«Isto aqui mais parece a casa da mãe Joana!» É bem possível que quem leia estas linhas já tenha ouvido algo assim. Fala-se de um local ou uma situação, dizendo que se parece à casa de uma tal Joana, que se apresenta ao mundo como mãe. O leitor nunca ficou perturbado com esta alusão? Quem é a Joana? E é mãe de quem?

São perguntas legítimas, pois claro. Eu também já as fiz, e ainda as faço. Procurei saber quem era essa tal Joana, o que se passava na sua prodigiosa casa. Alguma coisa aprendi, que irei partilhar contigo, leitor ávido. Mas antes, outra pergunta: sabes o que significa? É simples: balbúrdia, confusão, lugar onde qualquer um entra, sem pedir licença a quem quer que seja, onde faz o que lhe dá na gana. Visto assim, talvez a Joana seja uma moça bem divertida. Veremos.

Quem é, pois, a Joana? Lisboeta? Alentejana? Portuense? Nada disso: ela era napolitana. Muito provavelmente, dizem uns poucos por aí, trata-se de Joana I, rainha de Nápoles e condessa da Provença, que viveu ali pelos anos de 1300 e picos. Gabava-se-lhe a inteligência e a beleza, e ela dedicava-se à política. Depois de algumas confusões de corte, que não vêm ao caso, teve de sair de Nápoles, mudando-se para Avinhão. Aqui, diz-se, voltou a pôr mãos à obra e a dedicar-se à governação. De entre as suas várias medidas, houve uma que acabou por ter um destaque inesperado, não só em Avinhão, mas também aqui em Portugal e, claro, noutros países de língua portuguesa. Ela regulamentou o funcionamento dos bordéis, protegendo-os.

E acaba aqui a história? Bom, sim. Pelos vistos, os bordéis de Avinhão passaram a ser conhecidos como «casa da mãe Joana», que possivelmente deu azo a outra expressão: «o da Joana». Depois, pelas inexplicáveis e estranhas voltas da vida, a «casa da mãe Joana» pôs o pé fora das muralhas de Avinhão e percorreu os cerca de 1200 quilómetros até Vilar Formoso, estabelecendo-se entre nós com muito êxito, tanto que ainda hoje falamos dela. Ah, já me esquecia, e porquê «mãe»? Se calhar era vista como uma mãe, protetora dos mais indefesos… parece-lhe uma boa explicação? Quanto a mim, não encontro uma melhor.

Portanto, temos uma Joana de Itália (aliás, mãe Joana, embora os filhos nunca apareçam na conversa), uma casa em França e uma expressão usada em Portugal. É rebuscado? Talvez seja. Terá sido assim? Talvez sim, talvez não. Possivelmente, a dúvida permanecerá, mas não deixa de ser uma boa história: reconte-a, leitor!

E assim, como sempre, despeço-me com amizade, até à próxima crónica.

Texto de Ana Salgado
Ilustração de Sérgio Neves

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