Entre quatro décadas de fascismo e uma geração que, logo a seguir, quis fazer do cinema português um género próprio e distinto, a história dos filmes de terror com assinatura portuguesa acabou por “nunca ser contada”. Na edição deste ano do MotelX, há, contudo, vontade de resolver esse esquecimento: será lançado um livro, com coordenação de João Monteiro e Filipa Rosário, que traça o percurso do terror por terras lusitanas, dos crimes no aqueduto que deram origem ao primeiro filme português ao nascimento desse festival que se tem encarregado de mostrar novas vozes e visões aos espectadores.
O quarto perdido do MotelX. É assim que se intitula o livro que será apresentado este sábado, dia 10 de setembro. A análise aí contida arranca em 1911 e termina e 2006, debruçando-se, então, por quase 100 anos de terror com ADN português. “Mil novecentos e onze foi o ano em que foi feito o primeiro filme português, do qual existem materiais. Chama-se Os crimes de Diogo Alves e é sobre as façanhas do assassino do aqueduto, que foi um assassino em série que matou mais de 40 pessoas”, explica João Monteiro, que também é diretor artístico do festival referido.
O curioso num país que tem esquecido o seu cinema de terror é, então, que o primeiro filme a ser feito por cá pode ser considerado, precisamente, desse género, realça. “O filme é composto por vários quadros das atrocidades que Diogo Alves foi cometendo. Tudo feito numa altura em que não havia sequer uma noção de ação dramática. Era uma espécie de colagem do que teria sido uma peça de teatro”, salienta João Monteiro, detalhando que se trata de um “filme em quadros” com um único plano.
Segundo o diretor artístico, a “atração pelo lado negro é universal”, pelo que os filmes de terror nasceram logo na altura do cinema mudo, tanto na Alemanha, como na Escandinávia e, posteriormente, nos Estados Unidos. “Há uma atração pelo macabro. Acho que deve ser o mesmo que faz com que as pessoas parem para ver os acidentes, na estrada”, atira o responsável, que adianta que, no caso português, o cinema de terror, particularmente no século xx, tem sido “muito caracterizado pela sua vertente folclórica". É o chamado folk horror, que se baseia na “luta entre a cidade e o campo”, na manifestação das “tradições ancestrais” na modernidade urbana ou, pelo contrário, “no urbano que vai para o campo e desintegra-se”.

E nem o virar do século fez esmorecer a atração por essas temáticas. Pedro Souto, que também é diretor artístico do MotelX, conta que, com o aumento das produções, tornou-se “mais fácil aparecerem outras visões”, mas o folk horror tem mantido o seu peso. “Temos tido muito essa presença até nalgumas das curtas-metragens que temos vindo a mostrar ao longo dos anos do festival. Há sempre uma atração por esta temática”, sublinha, ligando esse fascínio pelo folclore à “pouca literatura gótica” que por cá existe. E a pandemia pode ter vindo mesmo a acentuar essa atração, realça João Monteiro. “Tem que ver um bocadinho com esta ideia da vingança da natureza. Desde a pandemia que temos esta ideia”, afirma.
Já Pedro Souto enfatiza que, mesmo num período mais delicado, como o atual, o “terror ficcionado” pode trazer escapismo aos espectadores. O terror pode ser, assim, “simplesmente umas horas de escapismo, divertimento e sensações de montanha russa” ou uma obra repleta de subtexto, ressalva. Enfim, é “um género muito rico”, garante o diretor artístico. E por assim ser, destaca o mesmo, é preciso acabar com o preconceito que existe por parte de algumas pessoas. “É muito fácil formatar o terror em medos e fórmulas, mas não é muito correto. Isso talvez se aplique à maioria, ao que sai mais cá para o fora, ao que estreia mais em sala, em modo comercial e, eventualmente, a alguns blockbusters. Mas o terror pode ser abordado de múltiplas maneiras. Tem de haver um certo abanar do preconceito e mostrar a riqueza do cinema de terror”, defende Pedro Souto.
O fraco financiamento e a ajuda internacional
Na altura em que o exploitation era “bastante proeminente” na Europa, Lisboa viveu um “pequeno boom” de filmes deste género, por iniciativa do “galã” António Vilar, que tinha ido para Espanha, no arranque do Estado Novo, e aí se tornara uma vedeta. A ideia, explica João Monteiro, era trazer para terras lusitanas coproduções com outros países, filmando-as em Lisboa, essa cidade, então, “exótica e fechada”. “Portugal era um segredo”, observa o diretor artístico do MotelX. “Dava, então, para filmar num sítio com paisagens diferentes. Há filmes destes dobrados em cinco ou seis línguas”, conta o mesmo. Estas obras acabaram, contudo, por não ter o sucesso desejado, mas não deixam, garante João Monteiro, de ser “bastante curiosas”.
E várias décadas depois, Lisboa tem voltado a ser cenário de várias produções internacionais, pela mão, por exemplo, da Netflix. “Lisboa tornou-se num cenário para produções estrangeiras de cinema. O que se está a passar agora já aconteceu no passado”, atira o responsável, que deixa um aviso: “Em troca tem de haver a integração de profissionais portugueses nestas equipas.”

A presença da indústria cinematográfica internacional em Portugal pode, deste modo, ser uma oportunidade para o meio luso, que ainda sofre, reconhece, por sua vez, Pedro Souto, com financiamento escasso. “Portugal tem uma produção já bastante consistente. Há uma série de presenças em festivais de reconhecimento internacional. Tem havido um percurso de trabalho e conquistas, mas há pouco dinheiro”, salienta o responsável.
Da parte do MotelX, a missão tem passado por mostrar novos autores e visões aos espectadores. Aliás, a edição deste ano mantém um dos dois dias extra implementados durante a crise pandémica, abrindo espaço para mais filmes e vozes. “O que não faltam são filmes para mostrar, bons filmes”, remata Pedro Souto. O Motelx arranca esta terça-feira e estende-se até à próxima segunda-feira, dia 12 de setembro. A programação pode ser consultada, na íntegra, online.