Sendo o mote desta edição a doçaria portuguesa, também quis abraçar este tema bem saboroso. Não sei se afiaremos tanto a língua como noutras ocasiões, mas o paladar afiaremos de certeza.

A doçaria portuguesa é de uma riqueza extraordinária. Quem consegue resistir a um doce de colher ou a um bolo bem português? É de fazer crescer água na boca, e por isso há quem coma que nem um abade! Mas a gula é pecado… sejamos, pois, moderados. Só que, por vezes, é impossível não comer com os olhos! Conheces esta expressão? Claro que conheces, é bem antiga, do tempo dos romanos, que praticavam uma cerimónia religiosa chamada Silicernium, um ritual fúnebre em que não era permitido comer, apenas olhar em silêncio para o manjar oferecido aos deuses. Comiam com os olhos… O ritual já não se pratica, mas a expressão ficou e um relance pelas fotografias publicadas na reportagem sobre a doçaria bem o comprova. Verdade, não?

Há também alguma doçaria que nos deixa com dúvidas na cabeça. Quando, imaginemos, anotamos uma receita ou queremos referir uma qualquer iguaria. Por exemplo, devemos escrever sericaia ou siricaia? É sericaia, do malaio sricaya. E o bulinhol? Ou será bolinhol? Com u ou com o? Claro que é com o, de bolinho (diminutivo de bolo) + -ol: bolinhol.

Como nos aproximamos da época natalícia, vem-me logo à cabeça o bolo-rei. É bolo que não pode faltar à mesa, se passado para o texto, é sempre escrito com hífen. E há outros vocábulos bem docinhos que também levam hífen! A não esquecer: arroz-doce, leite-creme, ovos-moles, entre outros.

Já pão de ló, bem como muitas designações da doçaria conventual (por exemplo, barrigas de freira ou papos de anjo) são vocábulos que perderam os hífenes com a aplicação da nova ortografia, mas não ficaram por isso menos saborosos. Já a bola de Berlim tem ainda a particularidade de o segundo nome (Berlim) ser grafado com maiúscula por ser um nome próprio, afinal é semelhante à Berliner alemã.

Entre os doces, há plurais que, por vezes, nos fazem hesitar, como, por exemplo, o de bolo-rei já acima mencionado. O plural é bolos-reis. Vamos à regra: geralmente vão para o plural os elementos de uma palavra composta por dois nomes (bolo e rei, no presente caso). Já no caso de pão de ló, um composto formado por um nome (pão), uma preposição (de) e outro nome (ló), só o primeiro elemento vai para o plural. Ah! Uma curiosidade acerca deste vocábulo: o inventor foi um confeiteiro alemão que se chamava Lot, o que parece justificar o ló.

E pisando em território de plurais, terei de deixar uma palavra sobre a questão do plural do vocábulo filhós. Será filhós ou filhoses? Em português, existem duas palavras sinónimas: filhó e filhós. Sendo assim, as duas formas de plural estão corretas, mas é preciso ter em atenção o seguinte: o plural de filhó é filhós (plural em -s); o plural de filhós é filhoses (plural em -es). Apesar de haver muitos linguistas que condenam o uso da forma «filhoses», a verdade é que uma variante reconhecida já há algum tempo. Pois, pois, certamente já terás ouvido: «Não é por aí que vai o gato às filhoses».

E, na realidade, embora celebrando a doçaria portuguesa, por cá também se comem muitos doces vindos de fora. Como isso se reflete na língua portuguesa? Ora, muito bem, pelo uso de estrangeirismos que resistem às propostas de aportuguesamento ou de equivalência. Inspirados pela pastelaria francesa, temos: os croissants (aportuguesamento croassã), os éclairs (aportuguesamento ecler), palmiers (aportuguesamento palmiê); como ingleses, os brownies, o crumble, os muffins, entre outros. Oh, tudo isto acontece, mas nada se sobrepõe a um pastel de Belém, um de Tentúgal, um jesuíta, uma torta de Azeitão, um travesseiro, um guardanapo, uma cornucópia, um tentador pudim abade de Priscos ou toucinho de céu. De pedir e chorar por mais!

Esta crónica do Afiar a Língua saiu na Revista Gerador de novembro, que podes comprar aqui.
Texto de Ana Salgado
Design de Carla Rosado e Hugo Henriques

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