Há alguns meses, fui desafiada a conhecer o projeto Tamanho TU. Citando as palavras que o descrevem é “um projeto que visa sensibilizar para a problemática da objetificação do corpo feminino e dos padrões irreais de beleza a que é sujeito”.
No fundo, trata-se de um movimento online que pretende promover identidades corporais positivas e imbuídas da inevitável aceitação corporal. Ousa combater o conceito de “ideal”. Cada corpo e pessoa são, tão simplesmente, únicos. Além de alertar para a diversidade e autenticidade, enfatiza também características e partes do corpo consideradas socialmente como pouco apelativas ou, até, indesejáveis.
Esta ideia brilhante foi da Liliana Monteiro, fundadora do Tamanho TU. Partiu do simples e mordaz princípio que “Se tu tens um corpo e um biquíni, tens um corpo preparado para o verão” (JPN, 2022).
De facto, acredito que para muitas pessoas, o verão não seja um problema. Mas para muitas outras poderá sê-lo assumindo dimensões tão complexas que levam, tão simplesmente, a que se ache que não se tem um corpo de verão. E sejamos francos: esta realidade afeta, em grandes proporções, as mulheres. De todas as idades e com as mais diversas características.
Na sociedade portuguesa – como em tantas outras – o corpo feminino é alvo de leituras punitivas e prescritivas. Opressivas e com uma forte espada de regulação social. O que quer isto, exatamente, dizer? Da mulher – e do seu corpo – espera-se muito: magreza (até um certo ponto, nada de exageros!); umas certas linhas curvilíneas atrativas (seja lá o que isto for!); a ausência quase total e absoluta de gordura (é para o bem da nossa saúde, dizem-nos tantas vezes); a ausência de celulite e cicatrizes... Uma imagem mamária considerada apelativa (e continuo a dizer, seja lá o que isso for!). A permanente depilação e pele extremamente bem cuidada, como pré-requisito para o bem-estar (alheio?).
Não menos relevante, um corpo ágil, agradável, normativo. Pensemos: corpos não normativos – entenda-se como tortos, disformes, menos ágeis, flácidos e com incapacidades – serão dotados de feminilidade e sensualidade? E corpos não normativos pela sua expressão de género, por exemplo? Onde caberá a sua aceitação plena?
Já é tempo de questionar e combater estas leituras que nos regulam e oprimem todos os dias. Que dizem o que deve ser e como. Somos, apenas e só, corpos diversos, únicos e a transbordar de beleza!
Conheçam este projeto no Instagram: @tamanho_tu ou em matérias jornalísticas já publicadas.
-Sobre a Ana Catarina Correia-
Licenciada e mestre em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto com interesse particular na problemática da deficiência. Foi doutoranda na mesma escola e área disciplinar, num projeto de investigação que versa sobre as políticas para a deficiência em Portugal e na Europa e que dá enfoque à filosofia da Vida Independente e que ainda não foi finalizado.
Atualmente, é técnica no Centro de Apoio à Vida Independente Norte da Associação Centro de Vida Independente. Na mesma organização é dirigente e coordena a delegação do Porto. Colabora, ainda, com outras organizações representativas de pessoas com deficiência. É ainda atleta federada de Boccia pelo Sporting Clube de Espinho e membro da seleção nacional da modalidade desde 2016.
Grande motivação na vida: a crença de que a construção de sociedades justas e inclusivas depende de cada um de nós e que esse será um dos grandes sinais de desenvolvimento humano. E qual é uma das grandes bases para este desenvolvimento? A educação e uma consciência global de Direitos Humanos.