Por trás do alter-ego ‘Tio Rex’ está Miguel Reis. Nasceu em Lisboa mas, com dois anos de idade, passou a viver em Azeitão. No seu folk catártico e introspectivo, não tem medo de mexer na caixa de biscoitos proibida e encarar de frente os fantasmas e a sombra humana — o teledisco do tema ‘This is an intervention’, do novo EP ‘Five Tragedies’, que o diga. Enquanto ‘as cinco tragédias’ não chegam – não se preocupem, é esperar pelo dia 18 de Março para perceberem que estas são das que valem a penas – vamos conhecer os sentidos da música do Miguel. Vamos!

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?
Depende do ponto do processo. Se, por um lado, acredito que muitas das melhores canções são aquelas que saem de impulso, sem pensar, e não são portanto minadas pelo “querer escrever uma granda canção sobre o tópico x para o público”, por outro, sinto que é o lado racional que me permite filtrar o que sai batido, “sem conteúdo” ou simplesmente sem sal. E isso, a meu ver, também é fundamental na parte de limar a obra, por forma a criar algo realmente genuíno e pessoal.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?
Geralmente o rock mais arrastado com aquela southern vibe, ou “gesso” do mais violento, tipo The Chariot.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?
Bandas sonoras de filmes!

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?
Sem dúvida. A música não pede licença. A partir do momento em que carregas no play o tempo começa a contar e és levado na viagem que quem a criou idealizou para te conduzir. Acredito que só depois de conheceres o tema é que consegues “vê-lo de longe”, separar os elementos e focares-te em detalhes específicos.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?
Quase sempre. Até porque 90% das canções que escrevo e componho são feitas na rua, e isso ajuda-me a “ver” e ouvir o que quero, e como quero, escrever e compor. Tendo a “estudar” e criar música sempre consciente de que existe uma paisagem sonora projectada pelos sons e instrumentos utilizados em cada tema. Na minha forma de trabalhar, se te quiser contar por exemplo uma história ancestral ou que remeta para espaços ou elementos da natureza, nunca me faria sentido baseá-la em texturas de música electrónica.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?
Acho que não haveria uma coerência em traços nem em cores. Sinto que à medida que o tempo vai passando as canções também evoluem comigo e, como tal, abordo cada disco como um novo capítulo, onde, mesmo dentro de cada capítulo, tendem a haver oscilações nos traços e cores, se as canções assim o pedirem.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?
Essa é difícil porque sou muito esquizofrénico nos meus gostos e no que me toca! Mas, verdade seja dita, acredito que ninguém viva bem só com chamuças, ou só com mousse de chocolate. A solução é portanto: um buffet de casamento!!

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?
Talvez o tema homónimo do Hana-Bi, pelo Joe Hisaishi.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?
Acho que sim, ainda mais se for partilhada. Se há temas que, pela história do poema em si, te remetem para coisas que te aconteceram, por outro lado também há aqueles que te lembras de ouvir com os amigos na escola ou com os pais ou avós, e que acabam por se tornar “time capsules” para esses momentos.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes
Fotografia de Marta Banza