Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

BEM COMER #61

Reparei agora que entre os 135 cronistas (contas por baixo) de comes e bebes arregimentados…

Texto de Margarida Marques

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Reparei agora que entre os 135 cronistas (contas por baixo) de comes e bebes arregimentados em Portugal devo ter sido o único que ainda não falei sobre a temperatura do vinho a servir e a sua conjugação com os “secos” empratados.

Esquecimento imperdoável que me apresso a reparar.

Os velhos adegueiros, lá na Beira Alta, não gostavam do Verão. Na sua opinião "o calor dava cabo dos vinhos".  Refugiados nas adegas de pedra granítica era lá que faziam a tertúlia de Agosto, onde fazia fresquinho e tinham o "material" à mão de semear.

Enquanto se esperava para o almoço  (uma horita antes) utilizava-se o clássico método do garrafão atado com uma guita e enviado para dentro do poço. Ali refrigerava até chegar à temperatura considerada adequada. Qual era ela?

Não sei bem. O método era empírico e a medida certa era a do gosto dos bebedores.  Lembro-me que no pino de Verão bebia-se o tinto quase que à mesma temperatura do branco, pois o velho poço não tinha termostato nem regulador de temperatura por secções...

A "regulação" era deitar o garrafão do branco lá para dentro meia hora antes do que o do tinto...

Essa era a aventura empírica dos tempos pré-ciência do vinho. Antes de chegarem os enólogos , os estudiosos do tema,  acompanhados dos seus engenheiros apologistas das vinificações a temperaturas controladas...

Eram os tempos em que o Sr. Nicolau de Almeida mandava buscar gelo para arrefecer os mostos do que viria a ser o Barca Velha clássico, dos anos 50 e 60.

Hoje em dia acho que podemos confirmar esta verdade. O calor estraga os vinhos. Estraga de mais do que uma forma.  Diminui o tempo de duração em garrafa e "ofende" o palato na altura da prova.

Já o frio apenas prejudica a prova, sendo até recomendado (sem exageros!) para ajudar a preservar as garrafas boas na adega.

Um tema neste momento bastante discutido é o da "uniformização" da temperatura do vinho a servir (tinto e branco).

A norma francesa “prêt-a-porter” estabelece a regra 7-10-15 para o serviço do Vinho: 7º para os brancos leves, para o Champagne, para os nossos verdes. 10º para os brancos encorpados e olorosos. 15º para os Tintos.

Esta regra simples daria calafrios a qualquer “wine geek”.

Para os especialistas há depois os intervalos de temperatura e ainda a influência do meio ambiente.
Há quem defenda que, independentemente da temperatura ambiente ser de Agosto ou de Fevereiro, os vinhos terão que estar sempre à mesma temperatura:14º a 16º para os tintos mais encorpados e velhos; 12º a 14º para os tintos jovens; 10º a 12º para grandes brancos envelhecidos; 8º para brancos e verdes jovens ; 6º para os espumantes e champanhes. Em média, está claro!

Mas há outros (onde por acaso eu me incluo) que acham que o ambiente tem influência, sobretudo se a prova da garrafa se der em meios onde a temperatura não é condicionada.

Defendo esta ideia porque o provador não se pode isolar da temperatura que faz - se está muito calor à mesa pode pedir (e deve pedir) para lhe baixarem a temperatura do tinto para o limite mínimo da categoria. Se está frio, pelo contrário...

Claro que o ideal seria comer em salas preparadas para estarem sempre a 22º, de Verão ou de Inverno... Mas quem as tem lá em casa?

Imaginem uma cena tipicamente portuguesa: a sardinhada de Junho ou de Julho no meio de amigos, ao ar livre. Um assa as sardinhas, outros fazem as saladas, outros tiram a pele às batatas cozidas. Algumas "mulas" sentam-se e esperam pelo prato, assobiando para o lado (aqui tusso eu, um bocado embaraçado...).

Estarão debaixo do alpendre uns 32º ou 33º. Como se faz ao vinho?

Uma solução é iniciar as hostilidades com umas garrafas de espumante bruto (ao  pé do assador tem de estar sempre um flute cheio!) e continuar com um vinhão de Ponte de Lima (soberbo o de 2013). Até aqui não saímos da fasquia dos 6º a 8º...

Depois, na sossega e quando a adstringência pede um tinto a sério, lá abrimos 2 ou 3 garrafas de um tinto do Dão ou do Douro, mas jovem! Um vinho que aguente bem ser servido a 12º sem sofrer com isso. Lembro aqui dois:  Passagem (do Douro, primo do Poeira); Vinha Paz (do Dão). Ambos de 2011.

Agora mudamos a conversa para o frio de Inverno.

O frio normalmente “puxa forno”. É a altura em que aos fins-de-semana investimos mais nos assados. Seja lombo de porco alentejano, cabrito ou costela de vitela “mendinha”.

E estamos no reino dos tintos encorpados. Com os taninos, acidez e grau álcool que normalmente vêm de mãos dadas com potencial de envelhecimento e fazem a base do que se convencionou chamar "Grandes Vinhos".

Eu escolheria um Dão de grande categoria  como o  PAPE 2005 , que tem um pouco de Baga, ou um Bairrada clássico e antigo, Sidónio de Sousa de 2005 Garrafeira, por exemplo e se o encontrarem...

Um alentejano de Borba - "Grande Reserva Tinto de 2009" -  é também uma boa opção. No Douro, os Touriga do Passadouro, o Roseira de 2011 (Alto Corgo) e em Trás-os-Montes o magnífico Vale Pradinhos "Lost Corner" de 2010.

Todos estes vinhos parecem ir muito bem com a inevitável gordura deste tipo  de confecção.

Uma única recomendação: se ouvirem alguém fazer a recomendação de “chambrear o vinho defronte da lareira”, não se fiquem e sugiram que o impetrante vá mas é “chambrear” a sola do pé (descalço) para o mesmo lugar, para ver se aprende a estar calado.

Todos estes vinhos devem ser bebidos à temperatura da Adega, sendo que quem tal inventou e escreveu era de Bordéus, local onde, no Inverno, a adega terá os tais 14º ou 15º hoje comumente aconselhados.

E onde a lareira estava nas salas, longe das garrafas.

Manuel Luar

Publicidade

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

3 Abril 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 10

27 Março 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 9

20 Março 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 8

13 Março 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 7

6 Março 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 6

28 Fevereiro 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 5

21 Fevereiro 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 4

14 Fevereiro 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 3

7 Fevereiro 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 2

31 Janeiro 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 1

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Ensino superior: futuro ou espaço de incerteza?

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0