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Sexta-feira, 6 Março 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 6

Sobre as diferenças entre “Gula” e “Apetite” começo por citar o imortal Eça de Queiroz e Os Maias:

“A marquesa de Alvenga, para o examinar de perto (… a Carlos da Maia), pediu o braço a Pedro, e foi aplicar-lhe, como a um mármore de museu, a sua luneta de ouro.

– É de apetite! Exclamou ela. É uma imagem!… E são amigos, são amigos, Pedro?”

Obviamente que uma Marquesa – mesmo que fosse a da Malveira e não a de Alvenga – nunca teria dito, (pelo menos naquele tempo, porque atualmente já não juro):

“Só de o ver já fico com gula! Exclamou ela. … E onde é que ele mora Pedro? Tem o telemóvel?”

Nota-se assim que existe algum requinte, algum recato, alguma distância e alguma elegância na palavra “Apetite”.  “Gula”, por seu lado, e retirando o sentido carinhoso e mais virado para a doçura que se dá ao termo “Guloso”  na intimidade, parece uma palavra mais adaptada para conversa de  taberna  e de  canjirões  de tintol do que de “bistrot” e garrafas de clarete (para não sairmos do tempo do Eça).

A gula é um apetite desmesurado que se manifesta pela voracidade, pela sofreguidão com que alguém se atira a qualquer coisa que lhe encha as medidas.  Carne, peixe, bacalhau ou queijo da serra, morre tudo ali mesmo, haja ou não molho de piripiri.

Neste sentido, o praticante da gula nem os ossos deixa à perna de cabrito, de tal forma esganado se apresenta à mesa.

Da gula nasce o bárbaro arroto e manifesta-se a azia. Como consequência distende-se o estômago e prepara-se a sesta da tarde, completa com roncos e suspiros em acompanhamento.

Pelo contrário, quando se satisfaz o apetite com moderação sai o impetrante da mesa calmo, satisfeito e pronto a dedicar-se às artes ou às ciências. E até a outras atividades mais movimentadas.

Ter gula é trasvestir-se no “anjo” Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, antes do Morgado ter vindo para Lisboa e tomado o proverbial banho de boutique necessário à função parlamentar.

Ter apetite é próprio do João da Ega, estimado “dandy”, diletante, jornalista e escritor “avant la lettre” (aguardando nós todos ainda, com alguma impaciência, a publicação dos outros capítulos da sua obra prima “o Átomo”).

A um civilizado gastrónomo admite-se nalgumas ocasiões que possa sentar-se à mesa evidenciando a conhecida “galga”, mas a gula não se perdoa.

“Galga” não é neste caso o feminino de “galgo” – pedindo desculpa a mestre Almada Negreiros que no seu belo poema “Sévres partido” descreve uma pastora de galgas.

Na linguagem vulgar “galga” significa ter fome. Por isso comemos. Educadamente e com requinte.

Seguro de que esclareci as principais diferenças entre “gula” e “apetite”, resta-me desejar a todos que na vossa vida de todos os dias raramente  sintam alguma “galga”.  E que sejam muito mais “apetitosos” do que “gulosos”.

Pelo menos na Europa. Porque em certos locais recônditos (lá para a Oceânia) não me parece muito conveniente um indivíduo ser “apetitoso”… É que ainda o comem! No sentido literal e não no ordinário do termo.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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