Uma ponto e um projeccionista entram num café e dizem… poderia ser o início de uma anedota mas não é. É, antes, um encontro com duas pessoas que acham que aquilo que fazem já está a desaparecer, e antes que isso aconteça temos todos de os ouvir. Somos uma maioria aqueles que acham que nas artes entram todos os que aparecem e também aqueles, que na sombra, por detrás das cortinas e das paredes fazem com que a arte possa ser apreciada por todos. Nas galerias, nos teatros, nos cinemas e até nas lojas com estantes de livros existem pessoas que raramente vemos mas que sem elas nada daquilo existiria.

Vi a Cristina Vidal há muitos anos, algures nos corredores do Nacional (Teatro Nacional D. Maria II). Eu era aluno do segundo ano do Conservas (Escola Superior de Teatro e Cinema) e aquela figura intrigava-me. Era director o Carlos Avilez, ou, como a Cristina lhe chama, o senhor Avilez, e a Cristina sempre vestida de negro cruzava-se connosco como um fantasma se costuma cruzar com os que não são fantasmas, de expressão neutra e em silêncio apenas entrecortado por um bom dia sem qualquer entoação. Como assim o Nacional tem ponto? Mas isso já não acabou? Os antigos não conseguiam decorar o texto?! Éramos assim. Miúdos que achavam que iam mudar o mundo. Agora, depois de ver o Sopro, espectáculo de Tiago Rodrigues que esgotou salas em Avignon, Lisboa e Viseu, em que a Cristina é a protagonista (sim, uma ponto é protagonista de um espectáculo de teatro), tudo mudou. A Cristina já não é um fantasma, a Cristina é uma das almas do teatro. O Maximino Santos apareceu-me numa pesquisa sobre profissões com destino contado. A Cinemateca é também o museu do cinema e ele, ali, é um guardião de todos os tipos possíveis e imaginários de projecção de imagem. A paciência que ele teve em explicar-nos tudo aquilo mostra que a cabine de projecção da cinemateca portuguesa está em boas mãos. Já para não falar de que ele foi projeccionista no cinema da Brandoa e da Portela, o que marcou de certeza a infância de dois dos fundadores do Gerador.

Cristina, o que achas que faz um projeccionista de cinema? 

“Não faço a menor ideia… projecta filmes, sim, mas de resto não faço a mais pequena ideia do que faz, além de projectar filmes… mas faz mais coisas, com certeza. Eu já não vou ao cinema há mais de quarenta anos!” Porquê? “Porque não me apetece. Dá-me sono”. É isso, Maximino? “Um projeccionista aqui faz muita coisa, não é só projectar os filmes. Os filmes chegam de toda a parte do mundo e têm de ser preparados, diz-se na gíria, montados. Eles vêm em rolos dentro de umas caixas e nós temos de os preparar, tirar da caixa, meter em bobines. A regra é passar duas máquinas rolo a rolo, fazemos a sequência do filme com duas máquinas, a excepção é montar em bobines grandes. Depois projectamos todos os suportes que há para projectar hoje em dia”. Digital também? “Sim, todos. Há os chamados DCP (Digital Cinema Package) que é o formato que se exibe nos cinemas comerciais, a parte analógica foi exterminada das máquinas de 35 milímetros e implementaram essa coisa. Aquilo vem num disco rígido, ou até numa pen e é descarregado para um servidor próprio e a partir daí é projectado. Mas é tudo diferente na projecção; enquanto uma máquina analógica tem carretos, tem correias, tem mecânica, nestes casos são mais electrónicas do que mecânicas, o DCP é um formato de fotografia JPEG 2000”. Mas é menos perigoso que o tempo da película de nitrato de prata? “Sim, mas isso já não se usa há muito tempo. A Cinemateca não exibe nada disso, tem os cofres próprios para manter isso. É um bunker com controlo de humidade e temperatura, chama-se Anime e é em Bucelas”. Mas chegou a projectar com essa película? “Sim, mas clandestinamente. Aquilo é uma coisa altamente inflamável. Lembram-se daquela coisa que se comprava na drogaria que se roçava na parede e dava estalinhos? Aquilo era altamente inflamável, bastava roçar num bocadinho de metal e incendiava logo. Há imensos cinemas que arderam por causa disso”. Mas ser projeccionista já não é uma profissão perigosa? “Não. Hoje é tranquilo. Já até inventaram um suporte de poliéster que mesmo agarrando num isqueiro e colocando na fita ela não arde, só encarquilha e parte mas não arde”.

Então e o que é que o Maximino acha que faz um ponto de teatro?

