Não é que o feminismo fosse um assunto completamente estranho na sua vida. Karen, 45 anos, mantinha-se “mais ou menos a par” das questões ligadas à igualdade de género, assegura. Mas a mudança do Governo em Espanha – que resultou em leis históricas, nomeadamente no que diz respeito à saúde sexual – pô-las em maior destaque. “Levou a que se falasse muito sobre isso na vida pública”, conta a livreira, que percebeu, assim, que lhe faltava cultura feminista. Começou, por isso, a ler mais sobre o assunto e acabou por chegar à Manamiga, a primeira escola feminista de Portugal.
Inaugurada na primavera deste ano, a Manamiga foi fundada por Marta Martins, gestora cultural e diretora executiva da Artemrede, e Valquiria Porto, profissional da área do marketing que conta com formação em administração de empresas. Através de cursos, debates e workshops, esta escola pretende desenvolver o pensamento crítico e a mobilização “necessárias para a construção de um futuro justo” para todos, descrevem as responsáveis.
Um dos cursos disponíveis dedica-se, por exemplo, ao “Feminismo em comum”, debruçando-se sobre as diversas vertentes que esse movimento foi assumindo ao longo das épocas. Foi esse o curso que Karen escolheu fazer e “foi fantástico”, assevera. “Foi uma introdução aos conceitos feministas, aprofundando também algumas questões”, adianta, em conversa com o Gerador. “Foi maravilhoso encontrar outras pessoas com mais cultura do que eu nestes temas, que me recomendaram grandes livros”, avalia a livreira.
Além do referido curso, a Manamiga tem à venda também um outro sobre “feminismos em Portugal”, cujas aulas serão lecionadas em novembro e dezembro pela doutora em Estudos de Género Vanda Gorjão. Está também disponível um curso sobre cisgeneridade e transfeminismo, que será lecionado online em outubro, bem como um curso sobre não-monogamias consensuais e feminismos (que está agendado para setembro) e um minicurso sobre opressão estrutural, que será promovido já no final deste mês.
As fundadoras contam ao Gerador que a intenção é ir envolvendo novos professores e temas na escola, pelo que está, então, previsto o lançamento de outros cursos, além dos que estão atualmente disponíveis.
Uma escola para todos
À semelhança de Karen, a maioria dos alunos que têm chegado à Manamiga são, releva a cofundadora Valquiria Porto, mulheres acima dos 35 anos. “Nas redes sociais, quem gosta dos nossos posts é um público variado. Mas quem tem feito os cursos têm sido as mulheres um pouco mais velhas e com uma formação boa em várias áreas, como psicologia, direito, jornalismo”, acrescenta Marta Martins, que sublinha que, considerando o preconceito que ainda existe em torno do feminismo, a escola está “a correr bem”.
As fundadoras salientam, contudo, que “a pedra fundamental” da escola é fazer o feminismo “chegar a toda a gente”, pelo que sinalizam que pretendem trabalhar para alargar o alcance dos seus cursos. “O que percebemos é que talvez precisemos de ter cursos mais simples”, detalha Marta, que explica que está a ser ponderado, por exemplo, um curso sobre o sexismo com mais dados relativos ao contexto português.
Por outro lado, ainda que tenha um espaço físico em Lisboa, importa notar que a Manamiga oferece cursos online. O curso feito por Karen, por exemplo, é composto por seis aulas gravadas, que podem ser vistas imediatamente a partir da compra.
Esse curso custa 55,35 euros, mas as fundadoras alertam que há um sistema de bolsas para quem, estando interessado na formação, não consiga pagar o preço na íntegra. A bolsa cobre até 50 % do custo do curso e é financiada por outros alunos. Isto porque “os cursos têm três níveis de preços”, esclarece Marta Martins: o valor mínimo (os tais 55,35 euros, no caso do curso referido) cobre os custos do curso e da professora; O valor intermédio (67,65 euros) ajuda a pagar a bolsa de outro aluno; e o valor máximo (79,95 euros) apoia a escola”.
“Já atribuímos bolsas a várias estudantes. Por exemplo, pessoas mais jovens ou desempregadas”, avança Marta Martins. “Também já negociámos pagamentos faseados. Vemos sempre caso a caso”, acrescenta.
Esta é, convém notar, uma “escola em construção”, realçam as fundadoras, pelo que ainda haverá alguma evolução no horizonte. Daqui a um ano, a Manamiga quer promover campanhas de proteção das mulheres, conferências e entrar nas escolas secundárias. “A escola vai atuar em múltiplos formatos”, perspetiva Valquiria Porto.
O que move as fundadoras?
Apesar de a cultura ser um meio em que as mulheres têm uma presença significativa, ainda ocupam funções secundárias, relata Marta Martins. “Desempenham tarefas ligadas ao cuidado. Para os homens, é reservado o direito da criação”, descreve a gestora cultural, que explica que foi perante esse cenário que surgiu a vontade de criar a Manamiga. “Antes de ser uma escola, era uma página no Instagram com projetos dirigidos por mulheres e pessoas não binárias sobre a luta feminista”, observa.
Numa outra área de atividade – o marketing –, Valquiria Porto também se deparou com a flagrante desigualdade entre géneros. “Tendo sido casada, tendo namorado, tendo trabalhado em vários lugares, percebi que [o problema] não estava naqueles homens ou naquelas empresas. Era o sistema. Surgiu assim a vontade de estudar”, conta. Na visão da cofundadora da Manamiga, as mulheres “precisam de ter alguma estrada” para ficarem mais alertas em relação ao feminismo. “A paciência vai-se esgotando”, frisa, defendendo que a experiência vai mostrando que “as coisas não vão mudar se não fizermos um esforço”.
Aliás, destaca Marta Martins, a igualdade de género até já está na lei, “mas na prática não existe”. As profissões continuam a ser estereotipadas, os índices de violência doméstica continuam elevados, permanece um sentimento de vulnerabilidade entre as mulheres que “não é compatível” com um mundo igual, enumera, esperançosa que a escola que ajudou a criar possa contribuir para que, passo a passo, a realidade vá mudando.
Apesar das medidas anunciadas nos últimos anos, a desigualdade entre géneros é ainda uma realidade visível em Portugal. Em 2022, o país ocupava o 15.º lugar no ranking do Índice de Igualdade de Género do Instituto Europeu da Igualdade de Género, com uma pontuação de 62,8 pontos em 100. No que diz respeito, por exemplo, aos rendimentos, Portugal conseguiu uma pontuação de 74,7 pontos em 100, abaixo da média comunitária de 82,6 pontos, segundo realça a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género.
Quanto à comparação com o vizinho ibérico, é importante notar que, por cá, o PAN, por exemplo, tentou incluir a baixa menstrual na legislação portuguesa, seguindo o exemplo espanhol, mas o PSD juntou-se ao PS para chumbar a medida.