Nas minhas digressões portuenses, que eram habituais por causa dos negócios, normalmente almoçava-se rapidamente e sem formalismos, para depois se jantar a sério nalgum dos muito bons restaurantes da Invicta.

Era um perigo se por acaso havia um tempo livre, depois da última reunião da manhã, para almoçar. Os amigos nortenhos adoravam pregar uma partida ao sulista que ainda por cima era secretário do Estoril-Praia.  E, em consequência, a saída da cidade não se dava antes das cinco da tarde.

Nestas reminiscências recordo que ainda almoçava e jantava. Hoje, se almoço não janto, e vice-versa. É a vida.

No Largo do Castelo, em Leça, existiam restaurantes de grande qualidade. Desde logo o “Degrau”, do amigo Rui Araújo, um grande profissional que depois se estabeleceu em Paço de Arcos até que lhe perdi infelizmente o rasto.

À boa moda do Porto aqueles restaurantes do largo de Leça tinham alcunhas. Um deles era o “Ladrãozinho”, para se distinguir do “Ladrão”, ambos ao pé um do outro, mas onde a conta era mais salgada no irmão mais velho.

Um dos nossos preferidos para as patuscadas do final da manhã teria sem dúvida nome na porta, mas ninguém o conhecia por esse nome (e eu, se o soube, já o esqueci). Íamos ao “Victor” que era o proprietário, ou então íamos comer na cozinha da Guida, já que a filha e cozinheira era a Dona Margarida.

Para me aborrecerem os amigos faziam logo questão de me mostrar o grande dragão em louça azul e branca, em local de destaque numa das prateleiras à entrada da sala do restaurante. Não havia que enganar: estávamos num feudo portista, tanto como o abençoado Tia Matilde era benfiquista ou o antigo Saraiva era sportinguista. O Sr. Jorge Nuno era cliente assíduo, assim como muitos dirigentes do FCP.

Mas o que interessava era o que lá se comia. Muito bom. À boa maneira burguesa do Porto eram propostos os rodovalhos, os gorazes e os pargos. Sem esquecer a pescada à poveira, enormes e vorazes predadores que quando vivos deviam falar galego de Vigo quase de certeza.

Foi ali que me habituei a acompanhar o peixe assado no forno com arroz. Na assadeira vinham as competentes batatas ladeando o nobre animal, mas ao lado era servido um tachinho de arroz de grelos ou de pimentos feito com a calda do mesmo assado.

Apesar do ambiente azul e branco a minha carne era fraca…E devo dizer que muitas vezes lá fui sozinho ou com grupo de amigos sulistas, sem apoio nem guarda-costas, seduzido pela mão da Dona Margarida e pela excelente matéria-prima.

À minha maneira ardilosa chegava, cumprimentava o Sr. Victor, pedia depois licença ao marido da Dona Margarida e ia logo falar com ela. Dessa conversa educada e de tratamento respeitoso (Dona para aqui, Dona para ali, e o que é que a Senhora Dona Margarida hoje nos recomenda? E por ali fora) saía a orientação da refeição.

Ao fim de algumas dessas visitas já era eu tão bem tratado ali naquele “solar do dragão”  como muitos dos habituais convivas. O que prova que a boa educação e o trato de respeito e carinho levam-nos longe.

E pagar bem, deixando compensação adequada ao pessoal também ajuda muito.

Hoje essa casa fechou, mas a Dona Margarida abriu um outro restaurante com o seu nome um pouco mais em baixo. A riqueza que consistia estarem aqueles nobres peixes inteiros nos escaparates já não existe. Agora aparecem só por encomenda, o que não deixa de ser um sinal dos tempos, mas a simpatia e a sabedoria continuam lá.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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