Na última crónica em que descobrimos a origem da expressão que encabeça a nossa rubrica, fiz uma promessa. Ainda se lembram? Prometi desvendar a origem da expressão de despedida que aqui será sempre usada: «Despeço-me com amizade»

Afinal, como surgiu a expressão «Despeço-me com amizade»?

Em tempos, para mim, tempos de infância, havia um programa televisivo chamado TV Rural. Os mais novos, talvez, não se lembrem ou até nunca tenham ouvido falar do mesmo, mas este programa foi transmitido semanalmente durante muitos anos, de 1960 a 1990. O programa, dedicado à vida no campo e à sua gente, era apresentado por Sousa Veloso, engenheiro agrónomo, que trabalhava no Ministério da Agricultura. Ao terminar a emissão, ele usava sempre a mesma frase: «Despeço-me com amizade até ao próximo programa.» Foram 30 anos sempre a ouvir esta mesma expressão. E assim, digamos que era inevitável, «Despeço-me com amizade» acabou por entrar na boca dos portugueses. Decidi, então, recuperar a expressão de despedida para também eu finalizar todas estas crónicas.

Mas há mais expressões criadas por artistas?

Muitas expressões, transmitidas de geração em geração, têm a sua origem em ditos transmitidos televisamente. Os órgãos de comunicação exercem, de facto, um papel importantíssimo em torno da língua. Se és mais novo, talvez nunca tenhas ouvido esta tão célebre expressão de despedida, mas certamente já terás ouvido algures por aí: «Eles falam, falam e não dizem nada!» A quem se deve esta expressão? Quem sabe? Na primeira edição do Big Brother (2000), um dos concorrentes, Marco Borges, queixando-se de ter sido o único que havia corrido numa passadeira os quilómetros exigidos pela produção do programa, emite a célebre frase: «Há aí palhaços que falam, falam, falam, falam, falam, e não os vejo a fazer nada.» Depois, passados uns anitos, já em 2003, são os Gato Fedorento, com a Série Fonseca, que passava na SIC RADICAL, que tornam este dito popular com o célebre sketch que podes recordar ou ver aqui. «Porque quando eu vejo que há aí palhaços, pá, que falam, falam, falam, falam, falam, falam, pá, e eu não os vejo a fazer nada, pá, fico chateado, com certeza que fico chateado!» Aliás, podemos dizer que os Gato Fedorento foram muito criativos e produtivos no que respeita à criação de expressões, resmas delas passaram a ser usadas por todos nós. Uso propositadamente o vocábulo «resmas» para fazer a transição para um outro humorista, responsável também ele por algumas expressões que agora enriquecem a língua portuguesa. Nas conversas de Nelo e Idália (Herman José e Maria Rueff), esse casal imortal que fez parte dos programas Herman SIC, Hora H e Herman 2010, mais tarde essas personagens foram adaptadas a uma série de televisão portuguesa de comédia, intitulada Nelo & Idália, «resmas» e «paletes» converteram-se em sinónimos de uma grande quantidade de algo. Falamos, naturalmente, de Herman José.

Mas não penses que podemos dizer tudo o que nos vem à cabeça! Quantas vezes, quando somos um pouco mais atrevidos ou desbocados, ouvimos a expressão: «Não havia necessidade.» E o responsável é o Herman. Parece que a sua mãe usava bastante essa expressão, algo como: «Meu filho, não havia necessidade de estares com essas coisas.» A expressão foi usada, pela primeira vez, no programa Herman Enciclopédia (1997-98), quando Herman fazia de Diácono Remédios, proferindo: «Não habia nexexidade.» Foi tal o êxito, que a expressão passou a ser usada recorrentemente, sempre, claro, que a tirada é mais picante ou inconveniente. E já que estamos a falar de Herman José, aproveitemos para recordar uma outra sua expressão, muito comum quando falamos da língua portuguesa: «A língua portuguesa é muito traiçoeira!» Pois é, saltamos de programa, porque esta nasce com o programa Casino Royal, em que Celeste Royal (Ana Bola), perita em bons pontapés na gramática dizia: «A língua portuguesa é muito traiçoeira.» Estamos todos de acordo, certo?

Para terminar, penso que só falta mesmo perguntar: «Onde é que estavas no 25 de Abril?» A frase é usada por Artista Bastos, mais uma personagem de Herman José, caricaturando o célebre e saudoso jornalista e escritor Baptista-Bastos. Mas recuemos um pouco mais no tempo. Na realidade, durante as cerimónias comemorativas dos 41 anos da Revolução, o deputado do CDS-PP Michael Seufert profere o seguinte discurso: «Se nos últimos quatro anos ouvimos da forma quase habitual vozes que vinham reclamar a “pureza de Abril”, os “valores de Abril”, ou chegaram até a apontar um dedo aos que, diziam eles, “traíam Abril, então é legítimo perguntar-lhes não “onde é que tu estavas no 25 de Abril”, mas “onde é que tu estavas quando Portugal foi conduzido à bancarrota.» Humoristas, sempre atentos, aproveitaram a tirada.

Bem, quase a terminar, em modo animado, vem-me à cabeça uma outra expressão que muito ouvi na minha infância: «É disso que o povo gosta!» Januário Oliveira, locutor brasileiro de uma voz inconfundível, repetia esta frase sempre que comentava uma partida de futebol, sempre não, quando havia um «golaço, aço, aço, aço», claro!

Pois bem, também eu espero que tenham gostado e, já sabem, despeço-me com amizade, até à próxima crónica.

Texto de Ana Salgado
Ilustração de Carla Rosado

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