Esta crónica é dedicada ao carnaval, festividade que quase coincidiu com a respetiva publicação.

Como hoje parece bem começar alguma conversa com uma declaração prévia de interesse aqui vai a minha:  nunca gostei de carnavaladas.

E reparem que sou do tempo em que o Sr. Teodoro dos Santos – conhecido na intimidade como o “Teodoro das Malas”, por causa da sua atividade comercial em Lisboa –   convidava a Claudia Cardinale e o Mauríce Chevalier para abrilhantarem o corso do Estoril… Tempos em que este Carnaval do Estoril competia , na Europa, com o de Veneza e com o de Nice.

O Carnaval do Rio de Janeiro já nessa altura pertencia a outra liga.

Os meus pais insistiam sempre para que eu me mascarasse, porque era “moda”, porque toda a gente o fazia. E eu irritava-me, amuava e devia passar os mais tristes três dias do ano armado em “campino” ou em “toureiro” de trazer por casa…

Isto durou até ao meu grito pessoal de “Independência ou Morte”, que não foi dado nas margens do Ipiranga como o do D. Pedro, mas ficou famoso à beira da Praia da Poça. Teria eu uns 12 para 13 anos.

Mascarar-me nunca mais. Se insistissem, eu trataria de dar cabo da fantasia nem que fosse rebolando com ela pelo chão. E como as ditas cujas se alugavam, acho que consegui que a entidade paternal visse a razoabilidade do pedido. Poupava dinheiro ao erário familiar e deixava de passar uns dias como um desgraçado.

Claro que na adolescência tardia que tive quando ainda vivia em casa dos meus pais, as noites de Carnaval eram apenas mais um pretexto para o namoro com poucos limites e controlos.

Nessa quadra a necessidade fisiológica de dormir parecia uma promessa mais longe que perto, que seria utilizada lá para a quarta-feira de cinzas, apesar dos resmungos dos progenitores.

Já na faculdade, houve um carnaval em que alugámos uma casa na Costa da Caparica e juro que nem vi a cor dos lençóis dessas camas nas duas noites que por lá passámos.

Perguntarão os mais atrevidos “Se não viu a cor dos lençóis como resolveu o resto do assunto?” A resposta é que os “assuntos” foram-se resolvendo noutras paisagens. Sem esquecer a banca da cozinha, pois já nesse tempo me entretinha muito com os tachos.

Já mais tarde criámos um grupinho que na terça feira de carnaval ia sempre almoçar uma feijoada de cabeça de porco. Era o restaurante Gambrinus na baixa lisboeta que costumava apresentar esse prato no dia em questão, recuperando assim uma antiga tradição do Norte e do Centro do país, que associava o carnaval a um festival de fumeiro regional.

Ficou célebre um desses almoços.

No Gambrinus normalmente comia-se caro. Era uma casa de referência no panorama da restauração lisboeta que se orgulhava de ter um serviço excecional, matéria-prima de muita qualidade e preços a condizer.

No balcão da entrada ainda podíamos brincar um pouco aos endinheirados, compondo a refeição com uns pedidos mais próprios de “cervejaria”, os pregos do lombo, os croquetes com mostarda de Dijon, uma omelete de salsa.

Mas dentro das salas, nas mesas alvas revestidas de bons panos e melhores talheres, quem se sentasse devia ter bolsos fundos.

Nessa ocasião eu tinha sugerido bebermos com a feijoada uma Magnum de Periquita – JMF,  que por lá existia e a preços muito razoáveis (por ser raramente pedida).  Embalados pela sensatez desse preço rematámos a refeição carnavalesca   com um whisky de malte velho que estava datado  –  Knockando  – o qual se veio a revelar ser   mais caro por cabeça do que o almoço todo junto.

Viemos embora a dizer mal da nossa vida. E de metropolitano, porque não havia dinheiro para o táxi.  Éramos “putos” de vinte e poucos anos, todos jovens assistentes universitários, e tínhamos dado o passo maior do que a perna. Fez parte do processo de crescimento.

Concluindo, mesmo que nunca fosse fanático do Carnaval, a influência desses dias mais endiabrados não deixava de se fazer sentir no meu comportamento, sobretudo se ao meu lado existia quem desse importância ao assunto.

E hoje? Sopas e descanso?

Está mais para aí do que para outro lado. A única fuga à rotina habitual é que mantenho em casa a tradição da feijoada, usando a feijoca grada da Serra da Estrela, para o almoço da terça-feira gorda.

Ou seja, não pratico, mas não tenho raiva nenhuma a quem seja adepto da quadra.

“À chacun sa biche”.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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