in contra. Colisão entre existências distintas.

Deixo a memória de um encontro. Um encontro acontece sempre sobre a memória de outros. Do diálogo entre as imagens que nos deixam, surgem renascidos em formas novas. Pela perda, pelo fragmento, pela imperfeição, acontece a possibilidade de gerar, de regenerar o nosso estar no mundo, porque só o perdido, o fragmentado e o imperfeito se podem ligar. É por isso que falamos e somos falados “na palavra doutro”.

Num fim de tarde, num café em Sintra, encontrei Gonçalo M. Tavares, que trouxe consigo outro encontro. Da mochila amarela, tira o Atlas do Corpo e da Imaginação, uma obra do escritor, publicada, pela primeira vez, em 2013, realizada com a colaboração d’Os Espacialistas. Foi ao redor deles que a palavra andou até anoitecer.

No início, um corpo, a mão. O escritor prepara uma folha branca. Sobre o acto de leitura, diz: “Tenho sempre um lápis. O lápis coloca-me no movimento de ser um emissor, estou sempre a sublinhar, a ler, a apontar, a cortar, a fazer pequenos comentários. Mas, principalmente, a sublinhar e, esse trajecto, do lápis a sublinhar, que é uma espécie de desenho, é uma coisa que associo muito à escrita. E, de repente, há palavras ou há frases que, pelo facto de eu sublinhar, ou fazer uma espécie de círculo à volta, transformam-se, como se mudassem de estatuto.” Conversar é ler, que, por sua vez é escrever, tecer o recebido, recriar, e lançar novamente a linha. Por isso, Gonçalo segura um lápis e entramos n’Os Espacialistas.

“Os Espacialistas são um grupo de artistas arquitectos, fundado pelo Luís Baptista, que foi atraindo várias pessoas. O grupo deve o nome à questão do espaço. São uma espécie de médicos, enfermeiros do espaço. Vestem-se de branco, mesmo para simbolizar essa questão. Os espaços da cidade estão doentes, e a tarefa de um especialista é recuperar a vocação artística do espaço. Eu não diria a beleza de um espaço, mas a criatividade do espaço. Todos os espaços são potencialmente criativos, mas muitos estão feios, não têm nada que atraia”, apresenta o grupo que conhece de perto e com o qual, desde 2012, tem desenvolvido alguns trabalhos, seja artigos, livros, performances, workshops e conferências. Os Espacialistas realizaram a ilustração fotográfica das crónicas da revista Visão, do Dicionário Ilustrado do Notícias Magazine e a ilustração fotográfica/design gráfico das obras Viagem à Índia, Matteo Perdeu o Emprego, Atlas do Corpo e da Imaginação, Uma menina está perdida no seu século à procura do pai e O Torcicologologista, Excelência. Em 2017, colaboraram no BoCA Summer School, dirigindo o workshop “Pensamento, imaginação e artes”. Integrando, também, a programação do BoCA, em 2019, apresentaram a performance “Os Animais e o Dinheiro”, a partir da qual se realizou uma masterclass, e o “Laboratório de Formas de Sentir Acima da Média”.

O encontro com Luís Baptista aconteceu quando tinha cerca de 20 anos. Há na amizade um “imaginário em comum”. Dessa altura, lembra-se de conversarem sobre a Poética do Espaço, de Gaston Bachelard. Para além da fotografia, Gonçalo M. Tavares reconhece no grupo “um instinto de performance” e uma capacidade de criação de objectos invulgares, que se caracterizam pela geometria, um interesse partilhado. “A relação entre o irracional, o imaginário, e as formas geométricas, quase platónicas, o quadrado, o triângulo, a circunferência, atraem-nos muito. […] O organismo é algo que está sempre a mudar. A geometria, em princípio, são formas estáveis, quase formas eternas, que não mudam. O quadrado tem as suas medidas fixas, enquanto o corpo, até ao longo de um dia, vai mudando o seu peso, o seu pensamento.” Nesta diferença radical, trabalham Os Espacialistas. As oposições, afinal, podem conquistar uma habitação. Essa habitação é a mão. Intervêm no espaço público, introduzindo elementos inusitados, sólidos geométricos. Em espaços que estão destinados a determinado “mundo”, provocam, através do objecto, um despiste. Gonçalo recorda um exemplo, uma galinha real, em cujo ninho são colocados ovos em forma de cubo.