“Não percebo muito dessas coisas, mas pela noção vaga que tenho, o ponto é aquela pessoa que está ali num determinado sítio a dirigir, mais ou menos, os actores, não é isso? O que vejo no cinema é que ele está lá metido num buraco e vai orientando as pessoas para entrar. Eu acho que é assim”. É isso, Cristina? “Não. Não é bem isso, o buraco já não existe. Existiu a caixa do ponto e eu trabalhei muitos anos na caixa do ponto, mas agora já não há teatros com a caixa do ponto. Agora os pontos ficam de lado e não orientam os actores. Dizem-lhes o texto se eles se esquecerem. Se nós nos apercebermos que um actor está atrapalhado com o texto ou com o sítio para onde há-de ir, nós ajudamos”. Mas também podes dar indicações? “Posso, mas não é essa a função do ponto. Eu estou essencialmente nos ensaios, posso não estar nos espectáculos. Hoje em dia é moda não estarmos nos espectáculos. Porque nós fazemos mais falta nos ensaios para ajudar os actores a decorarem o texto e as marcações e as indicações do encenador. Depois, há poucos pontos, aliás em Portugal só existem dois. Eu e o meu colega do Nacional, João Coelho. Como fazemos mais falta nos ensaios, assim que a peça estreia transitamos para os ensaios de outra peça. Portanto é a questão de sermos poucos, caso contrário seguiríamos o espectáculo até ao fim. Embora haja espectáculos em que seguimos até ao fim, mas não todos”. E os auriculares? “Já trabalhei com isso várias vezes, longe do palco para não interferir ao nível do som. No Nacional montam-me uma espécie de casinha e lá fico eu a falar ao microfone”. Mas sem microfone, como é que consegues dizer texto para dentro do palco, para o actor ouvir e o público não? “Tem que se ter um volume de voz, que é aquilo que nós chamamos gritar em surdina. Falar muito baixo mas atirando muito bem as palavras. Tentando escolher palavras que sejam o mais abertas possível para que o actor as consiga apanhar. Se mesmo assim não conseguir, é andar mais para a frente do texto até ele apanhar… se não, grita-se mesmo até se ouvir no terceiro balcão, pronto. Tenho de salvar a situação como ela é”.

O Maximino nunca entrou num filme?

“Não. Já me convidaram mas não. Acho que não tenho jeito para essas coisas mas alguns dizem que sim. Talvez fazer um pequeno papel, sei lá, porque não? Aí, talvez, mas eu também já não tenho muita memória para fixar os textos… só se fosse com a Cristina a ajudar”. E era este o seu sonho de criança, ser projeccionista? “Não, isso é uma história muito comprida. O que é que se fazia antigamente? Ia-se para o cinema, para a revista, coisas que infelizmente acabaram ou estão em vias de extinção. E eu, pequenino, ia para lá vender rebuçados, com um tabuleiro preso por uma corda ao pescoço no cinema da Brandoa, tipo um pavilhão de chapa, ali perto da Amadora. Tinha para aí os meus nove anos, ia vender rebuçados e depois era obrigado a sair porque não tinha idade para lá estar. Aquilo tinha uma plateia e uma espécie de balcão feito em madeira, eu saía, contornava o pavilhão e entrava por uma porta escondida e ficava a ver os filmes dali. Então foi assim, via ali os filmes e olhava para trás e via aquela luz, a imagem a ser projectada. Não foi imediatamente mas aos poucos comecei a ir lá ajudar o homem, a vir buscar os filmes a Lisboa, a rebobinar, a meter a fita na máquina e depois foi assim o processo. Já ando nisto há cinquenta e tal anos…”. E como chegou aqui à Cinemateca? “Eu antes de vir para aqui estive num cinema vinte anos, na Portela de Sacavém. No centro comercial da Portela, que naquela época era o maior do país quando eu fui para lá em 1980. Já tinha máquinas com pratos, automáticas… daquelas coisas que contribuíram para o desemprego das pessoas… eu fui sempre contra aquilo. Porque numa máquina dessas punha-se-lhe um filme com três ou quatro horas e só acabava no fim, não precisava de ninguém lá. E se só era preciso lá estar um, porque haveriam de lá estar três? As automáticas meteram muita gente no desemprego e esta coisa dos DCP ainda é pior. Isto foi preparado para o filme ser descarregado directamente pela internet para o servidor do cinema, mas ainda demora muitas horas, por enquanto”.

E tu, Cristina, como é que te convenceram a passar dos bastidores para o palco e seres protagonista no espectáculo Sopro?

“É difícil dizer que não ao Tiago Rodrigues. Ele disse as coisas de uma maneira tão simples e tão coerente. Não sei. Caí na esparrela, pronto. Ele pensou em fazer um espectáculo sobre os pontos, já há muito tempo, mas devido a cortes orçamentais foi sendo adiado. Já como director do Nacional, ele volta à carga e diz-me: olha que eu não me esqueci daquilo que nós falámos aqui há uns anos e mais tarde ou mais cedo vamos voltar a falar. Inicialmente era eu e o meu colega, porque inicialmente o espectáculo era sobre os pontos. Ele próprio ainda não tinha uma ideia muito formada. Depois quando ele resolveu que o espectáculo ia ser sobre mim, pediu-me para eu lhe contar alguns episódios que eu tivesse atravessado na minha carreira”. E são tudo histórias reais? “Não, não. Ele depois ficcionou bastante mas a história da minha primeira vez no teatro é mesmo verdade”. Conta-nos. “Eu tinha um familiar que trabalhava no teatro e era muito amigo de muitas actrizes, actores, empresários, e ele levava-me sempre a passear por todo o lado e inclusivamente aos teatros e eu ficava com um ar muito espantado, de olhos muito abertos. E um dia ele pediu a uma actriz, de quem ele era muito amigo, se me deixava ver um espectáculo nos bastidores. Bastidores não pode ser porque pode entrar a inspecção e ela não tem idade; nessa altura era muito complicado a história das idades e ela sugeriu que eu fosse para a caixa do ponto. E lá passei aquelas duas horas alucinada a olhar para aquilo tudo. Achava aquele mundo fantástico, eu só tinha cinco anos e nem sabia se queria ser ponto ou fosse lá o que fosse. Eu gostava era de ver aquelas movimentações e ver os actores a falarem e a mexerem e isso para mim era um mundo fantástico que eu adorava ver… uns anos mais tarde fui trabalhar nessa caixa de ponto”. Mas porquê ponto? “Eu quando fazia teatro na escola, como toda a gente fez, eu gostava de dar o recado rapidamente para ir para bastidores. Era o que eu gostava, fazer os barulhos, ajudar os colegas. Quando um dia mais tarde o empresário Vasco Morgado estava a precisar de um ponto, calhou falar com esse meu familiar e ele perguntou-me se eu queria experimentar. Eu experimentei e fiquei. Há quarenta anos”. E como se aprende a ser ponto? “Com o tempo. Mas falei com uma ponto na altura que me disse: temos de estar sempre a ler o texto e se eles pararem a gente atira; não é bem assim mas é quase, as campainhas, que eram também os pontos que faziam, agora, é o director de cena ou o contra-regra. Marcar a peça, como o encenador disser, e atiram-me para a piscina e eu, olha, tive de nadar para a margem”.

Achas que és uma das últimas ponto portuguesas?

“Sim. Não porque deixe de fazer sentido o meu trabalho, porque o trabalho que eu faço continua a ser feito, só que não é feito por um ponto profissional. As companhias cada vez têm menos dinheiro e é um ordenado que poupam. Assim pode haver um actor ou um assistente de encenação que ajuda os colegas, mas não é a mesma coisa. Os próprios actores dizem que não é a mesma coisa do que ser pontado por um ponto profissional”.

O Maximino acha que vão continuar a existir projeccionistas ou vai ser só carregar num botão?

“Um indivíduo que, hoje, não mexa no analógico não se pode dizer projeccionista, de maneira nehuma. É como os actuais realizadores que nunca vão saber como se fazia cinema antigamente. Para fazer um filme em 16 ou 20 milímetros tinha de ter um conhecimento muito grande, porque tudo aquilo era muito caro. Se eu lhe ensinar, passadas umas horas você está a fazer uma projecção em DCP, com o analógico é uma vida e andamos sempre a aprender, porque a película é uma coisa frágil, feita em variadíssimos formatos, não é só pôr a película e ligar a máquina”.

Com a certeza de que a Cristina guarda um espectáculo inesquecível no coração, o Passa Por Mim no Rossio, e o Maximino adora os filmes do John Ford, as Vinhas da Ira e O Vale Era Verde, ambos falaram com carinho e admiração do Armando Cortez, da Dona Amélia Rey Colaço e da Dona Eunice Muñoz. Outros tempos mas sempre a mesma vontade de grandeza do teatro e do cinema português, nisso todos ficámos com a ideia de que nem o teatro nem o cinema estão em vias de extinção. Falta só dizer que felizes subimos até à cabine de projecção da Cinemateca onde o Maximino e a Cristina continuaram a contar histórias e mais histórias e mais histórias…

 

Texto por Pedro Saavedra, artista editor
Fotografias de Andreia Mayer