Olho para todas as minhas tatuagens na tentativa de me reconhecer. Cada uma delas parece ter surgido de uma pessoa diferente. Não me encontrar no meu corpo faz-me sentir pouco empoderada e estaria a mentir se não confessasse que isso me faz comichão.
As ocasiões, eventos, amores, amizades, ansiedades, depressões e todos os outros tropeços da vida fazem de nós uma versão adaptada - alterada. Nem sempre me reconheço. De momento não me reconheço. Escrevo prosa e poesia em mês de cravos e de vermelho, em mês de lágrimas bonitas e de Grândolas da vida - mas não me reconheço. Estou longe do meu país - se é que existe coisa como meu país - na Índia, a sentir que o meu corpo presente no dia da liberdade iria fazer a diferença. Não por ser o meu corpo, mas por todos os corpos que gritam pela liberdade fazerem falta.
Simultaneamente tento me livrar da culpa. O activismo traz muita culpa associada. Não estar presente é um peso. Olho para o meu corpo, para dentro de mim: quem amo, quem sou, o que quero - e não me reconheço. Esta coisa da identidade, da orientação, da responsabilidade, da mentalidade e da saúde emocional ocupam a minha agenda. Aquela agenda que não é política, a agenda que nem sequer é do ano corrente. A agenda que guardamos na última gaveta, no meio das papeladas, e que mesmo sem a vermos, sentimos o peso.
Estou longe, no dia da revolução, estou longe enquanto mulher, filha, neta, irmã, namorada, queer e não-monogâmica. Estou longe e nem me sei mulher, nem me sei filha, neta, irmã, namorada, queer e não-monogâmica.
Que falta faço no meio dos corpos que caminham certos? Diz a culpa.
Foi a revolução e é a liberdade a razão para olhar para cada tatuagem minha e me encontrar e desencontrar. Foi a revolução e é a liberdade a razão para que me possa questionar sobre a minha identidade - não saber quem sou e existir possibilidade de explorar(me) é revolucionário. Existir, neste corpo em interrogação, é saber que escrevo prosa e poesia para tantos corpos que não se conhecem, mas que têm liberdade de procurar respostas - ou pelo menos poder fazer as perguntas.
-Sobre Marta Guerreiro-
Marta Guerreiro é formada em Jornalismo com mestrado em Realização. Conta com três livros publicados e vários trabalhos escritos na área do activismo (com foco em saúde mental, feminismo, não-monogamias e questões lgbtq+), assim como com a criação de uma lista de psicólogues lgbtq friendly disponível online.
Acredita que a revolução também se faz através da escrita e que a poesia e a empatia são protagonistas na mudança e na igualdade.
Atualmente está emigrada em Londres onde, além de continuar a escrever, trabalha também com propriedade intelectual e proteção de marcas.