Título: A natureza jamais abolirá o acaso, 2019

“O deslocamento de contexto é pôr problemas. É um pensamento quase de começo do mundo. Então, mas porque é que os ovos não podem ter forma cúbica? Porque não pensar em ovos que tenham forma piramidal? Isto é um tipo de lógica que, em vez de tentar analisar o que existe, coloca-me como potência criadora de outros mundos. Porque é que as coisas não podem ser desta maneira?” Contudo, não se trata de falsificar o real. O grupo não usa imagens falsas. A sua intervenção consiste em colocar “um elemento de outro mundo” para quebrar com a monotonia e, nesse sentido, a previsibilidade dos espaços. Gonçalo levanta o olhar para a sala do café e diz: “Às vezes, só a questão da cor é um acto espacialista. Ao olharmos aqui à volta, há cores dominantes e, de repente, basta ter um vermelho, um azul, potentes. Às vezes, basta pintar. Basta tinta.” O mesmo torna-se, assim, outro. O escritor indica uma outra imagem, agora na sua relação com o peso, a partir do exemplo de Duchamp: “fez um pequeno cubo de açúcar com um peso gigantesco. De repente, vemos uma coisa pequenina e associamos essa coisa a um determinado peso e, de repente, somos surpreendidos”. Este desvio tem algo de lúdico, joga com os sentidos, com as expectativas. “Há uma lógica na nossa cabeça que é o que é pequeno pesa pouco, e o que é grande pesa mais”. Como o gesto é o corpo a pensar, Gonçalo fez essa experiência num teatro com dois caixotes em tudo iguais, com a excepção do tamanho. O grande estava vazio e o pequeno estava muito carregado. “É engraçado porque, se as pessoas não forem informadas disso, antes de pegarem nos caixotes preparam-se muscularmente, porque a expectativa depois ganha forma fisiológica, não é só uma coisa intelectual. É também a postura, a atenção, a forma como olhamos para as coisas.” À cor e ao peso, correspondem reacções fisiológicas e simbólicas. Gonçalo sinaliza, ainda, a atenção: “Ao sentir que uma coisa é muito leve não lhe vou dar muita atenção. Não preciso pôr as duas mãos viradas para esse objecto. Uma mão basta.” Pega no lápis e comenta: “O facto de ser levezinho, já faz com que eu pegue com pouca atenção.”

Num vídeo, produzido pelo BoCA Bienal, em 2017, a partir de uma entrevista que deu, juntamente com os Espacialistas, o escritor descreve o seu encontro com as vozes e as imagens, o qual passa por “olhar muito tempo para uma imagem e, de repente, começar a ver as hipóteses de vida dessa imagem”, “as imagens que poderiam andar à volta dela, antes ou depois”. Uma vez que uma fotografia “é uma narrativa parada a meio” e é frequente pedir imagens aos Espacialistas, vivendo-as como estímulos para escrever, apresentei-lhe várias imagens do grupo, pedindo para escolher uma e realizar esse mesmo exercício.

Sem hesitar, escolheu esta imagem:

Título: Para que serve o Dinheiro?, 2010

Aproximou-se, inclinando-se sobre ela.

“Um prato de sopa cheio de moedas e alguém com uma colher de sopa, como se estivesse preparado para comer”, descreve antes de mergulhar. Partilha a primeira “hipótese de vida”: “Esta questão de a comida ser dinheiro. É dinheiro transformado em comida. Pode não ser nosso, pode ser algo que nos é dado. São raríssimos os casos em que a própria natureza produz algo sem haver dinheiro antes. A alimentação é a primeira necessidade básica. Quando temos dinheiro e temos necessidades, a primeira tradução do dinheiro é em comida. Depois, o dinheiro pode traduzir-se em roupa, alojamento, conforto.”

Mas, ao contrário da comida, que, embora precariamente, sacia e, neste sentido, o corpo denuncia que um limite foi tocado, a segunda “hipótese de vida” cresce na “ideia de alguém que devora dinheiro, que acumula dinheiro, um acumulador, uma espécie de obsessão”. Referencia Séneca para pensar os “bens não naturais”: “O dinheiro é um bem não natural que não tem fim. Quando é que uma pessoa pode dizer ‘eu estou satisfeito’? Ou ‘eu não consigo mais, não consigo ter mais dinheiro na conta bancária’?”

A terceira “hipótese de vida” mora nas suas leituras, através das quais soube que, na Índia, “um cego sem braços sabia o valor das moedas através da boca. Uma imagem absolutamente terrível, de alguém que não tem braços para perceber o peso do dinheiro e não tem olhos e, de repente, a boca, o órgão do paladar, é o que distingue o dinheiro de outra coisa”.

