Não se confunda Bayer, a cidade da aspirina,  com Bayern , a região da Baviera, o maior estado federal da Alemanha, que é famosa pela cerveja e pelo futebol.

Esta crónica será todavia sobre  cerveja e não sobre o clube do Neuer e do  Muller.

Se me derem a escolher prefiro vinho. Sem pestanejar. Mas também já bebi cervejas muito interessantes, sobretudo na Bélgica e (lá está) na Baviera.

As cervejas de Munique mais conhecidas no mundo são as chamadas “6 grandes":  Lowenbrau; Hofbrauhaus; Augustinerbrau; Paulaner; Hacker-Pschorr; Spaten.

Não posso afirmar que provei estas todas. Mas na Alemanha bebi com um especialista uma outra marca pouco conhecida, a "Augustiner Edelstoff",  uma Läger de qualidade e que, apesar de me parecer um pouco doce de início, caiu bastante bem a acompanhar uma refeição típica de Munique.

Fui almoçar nessa ocasião  com o meu amigo Schneider , homenzarrão que encontrou em mim um parceiro ideal para as comilanças, desgostoso com os outros "clientes" que ele também representava, sempre a fugirem das calorias como o diabo foge da cruz.

Recordo que tive de aturar nessa tarde um tratado de comida bávara e de cerveja da mesma região que parecia nunca mais ter fim: a salsicha branca (weisswurst); o joelho de porco assado (schweinshaxe); a couve em "choucroute" (sauerkrat) e para provar no fim do pantagruélico festim, os escalopes panados (schnietzel).

"Unbelievable!" que era o que ele costumava dizer quando pasmava com alguma coisa...

Cada vez que eu ia à Alemanha encontrar-me com esse amigo era certo e sabido que vinha com mais uns 4 quilinhos...  e foi com ele que aprendi que uma cerveja também pode ter aptidão gastronómica.  Por muito que me custasse acreditar.

Bebi por sua sugestão umas cervejas artesanais de muita qualidade, de micro destilarias situadas no "Hinterland"  e que ele tinha o cuidado de comprar quando sabia que eu iria aparecer. Não me perguntem pelo nome delas...

Este amigo era um alemão francófono, que se deslocava umas quatro vezes por ano a Lyon "para comer". Fanático do restaurante dos irmãos Trois Gros, em Rouanne, tornou-se amigo de um dos donos e trazia-lhe as melhores cervejas artesanais bávaras para levar em troca para a Alemanha as "poires" e "cognacs" que ele muito apreciava.

Era muito grande  e pesado, e a mulher, uma senhora de classe alta de Hamburgo, muito o doutrinava para ter mais cuidado a comer e a beber.  E acho que ela não gostava muito de mim, pois o amigo quando sabia que eu estava para chegar sentia-se mais à vontade para transgredir.

Como me costumava dizer: “tenho que perder peso, mas a carne é fraca amigo…”

Quando vinha a Portugal eu regalava-o com o nosso peixe magnífico e com os nossos vinhos verdes. Adorava o Palácio da Brejoeira e era um dos melhores apóstolos na Alemanha dessa marca.

E amava o fado! Nem sei bem porquê idolatrou a nossa canção nacional e tornou-se adepto. Até criou uma tertúlia na sua terra natal para ouvirem fado.  

Durante muito tempo fui-lhe mandando os discos dos novos intérpretes.

Um grande e bom amigo a quem a vida – para o final -  não tratou muito bem.

*A crónica Bem Comer entrará em interregno a partir da próxima semana para que o Manuel Luar passe a dar voz às Gargantas Soltas, quinzenalmente, no nosso site.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin
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