinação.
Existem outros dados até curiosos, ao nível dos comportamentos: vários estudos revelam que as pessoas passam a mentir mais, a roubar ou a enganar o próximo. Pode não ser de propósito, mas acontece.
Como acontece também esquecerem-se das coisas quase na exacta proporção das que estão a aprender: cerca de 40%. Entra aqui o muito badalado défice de atenção.
Sabe-se também que durante a lua cheia dormimos menos 20 minutos e perdemos 30% do sono profundo (este Natal e passagem de ano estaremos em quarto crescente).
Dizem estatísticas que nas estradas há cerca de 17% mais acidentes de viação devido à deficiência de sono.
A pele seca numa só noite de pouco ou nenhum sono, provoca linhas de rosto e rugas mais vincadas. Este sono insuficiente incrementa a vontade de comer, logo, é o caminho directo para um aumento progressivo de peso.
Ainda associado à falta de sono, temos o aumento de pressão arterial, do colesterol e a diabetes.
O sono é o infatigável amigo que nos limpa, todas as noites, as toxinas do cérebro. Precisamos muito dessas horas reparadoras. Uma dica para que isso aconteça? Encontrar a temperatura ideal do quarto (a maioria das pessoas sente-se confortável entre os 18º e os 22º), não ingir bebidas alcoólicas à noite ou bebidas consideradas excitantes que contenham cafeína ou teína, e evitar fartas refeições horas antes de deitar. Praticamente impossível fazer isto nesta altura do ano, mas prestar atenção ajuda de certeza a que não seja tão mau.
O distúrbio do sono é um ciclo vicioso que pode levar à depressão crónica e à ansiedade.
O chamado período REM (Rapid Eye Movement) ocorre ao longo da noite e durante os ciclos do sono profundo. É também nesta fase que sonhamos. Por norma, uma pessoa pode ter por noite seis períodos de sono REM, separados por uma hora ou menos. É durante o REM que algumas das nossas memórias e questões emocionais são processadas e resolvidas. Para o estudioso de sono Rick Wassin, a fase REM é aquela que mais contribui para resolver e regular emoções.
Ora, se existem distúrbios durante estes períodos críticos, isso leva a que várias memórias emocionais não sejam processadas nem resolvidas.
Outra pesquisa feita com um grupo de pessoas na Holanda, revelou que indivíduos com estes distúrbios (durante o REM), tinham mais conflitos durante o dia, tornavam-se mais agressivos e com maior tendência para procurar zaragatas e que também sofriam de um aumento de ansiedade.
Fechamos assim o ciclo vicioso: maior ansiedade durante o dia, maior dificuldade em dormir à noite.
Um adulto deve dormir 7/8 horas por dia. Mas desengane-se aquele que julga que, por dormir muito (para cima de 9 horas) está a salvo deste tipo de perturbações. O oversleep ou hypersomnia traz também alguns problemas semelhantes – ainda que não tão graves – e mesmo que não seja devido a depressão, cansaço ou gripe.
Resumindo: dormir é uma forma saudável de processar e resolver problemas, mesmo que estejamos junto de quem mais gostamos, na quadra mais festiva, mas com bastante stress em cima que começa na escolha dos presentes até ao regresso a casa após a passagem de ano.
Portanto fica a sugestão: durma sobre o assunto! E boas festas!
*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico
-Sobre Ana Pinto Coelho-
É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora. Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.