Prolongando o movimento, que se tem traduzido verbalmente no advérbio “de repente”, reflecte no carácter trágico desta imagem: “É uma imagem muito forte, quase chocante, quase obscena, porque é também muito provocadora. Esta ideia de que não podemos verdadeiramente comer dinheiro e há situações-limite em que percebemos que o dinheiro é uma abstracção e tem que ver com um sistema de confiança mútuo na cidade. Mas, quando há um cataclismo, em que deixa de funcionar, quando não há sítio para comprarmos comida, podemos ser milionários, mas morremos à fome. Em situações limite sociais, o dinheiro deixa de ter valor.” Recorda o caso das greves dos motoristas que abastecem os supermercados: “Aconteceu há alguns anos, em Lisboa. É uma imagem muito estranha para alguém que vive na cidade e, de repente, entra num grande supermercado e vê apenas os plásticos que nunca vemos, porque estão sempre cobertos de fruta. Parecia uma morgue e não um supermercado.” O dinheiro também se transforma num papel inútil em casos de inflação extrema, “como na Alemanha, quando se usavam as notas de uma moeda que ainda estava em circulação, mas não valia absolutamente nada e se colocava como papel de parede, ou se escrevia um pequeno recado como se faz num papelinho”. Rompe-se a rede de confiança no que, afinal, é a ficção onde pensamos a vida e, por vezes, a podemos perder.

Convidado a contar a história entre duas imagens dos Espacialistas, Gonçalo M. Tavares mantém a imagem anterior e escolhe a seguinte:

Título: Meca Flower, 2010

 “Esta é uma planta que termina num cubo”, diz como quem, mais uma vez, estende um tapete para atravessar. A flor cúbica evocou-lhe novamente a geometria e a sua relação com a natureza, que “é naturalmente torta”. Uma linha recta é o rasto de um ser humano. “Pensando na outra imagem, podemos pensar nesta ideia da beleza e do dinheiro. Alguém que não se satisfaz com aquele prato de comida em forma de moeda e que, de alguma maneira, tem uma espécie de ânsia pela beleza e de poder receber esta planta estranha, com cabeça em forma de cubo, como quem recebe uma segunda hipótese como solução. Se o dinheiro não resolve, que tal a dádiva, a afectividade, a oferta, a beleza”. Ressalva que “pode ser uma hipótese, mas daqui a umas horas diria outra e, amanhã, diria outra”.

Começámos a conversa precisamente aí, no modo com o corpo recebe. Partilhando a sua experiência de leitura, Gonçalo fala do corpo enquanto tempo encarnado e, por sua vez, da viagem das palavras, que ora brilham, ora se apagam, consoante a passagem da luz no país de quem encontram: “O corpo é um organismo, varia muito ao longo do dia. Portanto, as palavras que nós recebemos dependem muito desse estado do organismo. É curioso, eu a ler… Só leio ensaio de manhã, e filosofia, coisas mais pesadas, digamos, e não consigo ler poesia ou ficção, não consigo. Pelo contrário, ao fim da tarde, ou à noite, já estou cansado e normalmente leio ficção ou poesia. Isso é interessante, porque tem que ver com esse momento de recepção das palavras. As palavras são as mesmas, mas estou sempre à procura do momento em que o corpo está sintonizado com a palavra que pode receber.”

A instabilidade de um corpo em trânsito deixa-nos a pensar na estabilidade da geometria enquanto criação desse mesmo corpo. Esta questão arrasta a problemática do natural /artificial. Se o humano provém da natureza e, se faz parte da sua natureza, produzir coisas e produzir-se, no sentido do que toma como perfeição, as alterações que opera no que preexiste, fazem ou não parte da natureza? “Eu separo o que o homem faz da natureza. O humano não separo. O humano nasce torto a todos os níveis e, depois, pode construir coisas muito direitinhas. Esta fobia do ‘tudo certinho’, da matemática, da racionalidade, que associamos à inteligência e, de alguma, maneira à mente, ao intelecto humano, vem de rácio, ou seja, tem uma ligação com uma espécie de lógica quantitativa. Portanto, as produções humanas, aí, saem claramente da natureza.” Aponta as tentativas de eugenia, no século XX, cuja intenção adquire novas formas, que continuam a ter como objecto o próprio corpo. “Quando alguém faz uma plástica na cara está a tentar endireitar o tempo. É algo que existe cada vez mais, endireitar coisas dentro do próprio corpo, como tirar a possibilidade de ter certas doenças. […] Depois, claro que, para além da questão da saúde, avança-se, normalmente, para questões intelectuais, quer-se fazer um ser humano inteligente com boa memória. O ser humano nunca ficou muito satisfeito por ser um organismo. Acho que o homem pensa que devia ser uma coisa mais direita, um cubo ou um quadrado, que tem sempre as formas estáveis, e é isso que, de alguma maneira, se está a fazer tecnologicamente, transformar o homem numa forma ideal platónica que se mantenha invariável. Estas obsessões pela imortalidade e pela estabilidade são tentativas de fazer do humano qualquer coisa fora do orgânico.” Porém, o escritor reconhece que “o terrível no humano e também o extraordinário”, apontando a esperança média de vida, os avanços na saúde que permitem melhorar a qualidade de vida, a redução da dor, por exemplo. Lembra autores como Deleuze e Antoine Artaud, que relacionam a máquina com a dor, a possibilidade de um corpo máquina como solução para a segunda. Porque a morte é o que nos tira poder, na medida que a vivemos como risco adiado que orienta a vida, seria possível enfrentá-la e sair vitorioso.

