Bem-vindo, 2020! Neste ano, continuaremos a desvendar o segredo que se esconde por trás de algumas expressões portuguesas, revisitando-as. A sua origem é variada: da mitologia à cultura popular, passando pela publicidade, televisão e até pela política.

Mantenho, neste novo ano, o meu convite inicial: venham comigo numa viagem em que partimos à procura destas histórias. E começamos o ano com uma bem conhecida…

«Discutir o sexo dos anjos.» Este é um exemplo de uma expressão frequentemente usada no nosso quotidiano. Mas, caro leitor, conhece a sua origem? Sabia que a querela do sexo dos anjos realmente existiu? «Discutir o sexo dos anjos» aplica-se a um debate cujo assunto é inútil ou que não permite chegar a acordo ou conclusão, isto quando existem problemas mais importantes para tratar, tal como aconteceu… em Constantinopla.

Sim, discutir o sexo dos anjos foi o que sucedeu em 1453, durante a tomada de Constantinopla, a atual Istambul, capital do Império Romano do Oriente, também conhecido como Império Bizantino. Enquanto o imperador Constantino XI, numa luta atroz e violenta, comandava a resistência aos turcos, as autoridades cristãs, em estado calmo e sereno, estavam reunidas num concílio e debatiam questões teológicas. Um dos tópicos de discussão era (literalmente) se os anjos tinham sexo ou não. Entretanto, Constantinopla era conquistada, e o Império Bizantino terminava com a morte sangrenta do imperador e de milhares de pessoas. Quanto ao debate, segundo se sabe, ninguém chegou a uma conclusão satisfatória… Mas a expressão manteve-se e ainda hoje é usada.

Despeço-me com amizade até à próxima crónica.

Texto de Ana Salgado
Ilustração de Sèrgio Neves

Se queres ler mais crónicas do Outros Quinhentos, clica aqui.