Amanda é negra, tem 45 anos e uma filha. Chegou a Portugal, vinda do Brasil, há oito meses, com uma licença sem vencimento para fazer um doutoramento. No seu país de origem é alta funcionária de um governo estadual, graças às políticas de ação afirmativa.
No Brasil, na “bolha” onde se move, tinha-se sentido relativamente protegida do racismo por ser um quadro superior, com algum poder e autoridade, sendo esse o seu estatuto principal – lá é reconhecida pela sua elevada escolaridade e rendimento acima da média. Contudo, em Portugal, o “estatuto principal” altera-se: ela é uma negra, em primeiro lugar e, em seguida, uma estudante.
No metropolitano ouve conversas discriminatórias, algo veladas, mas audíveis, geralmente associadas a um pendor machista e sexualizante. Ao tentar arranjar uma casa deparou-se com inúmeras dificuldades – por ser brasileira e negra. Acabou, depois de várias tentativas logradas para arrendar um apartamento, por conseguir um singelo quarto. Mas teve de pagar oito meses adiantados. A senhoria avisou-a, peremptória, no primeiro dia:
“- Nem pense que vai tomar vários banhos por dia como as brasileiras fazem. Só pode tomar um!”.
A mesma senhoria tratou de fechar os vários armários da casa à sua frente. Um dia mais tarde “plantou” dinheiro em alguns cantos, para atiçar uma pretensa disposição de Amanda para o roubo. Volta e meia mostra uma inusitada curiosidade pelo guarda-roupa da inquilina, pois “as brasileiras vestem todas roupas vistosas”.
Na Universidade tem-se deparado com professores com pouca paciência para a deixarem falar das suas experiências, enchendo-a de matéria com pouco significado para si.
Em poucos meses Amanda percebeu na pele o que é “ser traduzida” em contexto de dominação: não a deixam falar, “falam” por ela, colando-lhe etiquetas e estigmas, dissolvem-na numa homogeneidade (“as negras brasileiras”) onde a sua singularidade e o seu corpo perdem autonomia.
A certa altura, diz Amanda, “já não sei quem sou e se esta frase que digo é mesmo minha”. Por outro lado, acrescenta, “nem tudo é mau. Sei que sou negra e brasileira e antes disso tinha pouca consciência desta dupla condição”.
Chorou de alegria pela derrota de Bolsonaro e foi para a rua deserta e fria cantar.
-Sobre João Teixeira Lopes-
Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997). É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto, Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a 29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.