Apesar de não ter uma visão pessimista sobre a tecnologia, tem consciência de que o desenvolvimento desta pode não corresponder ao desenvolvimento do humano, mas, por vezes, a um retrocesso, como é o caso das máquinas que criam desemprego. Nos anos 60, a ideia que vigorava era a de que estas iriam libertar o homem. Gonçalo chama a atenção para a capacidade que as máquinas têm de ligar as pessoas. “A ligação é o avesso da liberdade. Estar ligado é ter um nó. Desligar tem que ver com a possibilidade da pessoa se movimentar em qualquer direcção.” Evoca Umberto Eco e a reflexão que este autor fez, aquando do aparecimento do telemóvel, referindo que não entendia o motivo das pessoas estarem satisfeitas com tal aparelho, na medida que este as coloca sempre acessíveis. “Colocar alguém sempre acessível é torná-lo escravo. O escravo é aquele que está sempre acessível ao dono, da 1h00 às 18h00. Se estamos contentes por estarmos sempre acessíveis, estamos a contentarmo-nos com uma espécie de nova escravatura.”

A tecnologia também impulsionou uma multiplicação de imagens, que, por sua vez, conduziu a uma desvalorização. Mas, Gonçalo sinaliza uma espécie de resistência nos Espacialistas. Pela estranheza das suas imagens, “que misturam o humor e uma forma de pensar imaginária”, levam-nos a parar. “As imagens são o grande material da imaginação”, que é a capacidade de “produzir imagens independentemente da visão. As imagens deveriam ser aquilo que constitui o nosso imaginário. Hoje, quando vemos fotografias já previsíveis, quando as imagens são rotineiras, é um atentado à própria palavra da imagem. A imagem deve ser aquilo que está para além da realidade. Aquilo que não consigo ver com os olhos. Os surrealistas defendiam que devíamos ser cegos para poder imaginar coisas e deixarmos de ver a realidade que era muito pouco interessante. Isto possibilitava interromper o fluxo de imagens via óptica para produzir imagens loucas na nossa cabeça”. Embora os Espacialistas não se encontrem neste enquadramento, oferecem uma imagem que, de outra forma, no contexto comum, não teríamos acesso. Mas, simultaneamente, compõem-nas com elementos reais e concretos. Esse é “talvez o grande fascínio das imagens dos Espacialistas” para o autor, considerando que tais características fortalecem o nosso imaginário.

A sua relação com as imagens não é verbocêntrica. “O centro de uma imagem é a cor e a forma. Godard tem uma frase que diz: “Isto não é sangue é vermelho.” Antes do sangue, a cor. Referencia a obra Ponto e Linha sobre Plano: contribuição à análise dos elementos da pintura, de Kandinsky. Neste livro sobre a pintura abstracta, a desconstrução mostra que aquilo que vemos são “pontos, linhas, planos”. Continuando a relação entre texto e imagem, convoca, ainda, Roland Barthes e o seu conceito de punctum, “o ponto que atrai o nosso olhar” intuitiva e irracionalmente, criando uma maior intimidade na abordagem. Porém, Gonçalo M. Tavares discorda com Barthes no que diz respeito à existência de um punctum fixo, invariável, independentemente do sujeito. Contrariamente, o texto “tem uma espécie de ordem sequencial, já predefinida”, um “protocolo” a seguir, por isso o olhar segue a trajectória da esquerda para a directa, de cima para baixo, e o olhar não tem uma reacção imediata, um ponto que o próprio observador crie, pelo qual começaria a leitura e onde a concentraria. Desta forma, o escritor justifica a autonomia destes mundos.

Desligo o gravador. O café está quase a fechar. Seguimos caminhando, a conversar sobre deus, até à estação de comboios.

Este artigo encontra-se ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografias d’Os Espacialistas