Meu pai sempre me achou muito estranha, criticava o fato de eu sempre estar rodeada de gays, lésbicas, trans e travestis desde de muito jovem. Ele reclamava com minha mãe:
"Olha essa menina, vive com essa gente, vão achar que ela não tem família, que é largada”. E minha mãe, vanguardista como sempre respondia: “Deixa a menina, e deixa de ser preconceituoso!”
Com o tempo, sua opinião foi mudando, meus amigues frequentavam minha casa e com a convivência ele percebeu que se tratava de pessoas incríveis, que me amavam, cuidavam de mim, e eram pessoas sensacionais, alegres, vivazes e no final, quando perdi muitos de meus amigos pelo caminho da vida, meu pai se compadecia, comparecia em seus funerais e se entristecia. Ele passou a gostar deles e os recebe hoje muito bem, manda abraços, os trata com muito carinho. Meus amigos adoram meu pai, que conquista!
A comunidade LGBTQIA+ é realmente contagiante, impressionante a capacidade que eles têm de arrebatar o coração de todos que estão emocionalmente disponíveis, até das pessoas que muitas vezes por falta de conhecimento ou estigma social compram o discurso conservador sem crítica. Pessoas são pessoas, e se preservam a própria humanidade no sentido mais puro, irão com certeza concluir a potência que é a relação de amizade independente da forma escolhida de se expressar no mundo.
Essa alegria me arrebatou desde muito cedo, e claro que faz todo o sentido me auto declarar uma profissional da Diversidade, é um grupo muito familiar para mim, presenciei desafios diários, violências direcionadas a eles e a toda hipocrisia social na hora de discutir essas pautas, claro, do lugar de uma mulher cisgênero e com todas as limitações inerentes deste lugar.
Entre muitas alegrias também presenciei muita dor, primeiro perdi amigues amados para a depressão, para a dor da rejeição, pela negligência da família de origem e para as violências sociais. Depois, em minha prática clínica não houve diferença, a lógica segue a mesma, o tempo passou e as problemáticas não mudaram muito. Em minha prática clínica, diariamente percebo a diferença que pode fazer um acompanhamento psicológico na vivência de uma pessoa LGBTQIA+, especialmente em casos de crises de depressão, de ideações suicidas e transtornos psicológicos desencadeados por experiências traumáticas.
Decerto é impossível negar o fato que nem todas essas pessoas acessam aos serviços de saúde mental, e são muitos fatores a serem considerados: marginalização, exclusão social, imigração e barreira da língua aos que estão radicados em outros países, falta de acesso, precarização da vida e primordialmente o não considerar o espaço psicológico como um investimento pessoal ou lugar de cura. Tenho percebido inclusive um massivo número de pessoas que passam pelo processo de transição de gênero sem um acompanhamento psicológico, o que em minha opinião é um enorme perigo visto a complexidade deste processo.
Falamos pouco sobre o adoecimento psíquico na comunidade LGBTQIA+, aliamos sempre esse público à alegria constante, à extravagância, à promiscuidade e nunca a tristeza, a dor e a fragilidade. Se considerarmos as interseções constatamos vivências muito sofridas e com muitos desafios. Em Portugal há poucos estudos mas existe um consenso nos serviços de saúde em reconhecer que esse público está propenso inclusive a procurar os canais de de Prevenção ao Suicídio. Alguns estudos internacionais revelam que 60% das pessoas transgêneros estão propensas ao sofrimento psíquico, especialmente a depressão. No Brasil, pesquisas revelam que 55% das pessoas da comunidade LGBTQIA+ obtiveram uma piora em termos de saúde mental, e os números só pioram pelo mundo.
Nesse sentido, não se pode pensar na pauta da comunidade LGBTQI+ sem considerar um investimento na conscientização da importância da saúde mental e nas diferentes formas que as pessoas são acometidas. As matizes das cores do arco íris escondem zonas cinzentas no que tange o sofrimento psíquico, um lado doloroso na medida que negligenciamos essa importante carência. De qualquer forma, a psicoeducação é um instrumento poderoso na conscientização de que o adoecimento psíquico mata tanto quanto as violências contra esses corpos.
Como profissional da saúde, comprometida com a Diversidade, tenho ainda a mesma preocupação que tinha em minha juventude, o de olhar para além da forma, da alegria vivaz que esconde histórias de dor e desafios.
- Sobre a Shenia Karlsson -
Preta, brasileira do Rio de Janeiro, imigrante, mãe do Zack, psicóloga clínica especialista em Diversidade, Pós Graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio, Mestranda em Estudos Africanos no ISCSP, Diretora do Departamento de Sororidade e Entreajuda no Instituto da Mulher Negra de Portugal, Co fundadora do Papo Preta: Saúde Mental da Mulher Negra, Terapeuta de casais e famílias, Palestrante, Consultora de projetos em Diversidade e Inclusão para empresas, instituições, mentoria de jovens e projetos acadêmicos, fornece aconselhamento para casais e famílias inter racias e famílias brancas que adotam crianças negras.