Manda o calendário que esta crónica seja publicada a 14 fevereiro, data que as organizações comerciais convencionaram para se celebrar o “Dia dos Namorados”. Para não fugir do tema aqui vão algumas reflexões sobre como a fraqueza da carne ligada ao prazer da mesa teve alguma influência em processos de namoro.

É importante começar por um aviso geral à navegação: existe a ideia de que tudo o que diz respeito ao relacionamento amoroso entre as pessoas está hoje muito mais simples, rápido, pragmático e liberal do que era há 40 anos.

Essa informação não é correta. Nunca houve tanta liberdade de “viver” como nos anos 80 do século passado, sem esquecer que era essa uma altura em que muito mais cedo se saía de casa dos pais e se iniciava a vida ativa independente.  Casando ou não, mas assumindo uma vida em conjunto e as responsabilidades que daí decorriam.

Dito isto, e embora o enleio não tenha morrido e o cultivo de uma abordagem romântica da relação seja hoje tão importante como era nessa altura, concordo que o processo se desenrolará agora mais depressa e sem tantas etapas formais.

É a instantaneidade da comunicação atual, fruto do acesso à tecnologia, às redes sociais etc… Em 1989 foi feita a 1ª chamada de telemóvel em Portugal. Antes disso só existiam as cartas de amor e os telefones da rede fixa, partilhados pela família toda.

Levar a namorada a jantar fora fazia parte do manual de cortejar que os nossos pais se encarregavam de nos transmitir pessoalmente quando chegava a altura de abrir as asas e voar para fora do redil.

Tudo tinha o seu tempo e havia uma proporção crescente de proximidade para os acontecimentos do namoro.

Normalmente conhecíamo-nos em ambientes mais informais, como a faculdade ou o liceu. Depois passava-se à fase das festas de garagem. Nesta altura, e desde que houvesse boa química entre ambos, já se davam beijos à francesa e combinavam-se idas ao cinema onde o que menos interessava era o filme que passava.

Mas logo que o namoro era assumido e existia alguma fonte de rendimento mais ou menos estável, um passo importante era a primeira saída à noite para jantar.

No restaurante Dom Pepe, da Parede, oficiava na altura do meu namoro o grande hoteleiro que foi o amigo Carlos Lemos, galego de origem que mais tarde deixou Portugal e abriu um restaurante em Vigo  – Las Bridas – e um “parador” magnífico, o Castelo de Sotomaior.

Era o Dom Pepe um restaurante de culto, bem conhecido e bem frequentado, e que tinha a fama de oferecer aos seus clientes o melhor queijo da serra que se podia provar em Lisboa e arredores.

Hoje a gerência é outra, e não juro nem trejuro pelo que lá se come e bebe.

Apoiado por um telefonema do meu pai, que conhecia o Sr. Lemos, lá apareci para jantar com a namorada. Tivemos direito a uma mesa à janela – que era grande e dava para a praia. Não me lembro do que foi a refeição propriamente dita, mas recordo-me que bebemos Dão Terras Altas, um vinho de José Maria da Fonseca muito apreciado nesses anos oitenta.

Quando chegou a altura da sobremesa, eu (já avisado) pedi o queijo da serra.  Ao ver que a namorada provava, mas não comia, pedi licença e troquei o meu prato vazio pelo dela (quase cheio).

Veio pressuroso o empregado de mesa com mais uma meia dosezinha do queijo (porque eu tinha apreciado). E não pedi a conta sem que o excelente Sr. Lemos não trouxesse ainda mais queijo da serra para a mesa com um sorriso mal disfarçado: “Está aqui um homem com bom gosto!”

Refastelado com o jantarinho e já a conduzir o FIAT 124 para casa, ouvi a que haveria de ser minha mulher dizer:

– “já vi que gostas deste queijo. O meu avô tem ovelhas e a minha avó é queijeira lá em Gouveia, tens de provar o que ela faz. E o meu Pai é adegueiro lá para cima também. Tens de vir visitar a quinta.”

A carne é fraca… uma ligação direta entre os olhos brilhantes de esperança, o ouvido seduzido e a boca do estômago nasceu naquele momento.

Comecei logo a fazer planos para o casamento.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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