“Quando riem os velhotes, libertam o mundo.
Maya Angelou (tradução livre)
(...) e generosamente perdoam a vida por lhes
ter acontecido.”
Antes da sua chegada, estava eu convicta que nada e ninguém conseguiria meter-se entre nós. Nem Guerra. Prisão. Nem Imigração. Nem sequer um “longe dos olhos, longe do coração.” Estando ou não juntes num aqui e agora, nenhuma coisa conseguia suspender a nossa intimidade. Os nossos encontros ultrapassavam qualquer labirinto, até mesmo aqueles de uma pandemia, acabando sempre por acontecer sem intromissão. Tinha mesmo a ilusão de que nada e ninguém seria, alguma vez, capaz de invadir aquele espaço que chamamos de nossa primeira família.
Até a uma doença.
Não tem outro nome. Não merece um tecer de palavras para a explicar. Dói escrevê-la, pronunciá-la ou saber que existe perto de nós. Apareceu de repente. Partiu a nossa janela com os seus arremessos de invasão. E lá no pequeno espaço, quase inexistente, entre uma pele colada à outra, enfiou-se. Empurrou-se no meio dos nossos abraços, como se nada fosse. Esmagou o nosso sorriso, envenenou com dúvidas o nosso sempre e sobretudo interrompeu, por um momento, uma gargalhada a seis – muito nossa.
No momento do embate da primeira notícia falhei em fingir uma voz normal. Com uma piada forçada que não tinha piada tentei disfarçar o nó na garganta e distrair a minha própria dor. Não foi possível. Do outro lado veio um outro fingimento, um que me diz que não viu essa dor, respondendo com outra piada. Essa, sim, tinha piada. Rimos. Foi a minha primeira gargalhada, ainda muito tímida.
A minha segunda, já saiu desavergonhada. No quarto de um hospital, recebeu-me da mesma forma que fazia quando ia ao seu escritório. Desta vez interrompeu o sono, invés da escrita. Falámos daquilo que falamos: do que estou a ler – por acaso o seu último livro –, dos labirintos da escrita, das mil e uma noites, da literatura erótica feminista… e não sei como nem porquê, de repente invadiram-nos as gargalhadas, fora da hora da visita, apagando por alguns minutos a angústia dos meus últimos dias.
O caminho fez-se para reaprender a rir. Interromper a dor. Sem pedir licença. Forçar. Falhar. Sem desistir. Fingir. Empurrar. Mais um bocadinho. Ainda mais. Mais. Até que aconteça: um riso. Uma gargalhada, apesar da doença que bateu à porta da nossa família. Aliás, uma gargalhada contra a doença que invadiu os corpos de quem nos criou.
Rir tornou-se a regra. Deixamos as lágrimas de fora e, lá próximo do lugar da angústia, só trazemos beijos e muitas gargalhadas cuspidas na cara da doença. Mostramos-lhe as garras e nadamos num mar de risadas, fazendo delas a nossa arma mais poderosa e o nosso abrigo de afetos.
Tudo, de repente, se tornou motivo para largar piadas, nem sempre muito boas: a senha número 69 que tiramos para a consulta (tinha de nos calhar!), o “bêbado de serviço” no hospital, a picada da melga que parece de uma biópsia, as frases portuguesas ditas por uma voz árabe e vice-versa, a doença dos dois que fez questão de aparecer ao mesmo tempo, as nossas falhas, o esquecimento, mas sobretudo as memórias.
De um pai, de uma mãe, de uma filha, de um filho e de mais duas pessoas que parece se terem juntado à uma família desvairada, mas que são tão parecidas connosco que não hesitaram em arregaçar as bocas e agarrar connosco a pá das gargalhadas e tudo o que for necessário. Como nós, sabem que à volta de uma piada nada nem ninguém nos separa. Como se as nossas gargalhadas fizessem um muro seguro à nossa volta, onde nem sequer a manhosa da doença se consegue infiltrar. Por breves segundos trocamos os papeis, tornamo-nos nós no elo mais forte, enquanto a doença vira a cara para não ouvir os nossos ha ha ha ha ha ha. Um riso contra a vida, perdoando toda a crueldade que nos oferece. Um riso feito resistência. Um riso que é liberdade.
E rimos mais. Com a esperança que haja sempre gargalhadas suficientes em nós, que misturadas com amor são capazes de invadir os corpos dos nossos entes queridos injetando-os com a força mais poderosa de qualquer doença.
Calamos o grito, sacudimos o desespero e polimos as caras como se nunca tivessem chorado. Fingimos uma, forçamos outra até que os risos começam a sair do fundo do coração e por uns breves momentos espantamos a doença, que desaparece da nossa vida durante o tempo inteiro de uma gargalhada.
Sinto a angústia na palma da minha mão. A inevitabilidade da velhice. O vazio de meu peito. A acidez das minhas lágrimas. A culpa dos “deveria”. A fragilidade dos meus passos. O eco do meu grito silencioso. A futilidade da minha esperança. A invasão de uma memória a esvaziar-se. Sinto a dor da doença. E começo a rir, a rir, a rir.
- Sobre Shahd Wadi -
Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010). Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua.