Gobi Bear, alter-ego do vimaranense Diogo Alves Pinto, conta já com o seu oitavo trabalho discográfico, o LP ‘Our Homes & Our Hearts’, lançado em Novembro de 2017, com as participações  de Surma, emmy Curl e Helena Silva dos Indignu.  A explorar a relação entre live-looping e o indie folk, assim é a sonoridade deste urso do deserto para quem a noção de espaço e ambiente é, também,  essencial nas suas composições. Preparados para conhecerem os Sentidos da Música do Diogo? Vamos lá que a perder não ficam.  

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?
Ajuda-me sempre. Eu sou muito pragmático na forma como componho, produzo e ouço. Tenho sempre a necessidade de expor a minha consciência relativamente ao que estou a contar/cantar. Assim que este campo racional está desenhado, permito que as emoções tomem posse do resto da história.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?
Até a música mais calma, no dia certo, me pode fazer mexer.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?
Todas as músicas que sinta como sendo verdadeiras e que me permitam conhecer um pouco do autor. A honestidade, nesse sentido, é inestimável.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?
Sem dúvida. A música é uma forma de expressão tão forte quanto abstracta. Só um meio assim consegue fazer-te sentir tanta alegria com uma música que conheces há muito tempo ou com uma que estás ainda a conhecer… E só um meio assim tão poderoso consegue fazer-te dançar e chorar, às vezes até ao mesmo tempo. 

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?
É raro não acontecer. A solo, enquanto Gobi Bear, faço sobretudo música de loops. Aí, as diferentes camadas surgem muitas vezes como novas paisagens ou pequenas variações nas mesmas. Aliás, o meu último disco “Our Homes & Our Hearts” foi totalmente criado em casa precisamente como forma de aumentar a minha própria imersão nesse aspecto ambiental. O que se ouve no disco, para além de mim, é a minha casa e o que a rodeia. Quando acompanho a Mathilda, começo por ouvir as canções dela e imaginar-me no seu lugar. A partir do momento em que vejo o que ela vê, estou essencialmente a ter um sonho acordado. É um processo muito natural.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?
Tenho muita dificuldade em responder a esta pergunta. Há pouco falei de sonhos e os meus não têm cores e as formas não são bem definidas. Talvez por isso seja difícil para mim associar música a cores e formas.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?
Agridoce, sem dúvida. 

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?
The Microphones – I Felt Your Shape

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?
Para  mim,  sempre  foi.  Todos  os  eventos  marcantes  que  surgem  enquanto  ouço   música  ficam  automaticamente  associados  a  ela  e,  acima  de  tudo,  influenciam  a   forma  como  a  ouvirei  para  o  resto  da  vida.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes
Foto de Kate Leppert