Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Bem Comer: A Porca (com vossa licença) das Feiras

Vicissitudes da vida de trabalho mais antiga levavam-me com alguma frequência a Pero Pinheiro. Já…

Texto de Andreia Monteiro

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Vicissitudes da vida de trabalho mais antiga levavam-me com alguma frequência a Pero Pinheiro.

Já que estávamos perto de Negrais havia que ir manducar para aqueles lados onde,  em tempos idos,  "reinava" como um dos maiores fornecedores de mármores  e granitos decorativos a todo o país o excelente Senhor Casinhas, grande amigo de  meu pai.

Conhecido pelo seu grupo de compinchas, todos fiéis devotos da leitoa de Negrais, o Senhor Casinhas tinha "desafiado" meu pai durante o Pau de Fileira da remodelação do Palácio de S. Bento (à entrada do Prof. Marcelo Caetano) num conflito gastronómico épico à volta de duas (!) leitoas de Negrais, de que ainda hoje guardo memória.

O Ex-Libris gastronómico desta região dos mármore de Negrais é a antiga "Leitoa de Negrais" assada aberta sobre um fogo de lenha, sendo bastas vezes salpicada com um molho especial que variará de casa para casa.

Trata-se de um muito antigo prato das feiras limítrofes, talvez com mais de 200 anos, que seria preparado a céu aberto nas festas religiosas da época, desde a Nossa Senhora do Cabo até à Nossa Senhora da Luz, passando por locais como Caneças ou as Mercês.

Recorremos à Direção Geral da Agricultura e Desenvolvimento Rural para explicar melhor o processo de confeção:  Os leitões eram vendidos ainda vivos na Feira da Malveira e depois eram engordados em casa do assador. Quando atingiam o peso requerido eram abatidos, aproveitando-se todo o sangue. Eram escaldados e chamuscados para lhes retirar as cerdas, depois eviscerados, lavados, espalmados e mergulhados em água.

Seguidamente eram pendurados para escorrer a água e ficavam em sal 3 a 4 h. Após eliminação do excesso de sal eram temperados com um molho especial de alho moído e pimenta e sujeitos a assadura em forno de lenha bem quente por um período de 2 a 2,5 h.

Os pezinhos e orelhas, assim como a língua, fígado e bofe iam ao forno juntamente com a leitoa, num alguidar colocado por debaixo para aparar o molho da assadura, sendo depois utilizados para fazer arroz ou cozer com batatas.

A assadura propriamente dita processava-se em duas fases: na primeira, a leitoa, colocada num tabuleiro sobre a chamada canoa (ripas estendidas no tabuleiro), ia assar com o lombo virado para cima durante 20 a 30 min em forno muito quente, ganhando aqui a cor tostada. Na segunda fase, o bicho era virado de barriga para cima, dando-se então o processo de assadura total, que levava outra hora a completar-se.

A Leitoa queria-se bem assada, pele vidrada e estaladiça, mas...a forma de preparação,  com a leitoa  "escalada", resseca obviamente mais as partes carnudas do animal do que a assadura da Bairrada, com o leitão fechado e espetado.

Contudo, as costelas da Leitoa de Negrais costumavam estar divinais, bem aconchegadas pela gordura intersticial, embora a febra da perna fosse um pouco mais seca...

E se me perguntarem qual prefiro,  o Leitão da Bairrada ou a Leitoa de Negrais, direi: prefiro o da Bairrada. A não ser que a Leitoa de Negrais venha só com costela... Aí, e em dia santo, sou capaz de dar empate...

Fica o mistério: porque é que na Bairrada qualquer leitão, seja macho ou fêmea, vem para o prato como sendo “leitão”, enquanto em Negrais e ali perto qualquer bicho da mesma raça aparece-nos sempre como “leitoa”?

É uma polémica semelhante à do bife de vaca ou de boi…

Vinho para acompanhar este prato tão antigo teria de ser o tinto da região, bebido à caneca? Talvez, há 200 anos atrás.

Mas hoje, felizmente, temos o magnifico espumante. E para não ficarmos muito longe da origem da Leitoa, deixem-me recomendar o Espumante de Arinto da Quinta da Romeira de 2014, aconselhado pela Confraria do Arinto de Bucelas. É um Bruto muito bem conseguido, que se pode comprar por menos de 10 euros.

 

Manuel Luar

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

3 Abril 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 10

27 Março 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 9

20 Março 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 8

13 Março 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 7

6 Março 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 6

28 Fevereiro 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 5

21 Fevereiro 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 4

14 Fevereiro 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 3

7 Fevereiro 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 2

31 Janeiro 2020

Bem Comer: A carne é fraca. Número 1

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Maria Luís sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0